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	<title>Arquivos Artigo - Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</title>
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	<description>Psicólogo, coach de carreiras, orientador vocacional e psicoterapeuta</description>
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	<title>Arquivos Artigo - Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</title>
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		<title>Caminhos para afinar expectativas entre trabalhadores e empresas na era do quiet quitting</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/10/14/caminhos-para-afinar-expectativas-entre-trabalhadores-e-empresas-na-era-do-quiet-quitting/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Oct 2022 20:38:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Para Platão, as principais matérias a serem ensinadas aos jovens eram sobretudo ginástica, que harmoniza o corpo, e música, que harmoniza o espírito.” (Domenico De Masi, em O ócio criativo) Para encontrar caminhos possíveis e capazes de afinar as expectativas entre trabalhadores, trabalhadoras e as empresas, retomo as reflexões sobre os dois grandes fenômenos atuais [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/10/14/caminhos-para-afinar-expectativas-entre-trabalhadores-e-empresas-na-era-do-quiet-quitting/">Caminhos para afinar expectativas entre trabalhadores e empresas na era do quiet quitting</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“Para Platão, as principais matérias a serem ensinadas aos jovens eram sobretudo ginástica, que harmoniza o corpo, e música, que harmoniza o espírito.”<br />
</span></i><i></i></h5>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">(Domenico De Masi, em O ócio criativo)</span></i></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Para encontrar caminhos possíveis e capazes de afinar as expectativas entre trabalhadores, trabalhadoras e as empresas, retomo as reflexões sobre os dois grandes fenômenos atuais que atravessam o mundo do trabalho: </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">. Começamos essa discussão no último artigo, compartilhado aqui no meu blog e, agora, seguimos com seu desdobramento e com a elaboração de algumas das saídas e meios para que tanto a demanda das pessoas como das organizações possa ser atendida dentro de uma harmonia, na qual trabalho, lazer, valores e propósito têm espaço, tempo e qualidade. Te convido, então, a seguir com a leitura. Vamos lá? </span></p>
<h3><i><span style="font-weight: 400;">Quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">: uma breve retomada</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"> Antes de entrarmos, no entanto, nas reflexões em relação às saídas para um encontro equilibrado entre produtividade e qualidade de vida, retomo, de forma breve, os conceitos de </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">. O primeiro fenômeno &#8211; traduzido como demissão silenciosa &#8211; pode ser entendido como um movimento que coloca em cheque a forma como o mercado de trabalho foi encarado até então e que vai na contramão de movimentos anteriores como da cultura do “</span><i><span style="font-weight: 400;">work hard, play harder</span></i><span style="font-weight: 400;">”- trabalhe muito, se divirta muito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, o quite quitting convoca as pessoas a cumprirem o mínimo desejado para que continuem empregadas, sem dar o máximo à empresa e ou superar suas limitações. O movimento do </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">fala sobre realizar somente as tarefas que foram combinadas e estão dentro do escopo daquela função. Nada mais. Sem tarefas extras não remuneradas, sem ficar além do horário definido no escritório e sem trabalho aos finais de semana. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já o segundo fenômeno, </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; ou grande demissão &#8211; se refere aos milhões de trabalhadores que, voluntariamente, têm deixado seus postos de trabalho nas principais economias do mundo. O movimento global é caracterizado pelo desligamento voluntário do emprego e pode ser visto como um chamamento a uma nova forma de encarar a vida profissional, na qual o trabalho deve fazer sentido também para o empregador &#8211; e não somente para a empresa &#8211; e na qual se busca a preservação do bem-estar mental.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Mas, então, como afinar as expectativas entre empresas e trabalhadores? </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Para começar, como saída possível para trabalhadores e trabalhadoras, dentro de suas realidades e contextos, compreendo que esteja a busca por uma experiência de trabalho alinhada aos seus valores e que, de fato, faça sentido dentro da sua compreensão de vida e de propósito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, mais do que buscar por uma vaga de emprego, acredito que seja importante avaliar se aquela empresa em questão &#8211; mais do que uma função &#8211; oferece oportunidades de atuação e de desenvolvimento que estejam alinhadas às expectativas profissionais e pessoais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, aspectos relacionados à cultura da empresa precisam ser observados. Além disso, o autoconhecimento é importante para que as pessoas se façam perguntas como:  “será que esse trabalho atende minhas demandas e propósitos?&#8221; “será que estou numa área que me faz feliz? Estou numa empresa alinhada com meus valores? Estou de fato no caminho profissional que gostaria?” </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando a resposta para a maior parte dessas perguntas é “não”, podemos estar diante de um desinteresse ou de um distanciamento que podem levar ao quiet quitting. Sob a perspectiva de especialistas em negócios e que olham apenas pelo ponto de vista da empresa, a aderência à demissão silenciosa pode impedir a evolução profissional.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, existe nesse argumento uma armadilha que é a da promessa de ascensão social e enriquecimento por meio do trabalho pesado. Na verdade, essa promessa não passa de um engodo, de uma falácia, de mais um instrumento de exploração da mão de obra e que gera um trabalhador angustiado, inseguro de si e da sua função. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na tentativa exasperada de satisfação profissional e de realização do que se espera de desempenho, em um contexto superexigente, as pessoas acabam por colocar em risco sua saúde e sua vida pessoal. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entendo que diante dessa conta que não fecha, o caminho talvez seja recalcular a rota e planejar a busca por algo que faça mais sentido para suas escolhas pessoais. O poder da escolha é libertador. Aquilo que se apresenta, me representa? Se perguntar e refletir é ponto chave e destrava portas.</span><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, no artigo anterior, mencionei a pandemia como um dos fatores que colaboram &#8211; ou colaboraram &#8211; para as transformações no mundo do trabalho e para o surgimento dos fenômenos </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">. Compartilho, agora, da visão do sociólogo italiano, Domenico De Masi, que, em recente entrevista ao jornal O Globo, destaca que:</span></p>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“a pandemia também acelerou a conscientização entre os profissionais de que seu trabalho pode ser realizado de forma mais livre e satisfatória, aumentando tanto a produtividade quanto a qualidade de vida. E convenceu milhões de trabalhadores de que o trabalho não é humano se não for inteligente e livre.”</span></i></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, vejo os fenômenos do </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e do great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;"> como a postura atual de decidir não servir mais a um modo de produção que se impõe de forma tirana, ditando o ritmo de trabalho e o que deve ou não ser priorizado, ocupando toda a vida dos trabalhadores. Ao perceber essa situação invasiva, muitas pessoas começaram a priorizar a qualidade de vida e seus projetos pessoais, mesmo que em detrimento de uma maior ascensão profissional.</span></p>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;a bem da verdade, o que significa aproximar-se do tirano senão afastar-se de sua liberdade e, por assim dizer, agarrar com as duas mãos e abraçar a escravidão?&#8221;<br />
</span></i><i></i></h5>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">(​Etienne de La Boétie, em o Discurso da Servidão Voluntária)</span></i></h5>
<h3><span style="font-weight: 400;">E as empresas, o que elas podem fazer para atender às expectativas e  evitar</span><i><span style="font-weight: 400;"> situações de quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">?</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Chegando agora no espaço das organizações, entendo que entre as saídas possíveis para maior e melhor engajamento dos trabalhadores e trabalhadoras estão o repensar o modelo de produtividade &#8211; abandonando a visão míope e retrógrada de poder baseada no castigo e recompensa, controle físico e emocional dos funcionários &#8211; e o promover políticas de retenção de talentos eficientes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As transformações do mundo do trabalho e de gestão de pessoas apontam para ações que colocam a produtividade como resultado da motivação dos envolvidos. Para isso, é preciso promover a autonomia, abrir espaços para as habilidades de cada um e estabelecer uma relação de confiança, não de controle ou de imposição. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, divido aqui o conceito de </span><i><span style="font-weight: 400;">“smart working</span></i><span style="font-weight: 400;">”, definido por De Masi, que trata de </span><span style="font-weight: 400;">“uma abordagem de organização do trabalho que visa a gerar maior eficiência e eficácia na obtenção de resultados por meio de uma combinação de flexibilidade, autonomia e colaboração, em paralelo com a otimização de ferramentas e ambientes para os trabalhadores. Obviamente, nem todos os trabalhos são teletrabalháveis: por exemplo, um barbeiro ou um cirurgião não podem teletrabalhar. Além disso, o smart working é voluntário: depende de um acordo livre entre o trabalhador e a empresa, e ambos podem desistir a qualquer momento.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, acredito que seja importante destacar que compreender o incentivo para desenvolver projetos criativos e paralelos e respeitar o tempo para atividades pessoais e de lazer dos trabalhadores e trabalhadoras não se trata de prejuízo ou perda de produtividade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pelo contrário, ao proporcionar um encontro harmônico entre as expectativas da empresa e das pessoas contratadas, é possível investir em forças potentes, capazes de gerar mais confiança, bem-estar e qualidade de vida, fatores catalisadores de maior engajamento, comprometimento e atração. Um exemplo é a importância dos programas de retenção de talentos, que se trata de uma forma de tornar a empresa mais atraente para os trabalhadores.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para finalizar este artigo, entendo que devemos seguir por um caminho de questionamentos, de revisão e de enfrentamento do que sempre foi posto. Para isso, entendo também que seja fundamental afinar os acordes de um instrumento de escuta e de compreensão, de horizontalidade, no qual os anseios possam ser compartilhados, sem dominação ou intimidação, mas com liberdade e humanidade. Gostaria de pontuar essa questão com algo bastante prático. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No consultório, muitos clientes, quando tomam conhecimento de novidades como o trabalho híbrido ou a semana de quatro dias, por exemplo, sempre me questionam de que forma isso poderá ser usado contra eles. É um alerta importante e, desse modo, acho fundamental incluir aqui que estas medidas, quando tomadas, devem ser tomadas visando, genuinamente, o bem-estar do trabalhador e da trabalhadora e a melhora do ambiente de trabalho, caso contrário, poderão não surtir efeito.</span></p>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“no início serve-se contra a vontade e à força; mais tarde, acostuma-se, e os que vêm depois, nunca tendo conhecido a liberdade, nem mesmo sabendo o que é, servem sem pesar e fazem voluntariamente o que seus pais só haviam feito por imposição. Assim, os homens que nascem sob o jugo, alimentados e criados na servidão, sem olhar mais longe, contentam-se em viver como nasceram; e como não pensam ter outros direitos nem outros bens além dos que encontraram em sua entrada na vida, consideram como sua condição natural a própria condição de seu nascimento”.</span></i></h5>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">\(​​Etienne de La Boétie, em o Discurso da Servidão Voluntária)</span></i></h5>
<p><b><i>Espero que as reflexões trazidas aqui tenham sido úteis. Fiquem à vontade para compartilhar outros pontos de vista! Nos encontramos no próximo artigo!</i></b></p>
<p><b><i>Até lá. </i></b></p>
<p><b><i>Fontes:<br />
</i></b><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2022/09/domenico-de-masi-o-trabalho-nao-liberta-ninguem.ghtml?utm_campaign=ebook" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><b><i>O Globo</i></b></a><br />
<a href="https://www.istoedinheiro.com.br/quiet-quitting-especialista-explica-como-evitar-o-desinteresse-no-trabalho/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><b><i>Isto É </i></b></a><br />
<a href="https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/polemica/article/view/25204/18037" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><b><i>UERJ </i></b></a><br />
<a href="http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_2007_11_Boetie.htm" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><b><i>Discurso Sobre a Servidão Voluntária &#8211; Étienne de La Boétie</i></b></a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Quiet quitting e great resignation: dois fenômenos do mundo do trabalho que convocam à mudança</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/09/23/quiet-quitting-e-great-resignation-dois-fenomenos-do-mundo-do-trabalho-que-convocam-a-mudanca/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Sep 2022 19:09:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Resolvam não servir mais, e serão imediatamente libertados. Não peço que coloquem as mãos sobre o tirano para derrubá-lo, mas simplesmente que não o apoiem mais; então o observarão, como um grande Colosso cujo pedestal foi arrancado, cair de seu próprio peso e quebrar-se em pedaços”. (O Discurso da servidão voluntária, de Étienne de La [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“Resolvam não servir mais, e serão imediatamente libertados. Não peço que coloquem as mãos sobre o tirano para derrubá-lo, mas simplesmente que não o apoiem mais; então o observarão, como um grande Colosso cujo pedestal foi arrancado, cair de seu próprio peso e quebrar-se em pedaços”.</span></i></h5>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">(O Discurso da servidão voluntária, de Étienne de La Boétie)</span></i></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Subverter a ordem que vigora. Subverter a ideia que impera. O mundo do trabalho é atravessado por dois grandes fenômenos, o </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">e o </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">, que têm movimentado as estruturas, até então bem sólidas, do modo de realizar as atividades profissionais. Como estudioso das relações sociais e do trabalho e como orientador profissional e de carreiras, compartilho neste artigo alguns dos aspectos desses dois movimentos que convocam trabalhadores – e empresas  &#8211; a repensarem o modelo tradicional de trabalho e a desenharem novas formas de atuação enquanto profissionais e corporações. Te convido para essa leitura e para, juntos, refletirmos sobre como os fenômenos “quiet quitting” e  o “great resignation” podem representar uma importante transformação não só no modo como se trabalha, mas, especialmente, no modo como se vive. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vamos lá?</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"> </span><span style="font-weight: 400;">O que são os fenômenos </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">?</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Para dar início a nossa conversa por aqui, gostaria de fazer uma ambientação dos fenômenos </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">. O primeiro conceito ganhou destaque depois que a hashtag #quietquitting viralizou, no TikTok,  com a publicação do vídeo de um engenheiro de 24 anos, chamado Zaid Khan, que explicou o que seria a proposta da</span><i><span style="font-weight: 400;"> quiet quitting</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; ou demissão silenciosa em português:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Você não está desistindo do seu emprego, mas está abandonando a ideia de ir além no trabalho&#8221;. “Você ainda está cumprindo seus deveres, mas não está mais seguindo a mentalidade da cultura de agitação de que o trabalho deve ser sua vida. A realidade é que não é, e seu valor como pessoa não é definido pelo seu trabalho.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ou seja, o fenômeno </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting pode ser visto </span></i><span style="font-weight: 400;">como um movimento que coloca em cheque a forma como o mercado de trabalho foi encarado até então e que vai na contramão de movimentos anteriores como da cultura do </span><i><span style="font-weight: 400;">“work hard, play harder”</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8211; trabalhe muito, se divirta muito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, o </span><i><span style="font-weight: 400;">quite quitting</span></i><span style="font-weight: 400;"> convoca as pessoas a cumprirem o mínimo desejado para que continuem empregadas, sem dar o máximo à empresa e ou superar suas limitações. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa maneira, o movimento do </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting</span></i><span style="font-weight: 400;"> chama a atenção para algo que poderíamos &#8211; sob certo ponto de vista &#8211; compreender como óbvio: realizar somente as tarefas que foram combinadas e estão dentro do escopo daquela função. Nada mais. Nada além do acordado. Sem tarefas extras não remuneradas, sem ficar além do horário definido no escritório e sem trabalho aos finais de semana. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, o </span><i><span style="font-weight: 400;">quite quitting</span></i><span style="font-weight: 400;"> inverte o modo como enxergamos o trabalho e indica a priorização da vida para além das demandas profissionais. Ou seja, o desejo de estar com a família, de ter momentos de lazer, descanso e de desempenhar outras atividades, para os adeptos do </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting</span></i><span style="font-weight: 400;">, se sobrepõe às ambições profissionais. O trabalho sai do centro da vida do sujeito e passa a ocupar quase que uma via marginal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa mudança na forma de encarar os mecanismos do trabalho, especialmente por parte dos jovens, pode ser analisada a partir de pesquisas sobre engajamento e desengajamento em relação às questões profissionais. Veja só:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De acordo com o relatório global da norte-americana, Gallup, para 2022, somente 9% dos trabalhadores no Reino Unido estavam engajados ou entusiasmados com seu trabalho, ocupando o 33º lugar entre 38 países europeus. Já a pesquisa da equipe do NHS, realizada em outono de 2021, mostrou que o moral havia caído de 6,1 de 10 para 5,8, e o engajamento da equipe caiu de 7,0 para 6,8. </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">A grande demissão: mais um movimento no mundo do trabalho</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante disso, podemos seguir para o próximo fenômeno, o </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; ou grande demissão &#8211; que se refere aos milhões de trabalhadores que, voluntariamente, têm deixado seus postos de trabalho nas principais economias do mundo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, o movimento global é caracterizado pelo desligamento voluntário do emprego e pode ser visto como um chamamento a uma nova forma de encarar a vida profissional, na qual o trabalho deve fazer sentido também para o empregador &#8211; e não somente para a empresa &#8211; e na qual se busca a preservação do bem-estar mental. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo um estudo da consultoria PwC, realizado com mais de 52 mil pessoas em 44 países, um em cada cinco entrevistados declarou que pretende trocar de emprego em 2022. Ainda de acordo com o levantamento, esse desejo é mais intenso entre os trabalhadores da geração Z (com idades entre 18 e 25 anos): 27% disseram que querem mudança de ares nos próximos 12 meses.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Por que esses fenômenos no mundo do trabalho têm surgido? </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Por que estamos vivendo essa onda de convocação à mudança? Por que rever as estruturas e movimentá-las? Bem, estudiosos apontam alguns fatores que colaboram &#8211; ou colaboraram &#8211; para esse chacoalhar no mundo do trabalho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre eles, claro, está a pandemia de Covid-19, que atravessou a vida de todas as pessoas e fez com que muitas questões, dadas como certas, fossem revistas, revisitadas e ressignificadas, não é mesmo?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa forma, a pandemia também afetou a relação das pessoas com o trabalho. Pesquisadores defendem que ao nos depararmos frente a frente com nossa mortalidade de modo mais incisivo &#8211; em razão das muitas incertezas relacionadas à Covid-19, o significado do trabalho se tornou muito mais aparente e questões existenciais passaram a pipocar muito mais: “o que o trabalho deveria significar para mim?” “o que tenho feito da minha vida, além de trabalhar?” “meu esforço para a empresa é recompensado? ou somente a empresa lucra com isso?”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para o professor de psicologia organizacional, Anthony Klotz, da </span><i><span style="font-weight: 400;">UCL School of Management</span></i><span style="font-weight: 400;">, responsável por cunhar o termo </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">, além da pandemia, existem outras razões capazes de explicar o fenômeno atual:</span></p>
<ol>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">muitas pessoas que pretendiam mudar de emprego no começo de 2020, precisaram adiar os planos;  </span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">a pandemia também expandiu as perspectivas de organização do trabalho (como as possibilidades de trabalho remoto ou híbrido);</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">epifanias (ou revelações) da vida profissional acontecem por conta de algum evento que transforma a visão ou os valores das pessoas, e a pandemia contribuiu muito para que isso ocorresse;</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">mais gente passou a questionar a dedicação à antiga empresa e decidiu utilizar essa energia para investir em um negócio próprio.</span></li>
</ol>
<p><span style="font-weight: 400;">Vale ainda destacar que, além desses fatores apontados por Klotz, a demissão voluntária pode estar relacionada a motivos como: a fuga do trabalho excessivo, a fuga do </span><i><span style="font-weight: 400;">Burnout</span></i><span style="font-weight: 400;">, de situações de assédio moral e do trabalho sem sentido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, é possível ver quais estímulos permeiam os dois grandes fenômenos atuais no mundo do trabalho que convocam a uma verdadeira revisão do espaço &#8211; e do significado &#8211; ocupado pela atividade profissional dentro da vida das pessoas.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Mas, e no Brasil? Quais as características do </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation?</span></i></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Falando em bom português, a demissão silenciosa e a grande demissão ganham novos contornos em terras tupiniquins. É preciso considerar que as características e as condições de um determinado espaço vão influenciar e até mesmo personalizar fenômenos globais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, no Brasil, os movimentos </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;"> podem ser vistos de um ponto de vista de estratificação, já que se tornam movimentos com marcadores sociais importantes. </span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso porque, lá fora, os fenômenos atuais do trabalho tendem a atingir pessoas de todas as classes sociais, mas, em especial, aquelas que ocupam empregos que tradicionalmente pagam pouco, como lixeiros e faxineiros. São também, em geral, pessoas mais jovens. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já no Brasil, os trabalhadores que saem dos empregos voluntariamente têm um nível de escolaridade mais alto, são profissionais diplomados e que, em geral, ocupam cargos com remunerações mais altas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os dados levantados pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) mostram esse perfil: </span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1">
<h5><span style="font-weight: 400;">2,9 milhões </span><span style="font-weight: 400;">foi o número de pedidos de demissão no Brasil entre janeiro e junho e 2022</span></h5>
</li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1">
<h5><span style="font-weight: 400;">48,2% </span><span style="font-weight: 400;">é o percentual dos pedidos de demissão que foram feitos por profissionais com ensino superior completo</span></h5>
</li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1">
<h5><span style="font-weight: 400;">33% </span><span style="font-weight: 400;">é o percentual dos pedidos de demissão que foram feitos por profissionais com ensino médio completo</span></h5>
</li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante dessas informações, convido a uma reflexão importante: quem pode pedir a conta? Quais trabalhadores e trabalhadoras, sob uma perspectiva social e política, têm o privilégio de refletir sobre o lugar do trabalho em suas vidas, em analisar as condições e pedir demissão de forma voluntária? Em um Brasil que peca, profundamente, em políticas públicas e em condições de acesso ao básico para sobrevivência humana, quem pode escolher se demitir? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto a ser considerado e que envolve as reflexões acima é a crescente taxa de desemprego que temos assistido por aqui. Segundo levantamento da agência de classificação de risco Austin Rating, elaborado a partir das novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a economia global, a taxa de desemprego do Brasil deve ficar entre as maiores do mundo em 2022.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No ranking, que inclui as projeções do FMI para um conjunto de 102 países, o Brasil aparece com a 9ª pior estimativa de desemprego no ano (13,7%), bem acima da média global prevista para o ano (7,7%), da taxa dos emergentes (8,7%) e é a 2ª maior entre os membros do G20 – atrás só da África do Sul (35,2%).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em junho deste ano, a taxa de desemprego no país manteve o recorde de 14,7%, atingindo 14,8 milhões, segundo o IBGE. A taxa e o número de desempregados foram os maiores desde o início da série histórica, iniciada em 2012.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos fatores que colocam o Brasil nessa situação de menos oportunidades de emprego formal é a retração do parque industrial brasileiro, que tornou o país, basicamente, em um país produtor de commodities. Ou seja, o Brasil teve interrompido seu ciclo produtivo expansivo, sua capacidade de industrialização, que se trata de uma das principais estruturas do desenvolvimento de qualquer nação. Sem força produtiva aqui dentro, reduzimos a oferta de trabalho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, em um cenário com menos oportunidades de vagas e assombrosos números de pessoas em busca de emprego, o medo de perder as condições mínimas de sobrevivência pode fazer com que a pessoa permaneça no trabalho, ainda que seu desejo seja sair. </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Por fim, o que os fenômenos </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation </span></i><span style="font-weight: 400;">têm a dizer e quais desafios eles colocam? </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Em suma, podemos ver que, embora no Brasil, a escolha por rever o tempo e a energia investidos no trabalho possa ser considerada um privilégio de classe, os fenômenos de </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation </span></i><span style="font-weight: 400;">chegam com o papel de desestabilizadores de um </span><i><span style="font-weight: 400;">status quo</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, podemos olhar através desses fenômenos de </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;"> e enxergá-los como despertadores de consciência no que diz respeito às formas de controle, de poder e de servidão em voga até então. Por outro lado, eles são desafios significativos para as organizações que precisam rever cultura, política e gestão de seus talentos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É certo que os movimentos começam a fazer barulho &#8211; para brincar com a expressão demissão silenciosa &#8211; e a afetar empregados e empresas. Novos caminhos precisam ser construídos, novas saídas precisam ser encontradas para que o encontro entre vida pessoal e trabalho seja um encontro de equilíbrio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, é fundamental olharmos para a promessa liberal de que o trabalho permitiria o acesso ao enriquecimento. Essa promessa foi quebrada pela lógica da precarização das condições de trabalho, dos excessos e pressões, que têm produzido, cada vez mais, incertezas e adoecimento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, como fechamento de minhas reflexões aqui, vejo que, por meio desses movimentos no mundo do trabalho, estamos vivenciando um levante que clama por limites, pela possibilidade de dizer “não” e por defender desejos, propósitos e territórios, que vão muito além do Google Meet e da cadeira giratória. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entendo que, por meio desses movimentos, a Sociedade do Desempenho, descrita pelo filósofo sul-coreano, Byung-Chul Han, começa, ainda que tímida, a despertar, a subverter a ideia de alienação de si e dos excessos, e a compreender que cansaço não é sucesso. </span></p>
<p><b><i>Por fim, para não me alongar mais, deixo aqui o convite para acompanhar, no próximo artigo, as saídas possíveis e os meios para que trabalhadores, trabalhadoras e empresas possam ajustar as expectativas e aos novos desenhos que surgem no mundo do trabalho. </i></b></p>
<p><b><i>Para mais artigos sobre trabalho e relações sociais, acesse meu </i></b><a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/noticias/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><b><i>blog</i></b></a><b><i>. </i></b></p>
<p><b><i>Até mais! </i></b></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b><i>Referências:</i></b></p>
<p><a href="https://epocanegocios.globo.com/colunas/Bolsa-de-Valores/noticia/2022/08/quiet-quitting-o-fenomeno-da-geracao-que-quer-fazer-o-minimo-possivel-no-trabalho.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Época Negócios </span></a></p>
<p><a href="https://forbes.com.br/carreira/2022/09/fernanda-abilel-quiet-quitting-qual-o-valor-de-um-profissional-que-faz-apenas-o-necessario/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Forbes</span></a></p>
<p><a href="https://www.istoedinheiro.com.br/quiet-quitting-especialista-explica-como-evitar-o-desinteresse-no-trabalho/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Isto É Dinheiro</span></a></p>
<p><a href="https://www.insper.edu.br/noticias/largar-o-emprego-e-continuar-empregado-e-o-fenomeno-da-quiet-quitting/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">INSPER</span></a></p>
<p><a href="https://www.theguardian.com/money/2022/aug/06/quiet-quitting-why-doing-the-bare-minimum-at-work-has-gone-global" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">The Guardian </span></a></p>
<p><a href="https://saude.abril.com.br/coluna/com-a-palavra/a-grande-demissao-a-saida-do-trabalho-em-busca-de-equilibrio/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Saúde Abril</span></a></p>
<p><a href="https://www.seudinheiro.com/2022/economia/grande-renuncia-empregos-brasil-demissao-lils/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Seu Dinheiro </span></a></p>
<p><a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2022/04/28/taxa-de-desemprego-do-brasil-deve-ficar-entre-as-maiores-do-mundo-em-2022-veja-ranking.ghtml" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">G1 </span></a></p>
<p><a href="https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2021/06/30/desemprego-pnad-ibge.htm" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">UOL</span></a></p>
<p><a href="https://www.nexojornal.com.br/expresso/2022/08/25/Como-o-fen%C3%B4meno-da-%E2%80%98grande-demiss%C3%A3o%E2%80%99-chega-no-Brasil" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Nexo Jornal </span></a></p>
<p><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/07/cultura/1517989873_086219.amp.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">El País</span></a></p>
<p><a href="https://www.estoico.com.br/1961/resenha-discurso-da-servidao-voluntaria/#:~:text=O%20Dis" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Discurso da Servidão Voluntária </span></a></p>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/09/23/quiet-quitting-e-great-resignation-dois-fenomenos-do-mundo-do-trabalho-que-convocam-a-mudanca/">Quiet quitting e great resignation: dois fenômenos do mundo do trabalho que convocam à mudança</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
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		<title>Psicoterapia: acolhimento e prática de liberdade para encontrar a si em meio ao mundo</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/07/21/psicoterapia-acolhimento-e-pratica-de-liberdade-para-encontrar-a-si-em-meio-ao-mundo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Jul 2022 19:05:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Aceitar a conscientização como horizonte não exige tanto mudar o campo de trabalho, mas a perspectiva teórica e prática a partir da qual se trabalha.&#8221; (MARTÍN-BARÓ, 1997:7) Percebi que já era hora de escrever novamente sobre psicoterapia. Na verdade, talvez seja sempre hora de falar sobre psicoterapia, pois percebo que ainda pairam muitas concepções equivocadas, [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/07/21/psicoterapia-acolhimento-e-pratica-de-liberdade-para-encontrar-a-si-em-meio-ao-mundo/">Psicoterapia: acolhimento e prática de liberdade para encontrar a si em meio ao mundo</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Aceitar a conscientização como horizonte não exige tanto mudar o campo de trabalho, mas a perspectiva teórica e prática a partir da qual se trabalha.&#8221; (MARTÍN-BARÓ, 1997:7)</span></i></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Percebi que já era hora de escrever novamente sobre psicoterapia. Na verdade, talvez seja sempre hora de falar sobre psicoterapia, pois percebo que ainda pairam muitas concepções equivocadas, tanto na forma como a psicoterapia é divulgada por profissionais que acompanho, como no discurso e expectativas de alguns clientes. Desse modo, este texto tem, então, o objetivo de partilhar com vocês algumas reflexões que faço a respeito deste tema que também é, em grande parte, objeto de minha prática e de meus estudos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Começo compartilhando com vocês que ser psicoterapeuta nem sempre foi meu objetivo profissional. Minha carreira teve início pela psicologia educacional, completamente direcionada para a orientação profissional e para suas relações com a saúde psicológica. Inclusive, foi este o tema do meu mestrado. Neste momento, os pensamentos sócio-históricos de Vigotski e, especialmente, de Fernando González Rey, eram a base do meu trabalho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dois anos após minha formação, concluí o mestrado e comecei a atuar na orientação profissional de adolescentes e jovens adultos. Mas não demorou muito para que a demanda pela psicoterapia surgisse por parte desses clientes que encerravam o processo de orientação e que desejavam iniciar o processo psicoterápico comigo. Assim, em função deles, e de minhas ótimas lembranças dos estágios em clínica na época da faculdade, decidi começar a acolher estes pedidos e, consequentemente, a procurar um supervisor e incluir o tema em minha rotina de estudos.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Sobre a relação entre subjetividade, sociedade e teoria</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Seguindo minha trajetória, já como professor universitário e supervisor de estágios, me deparei com a leitura de &#8220;O Existencialismo é um Humanismo&#8221;, de Jean-Paul Sartre, de quem eu já havia lido algumas peças literárias. A paixão foi imediata e, desde então, me dedico ao estudo do existencialismo e da fenomenologia, corrente de pensamento que ilumina toda minha prática, seja da orientação profissional ou da psicoterapia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora o pensamento sócio-histórico e o pensamento fenomenológico não possam ser sobrepostos, pois possuem entre si alguns conflitos referentes à visão de homem e ao referencial metodológico, há algo em comum entre eles que é a visão crítica a respeito da Psicologia e, principalmente, do papel social desempenhado por esta ciência. Ambos referenciais, à sua maneira, criticam a visão determinista que frequentemente é assumida pela Psicologia e destacam a importância de uma compreensão social da inserção do indivíduo no mundo que ele habita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, posso resumir o </span><b>papel desempenhado pela Psicologia</b><span style="font-weight: 400;"> em </span><b>duas direções</b><span style="font-weight: 400;"> diametralmente opostas: uma é a vertente que privilegia a adaptação do indivíduo à sociedade e a segunda é a que privilegia a compreensão do indivíduo que existe em meio à sociedade, mas que é livre para definir se deve ou não se adaptar às contingências às quais é submetido na vida social. Destaco aqui que minha escolha como profissional sempre foi pela segunda vertente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não vou me alongar muito a respeito da Psicologia que se propõe como adaptativa/normativa, pois nesta vertente a sociedade e suas normas não são questionadas e a ordem social, muito frequentemente, atropela as necessidades do indivíduo. Exemplos desta ótica são muito bem retratados pelo cinema em obras como &#8220;Estranho no ninho&#8221;, &#8220;Bicho de sete cabeças&#8221; e &#8220;Garota interrompida&#8221;. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Parto então para a concepção da Psicologia que me estimula e me move. Desde o início de minha formação como psicólogo senti uma grande atração pelas teorias que se propunham a compreender o ser humano em sua diversidade e complexidade. Sempre me afastei de enfoques interpretativos por acreditar que, frequentemente, as interpretações são formas de condicionar a realidade a uma determinada teoria. Acredito no oposto, na necessidade de adequar as teorias à realidade. Caso contrário, ao meu ver, estaríamos colocando o ser humano em uma forma (pré) definida pelos limites de uma teoria qualquer. Pois, como afirma González Rey (2002):</span></p>
<h5 style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">A teoria é uma construção sistemática, confrontada constantemente com a multiplicidade de idéias geradas por quem as compartilha e quem se opõe a elas, do que resulta um conjunto de alternativas que se expressam na pesquisa científica e que seguem diferentes zonas de sentido sobre a realidade estudada</span></i><span style="font-weight: 400;">.” (P.59-60)</span></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, o papel teoria é o de permitir a compreensão dos fenômenos estudados, mas sem nunca deixar de confrontá-la com as diferentes realidades que tentamos compreender. É justamente da tensão entre a realidade e o conhecimento existente que se torna possível a constante revisão das teorias.   </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Psicoterapia e de qual ser humano estamos falando?</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A pergunta deste subtítulo pode parecer uma pegadinha, mas garanto que não é. As principais faculdades que nos separam dos demais animais que habitam o planeta são a complexidade de nossa linguagem e nosso intelecto. Portanto, desde que os registros escritos começaram a ser usados, temos notícia de uma grande variedade de pensadores que se dedicaram a compreender a existência humana, sob os mais diferentes referenciais. Isso faz com que sempre que falamos de Psicologia seja necessário apontar de qual destes destes referenciais partiremos e qual tomaremos como baliza para nossa compreensão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, como destaquei no início do texto, o existencialismo é a guia que utilizo para compreender minha prática. Por esta perspectiva, o homem é compreendido como um ser no qual a existência precede a essência. A este respeito Sartre explica:</span></p>
<h5><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que em primeira instância, o homem existe, encontra-se a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. (&#8230;) O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: esse é o primeiro princípio do existencialismo.&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(1987:6)</span></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Para que não ocorra o risco de simplificar a afirmação acima, é importante lembrar que Sartre destaca qual papel da situação na existência humana e sua íntima relação com a liberdade. Não vivemos soltos no espaço, fazemos parte de uma sociedade e somos coautores de sua história. Desse modo, a afirmação nos aponta que, embora o mundo nos imponha uma série de condições que estão fora de nosso campo de escolhas, somos responsáveis por nossa existência, em qualquer que seja o contexto em que ela esteja inserida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A este respeito, Mendonça (2013) alerta para atitudes remanescentes do humanismo individualista antropocêntrico que habitam a prática psicológica. A autora alerta que em nome de acolher o indivíduo que se encontra em psicoterapia, muitas vezes o terapeuta acaba por legitimar no cliente uma visão de si como ser destacado e isento de qualquer relação com o mundo social que o cerca. Estas práticas desvinculam o Eu do Outro e ignoram &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">a noção de que a preocupação do sujeito lhe pertence e tem sua razão de ser na totalidade mais ampla de suas motivações existenciais.&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(p.82).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Concordo com a compreensão da autora de que a </span><b>ética humanista</b><span style="font-weight: 400;"> se norteia por dois vetores (p.83):</span></p>
<ol>
<li><b>A reverência fenomenológica do terapeuta pela experiência do cliente, seja ela qual for. </b><span style="font-weight: 400;">Ou seja, a garantia de uma atitude fenomenológica por parte do terapeuta a fim de facilitar um encontro empático com os sentimentos e pensamentos do cliente. Esta atitude será o fundamento de uma relação capaz de permitir ao cliente a ressignificação e transformação de seus sofrimentos.</span></li>
<li><b>A preocupação do terapeuta com a comunidade próxima do cliente. </b><span style="font-weight: 400;">Esta preocupação se faz presente, pois existimos em uma condição de ser-com. Nossa subjetividade é construída também a partir da relação com os outros que estão à nossa volta. Não há um ser que possua uma subjetividade que não esteja inserido em uma intersubjetividade. Portanto, uma saída saudável para o sofrimento é aquela que considera a relação do indivíduo com os demais.</span></li>
</ol>
<h3><span style="font-weight: 400;">E a psicoterapia, em que consiste?</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Sartre, assim como outros intelectuais franceses do início e meados do século XX, era um grande estudioso tanto da psicanálise quanto da fenomenologia. Este trânsito permitiu que, em sua obra, &#8220;O ser e o nada&#8221;, ele dedicasse um capítulo no qual tece críticas à psicanálise tradicional e reflete sobre o processo psicoterápico à luz de seu existencialismo. Neste texto, ele aponta:</span></p>
<h5><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Se admitimos que a pessoa é uma totalidade, não podemos esperar reconstruí-la por uma adição ou uma organização das diversas tendências empiricamente nela descobertas. Mas, ao contrário, em cada inclinação, em cada tendência, a pessoa se expressa integralmente, embora seguindo uma perspectiva diferente (&#8230;). Sendo assim, devemos descobrir em cada tendência em cada conduta do sujeito, uma significação que a transcenda.&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(1997:689)</span></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Sartre aponta neste trecho para a necessidade de desfazer a dualidade sujeito-sociedade em nome de uma compreensão na qual </span><b>indivíduo e sociedade tornam-se uma unidade em relação</b><span style="font-weight: 400;">. Não é possível pensar o indivíduo destacado da sociedade, nem tampouco a sociedade como se indivíduos não fizessem parte dela. Esta relação entre indivíduo e sociedade é invariavelmente única, pois cada um de nós, mesmo que inseridos na mesma cultura e na mesma sociedade, ocupamos lugares e papéis distintos, e a percebemos de forma singular. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, um comportamento não se resume ao ato isoladamente, podendo apenas ser compreendido a partir da relação específica que a pessoa que o emite tem com a sociedade em todas as dimensões, incluindo sua história pessoal. São estas relações que a psicoterapia deve buscar explorar e trazer à consciência para que, a partir delas, novos sentidos e novas escolhas possam surgir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui retomo a epígrafe deste texto:</span></p>
<h5><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Aceitar a conscientização como horizonte não exige tanto mudar o campo de trabalho, mas a perspectiva teórica e prática a partir da qual se trabalha.&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> (MARTÍN-BARÓ, 1997:7)</span></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">A conscientização citada por Martín-Baró é de uma natureza diferente daquela que costumamos usar em psicoterapia, contudo, percebo que ambas são complementares. É perfeitamente possível que a psicoterapia promova tanto uma compreensão de si a partir da sua história pessoal como de uma compreensão que considera a história da sociedade da qual participa. A ideia, então, é romper com a dicotomia indivíduo-sociedade e permitir que a pessoa construa uma compreensão de si como </span><b>ser singular em relação </b><span style="font-weight: 400;">com aqueles que coexistem com ela e com a sociedade como um todo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda sobre o processo psicoterápico Rogers indica:</span></p>
<h5><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Este processo implica uma certa maleabilidade na capacidade de apreensão dos mapas cognitivos da experiência. Partindo de um ponto em que a experiência é construída em quadros rígidos , captados como exteriores, o paciente caminha para um desenvolvimento que o modifica para a construção maleável de significações da experiência, construções que cada nova experiência modifica.</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; (1975:67)</span></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Em geral, o sofrimento psicológico está relacionado a compreensões de si que foram construídas ao longo da vida da pessoa, mas que não são coerentes com o momento atual de sua existência. Desse modo, o processo de psicoterapia visa colocar essas compreensões desatualizadas sob uma perspectiva atual, promovendo elaboração de novos sentidos, mais flexíveis, para as compreensões antes enrijecidas. </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Para finalizar…</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Gosto da proposta  de Mendonça (2013) que, inspirada na compreensão humanista, indica que um projeto terapêutico humanista (e eu acrescento, existencial), &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">deve ser guiado pelo propósito de promover </span></i><b><i>duas dimensões da cura existencial&#8221;.</i></b><span style="font-weight: 400;"> (p.86)</span></p>
<ol>
<li><b>A permissão dada pelo cliente para deixar de ser aquilo que está sendo. </b><span style="font-weight: 400;">Ao longo de nossa vida, desenvolvemos diversas crenças e compreensões a nosso respeito que formam nossa identidade. É a partir delas que nossa vida adquire uma certa estabilidade, pois a identidade permite o reconhecimento de nossa realidade sem que tenhamos que responder sempre as mesmas perguntas (quem sou, quais meus valores, quais relações importantes, etc). A partir dos questionamentos proporcionados pela psicoterapia, algumas destas crenças e compreensões são revisadas e podem sofrer alterações. Este processo pode parecer assustador e requer tempo para que a pessoa em terapia se autorize a seguir em frente com essas mudanças.</span></li>
<li><b>Acesso do cliente à capacidade de estabelecer relações de intimidade no espaço próximo de convivência.</b><span style="font-weight: 400;"> Nem sempre estabelecemos relações genuínas com as pessoas à nossa volta. Muitas vezes, nos conectamos com os outros a partir do papel que eles desempenham em nossas vidas ou a partir daquilo que eles nos proporcionam. Com o desenrolar do processo psicoterápico, o cliente terá a oportunidade de tomar consciência de suas relações e, aos poucos, substituir relações utilitárias por outras mais genuínas, com mais abertura para a intimidade. </span></li>
</ol>
<p><span style="font-weight: 400;">Gostaria de ressaltar que, neste texto, busquei apenas apresentar algumas reflexões a respeito do enfoque que adoto em minha prática como psicoterapeuta. Como apaixonado pela epistemologia, fiquei incomodado em não apresentar detalhadamente como faço a costura dos diferentes autores que cito no texto, pois alguns deles são de matrizes de pensamentos diferentes entre si. No entanto, apesar de meu incômodo, busquei simplificar esta apresentação sem a pretensão de impor ao texto um caráter mais acadêmico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, me coloco à disposição para quem tiver interesse em conversar sobre a articulação epistemológica dos autores aqui citados. </span></p>
<p><b><i>Espero que este texto tenha servido para apresentar um pouco sobre minha forma de compreender a psicoterapia e de suscitar alguns questionamentos em quem se interessa pelo tema.</i></b></p>
<p><b><i>Até o próximo!</i></b></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b><i>Referências:</i></b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">GONZÁLEZ REY, F.</span></i><b><i> Pesquisa Qualitativa em Psicologia.</i></b><i><span style="font-weight: 400;"> São Paulo: Thomson, 2002.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">MARTÍN-BARÓ, I. O Papel do Psicólogo. </span></i><b><i>Estudos de Psicologia</i></b><i><span style="font-weight: 400;"> (Natal) 2(1), 1997.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">MENDONÇA, M. M. A psicologia humanista e a abordagem gestáltica. em: FRAZÃO, L. M; FUKUMITSU, K. O. </span></i><b><i>Gestalt-terapia – fundamentos epistemológicos e influências filosóficas. </i></b><i><span style="font-weight: 400;">São Paulo: Summus, 2013.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">ROGERS, C. </span></i><b><i>Tornar-se Pessoa. </i></b><i><span style="font-weight: 400;">São Paulo: Livraria Martins Fontes, 1975.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">SARTRE, J. P. O Existencialismo é um humanismo. </span></i><b><i>Coleção os Pensadores.</i></b><i><span style="font-weight: 400;"> 3ªed. São Paulo: Nova Cultural, 1987.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">SARTRE, J. P. </span></i><b><i>O ser e o nada – ensaio de ontologia fenomenológica.</i></b><i><span style="font-weight: 400;"> Petrópolis: Vozes, 1997. </span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<item>
		<title>As relações sociais no trabalho: subjetividade e afetos em jogo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jun 2022 14:24:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O trabalho e as relações sociais tecidas por ele. Há alguns meses me pediram para escrever um texto sobre este assunto e seus desdobramentos. Confesso que, diante dessa demanda, fiquei animado e paralizado ao mesmo tempo. Animado, porque trata-se de um tema ao qual me dedico desde meu início na psicologia. Paralizado, porque é um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">O trabalho e as relações sociais tecidas por ele. Há alguns meses me pediram para escrever um texto sobre este assunto e seus desdobramentos. Confesso que, diante dessa demanda, fiquei animado e paralizado ao mesmo tempo. Animado, porque trata-se de um tema ao qual me dedico desde meu início na psicologia. Paralizado, porque é um tema tão complexo, com tantas interfaces, que fiquei sem saber por onde começar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Decidi, então, costurar este artigo a partir do compartilhamento de algumas reflexões e conceitos que estão em voga hoje no mundo do trabalho, mas sem qualquer pretensão de esgotar a temática em nenhum dos aspectos abordados aqui. Diante disso, meu objetivo com este texto é incentivar uma reflexão crítica a respeito da complexidade pertinente às relações sociais no trabalho, como a questão da subjetividade e dos afetos que atravessam esse lugar, explorando suas camadas e possibilidades. Vamos lá?</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Utilitarismo no mundo do trabalho: o bem-estar coletivo deixa espaços para a subjetividade?</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Para começar nossa conversa, gostaria de apresentar o conceito de utilitarismo, uma doutrina filosófica caracterizada pela ideia de que as ações humanas devem promover a felicidade e o bem estar a partir de uma perspectiva coletiva. Ou seja, o utilitarismo defende que a única condição moral é aquela que busca gerar a felicidade para o maior número de pessoas e que nossas ações são definidas como certas ou erradas, dependendo dos efeitos gerados no outro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, quando colocamos o utilitarismo no mundo do trabalho, podemos identificar diversas práticas bastante difundidas na sociedade que têm como objetivo promover esse &#8220;bem-estar&#8221; nas relações sociais. Dentre elas, podemos destacar o networking, que defende a criação de uma rede sólida de contatos, decisiva e essencial para o desenvolvimento profissional e para a progressão na carreira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, o fazer networking é estar entre as pessoas certas, estabelecer as conexões estratégicas e, então, “cavar” suas oportunidades de sucesso profissional. É por meio da convivência e apoio de pessoas que compartilham propósitos e objetivos comuns, que se conquista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um outro exemplo de prática que busca a promoção do bem-estar coletivo no ambiente de trabalho e nas relações sociais é a inteligência emocional ou, em uma linguagem mais atual, as soft skills. Hoje em dia fala-se muito em desenvolver soft skills, que são as chamadas habilidades comportamentais relacionadas a maneira como as pessoas lidam com o outro e consigo mesmas em diferentes situações dentro do espaço do trabalho. Assim, as soft skills são habilidades humanas subjetivas, que, muitas vezes, não podem ser mensuradas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em princípio, essas duas compreensões a respeito das relações sociais no trabalho podem parecer sensatas e inocentes, mas, ao meu ver, elas, na verdade, mascaram formas sutis de controle da subjetividade. Por isso, retomo o conceito do utilitarismo, pois, se o objetivo da ação humana está voltado para a felicidade e bem-estar coletivos, onde fica o espaço para a subjetividade? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais especificamente, como ficam aquelas pessoas cujos sentimentos destoam da expectativa do ambiente no qual elas estão inseridas? As práticas como o networking e desenvolvimento de soft skills podem se concentrar mais no meio do que no sujeito. Mas o que isso significa? Falaremos mais a seguir. Acompanhe.</span></p>
<h3><a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/06/As-relações-sociais-no-trabalho.png"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-2390" src="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/06/As-relações-sociais-no-trabalho.png" alt="" width="1067" height="800" srcset="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/06/As-relações-sociais-no-trabalho.png 1067w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/06/As-relações-sociais-no-trabalho-300x225.png 300w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/06/As-relações-sociais-no-trabalho-768x576.png 768w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/06/As-relações-sociais-no-trabalho-1024x768.png 1024w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/06/As-relações-sociais-no-trabalho-393x295.png 393w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/06/As-relações-sociais-no-trabalho-786x590.png 786w" sizes="(max-width: 1067px) 100vw, 1067px" /></a></h3>
<h3><span style="font-weight: 400;">O controle para ficar sob controle </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Vamos agora refletir sobre quais aspectos podem estar escondidos por trás do véu das ações que visam o bem-estar coletivo. Uma forma de compreender é que ao se estabelecer modos de comportamento e pensamento no mundo do trabalho, pode se estabelecer, na verdade, uma forma de controle para deixar tudo sob controle dos interesses comerciais e econômicos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, temos a análise do professor Roberto Heloani, em seu livro &#8220;Gestão e Organização no Capitalismo Globalizado&#8221;, que nos mostra, por meio de um estudo minucioso, como as diferentes formas de gestão têm o objetivo de controlar &#8220;corações e mentes&#8221; dos trabalhadores, estimulando as percepções daquilo que é aceitável e esperado em termos de conduta do trabalhador. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O autor revela como os sistemas de gestão e seus modos de controles atuam sobre o indivíduo. E, ainda que seja um controle mais sutil, coloca o profissional dentro de um padrão e leva ao cerceamento de suas manifestações mais singulares. No livro, são citados diferentes tipos de controle, que existem, em maior ou menor grau, nas organizações modernas, como:</span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">controle do corpo, objeto da ergonomia, dos tempos e movimentos, o tempo do trabalho e do descanso, a lógica do aproveitamento disciplinado do tempo e do espaço; </span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">controle burocrático ou normativo, ligado à obediência às normas e aos controle dos controles; </span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">controle cognitivo, a expropriação do &#8220;saber fazer&#8221; do trabalhador pela gerência; </span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">controle intelectual e da capacidade criativa e inovadora dos sujeitos, passível de reconversão através de técnicas de participação, sugestões e gestão de melhorias contínuas; </span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">controle afetivo, buscando suscitar uma adesão incondicional a um projeto coletivo, no qual a empresa figura como onipotente e digna de amor (ou pelo menos de admiração);</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">controle emocional, através do qual deve-se casar a racionalidade e a paixão para os objetivos organizacionais. </span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, Heloani coloca as ações do profissional como direcionadas e condicionadas à organização. Os movimentos que superficialmente podem parecer voltados ao sujeito vão, na verdade, no sentido contrário, no sentido da manutenção do </span><i><span style="font-weight: 400;">status quo </span></i><span style="font-weight: 400;">do negócio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesta mesma linha de pensamento, temos Byung-Chul Han, que nos apresenta o conceito de psicopolítica em contraposição ao conceito de biopolítica trabalhado por Foucault. Segundo Han, o caráter imaterial da produção econômica atual faz com que o controle disciplinar perca seu efeito e seja substituído pelo controle da subjetividade, por meio da orientação de desejos e formas identitárias disseminadas pelas mídias sociais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário do previsto por George Orwell, no livro 1984, hoje, a própria população entrega sua intimidade para aqueles que usarão estas informações para controlá-la. A exposição de si é insumo para ofertas de bens de consumo e de modos de vida. É o uso do inconsciente a favor do lucro, da produtividade e do mercado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">“Psicopolítica – o neoliberalismo e as novas técnicas de poder”</span></i><span style="font-weight: 400;">, os autores citam que, segundo Han, “o capitalismo descobriu a psique como sendo uma força produtiva e o “corpo dócil”, que fora anteriormente citado por Foucault, já não tem mais lugar nesse processo de produção, que agora dá lugar ao “sexy e fitness” como características supervalorizadas.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, esse “corpo neoliberal” deve ser, constantemente, melhorado em eficiência e desempenho, assim como em suas capacidades cognitivas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, não é à toa que assistimos, de um lado, uma explosão de pessoas que se autointitulam empresários quando, na verdade, vivem em subempregos e, de outro, uma pressão para que aqueles que possuem um emprego formal desenvolvam as habilidades relacionais exigidas em seus contextos de trabalhos. Há sempre uma cobrança de melhoria de performance e uma alienação de si que andam em paralelo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, mais uma vez retomo a perspectiva utilitarista, na qual a preocupação com o coletivo é usada como fachada para encobrir as diferentes formas de controle da subjetividade a qual os trabalhadores estão submetidos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste contexto, recursos pessoais como proatividade, resiliência, iniciativa, empatia, sociabilidade, dentre outros, são usados como forma de constranger aqueles que não apresentam estes recursos, ou que não os apresentam da forma como a instituição espera. Veja bem, na forma como a organização espera e não como a pessoa se sente, se vê ou se reconhece. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, se alguém não está disposto a ir à festa da empresa, esse alguém não tem sociabilidade. Se não trabalha fora do expediente e tenta organizar suas tarefas dentro do horário de trabalho, esse alguém não tem proatividade. Se discorda de um colega, não tem empatia. Se tem receio de sobre uma retaliação e procura orientação em sua liderança, não tem iniciativa. Se deseja um trabalho estável, não é empreendedor. Se está satisfeito com seu cargo e não busca por promoções, vive em sua zona de conforto e não tem ambição. A subjetividade é encoberta e fica apenas o modelo exposto  &#8211; é exigido.  </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">A pandemia e a perda de espaço das relações sociais no trabalho </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Compartilho agora um outro aspecto importante nas relações sociais no trabalho. Se, por um lado, o ambiente de trabalho pode ser fonte de sofrimento psicológico, é verdade também que ele é um dos principais espaços de socialização de indivíduos adultos. É fato que passamos a maior parte de nosso dia no trabalho e é inevitável que relações genuínas de amizade e companheirismo venham a florescer neste contexto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, é evidente que a pandemia mudou completamente a forma como trabalhamos e, consequentemente, nos relacionamos. Para alguns, o trabalho remoto virou realidade, para outros, um sistema híbrido e, mesmo para quem voltou a trabalhar totalmente presencial, a necessidade de distanciamento social se mantém e afeta a dinâmica das relações dentro das empresas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No estudo, “Percepções dos Impactos da Covid-19”, do Instituto Ipsos, que ouviu participantes em 28 países, o Brasil é o local onde as pessoas mais se sentem solitárias: 50% das que responderam à pesquisa têm essa sensação. A solidão é algo subjetivo que vai muito além de se estar sozinho. A solidão pode estar relacionada à tristeza, à melancolia, medo, sensação de vazio, fracasso, vergonha e com o sentimento de não ter com quem contar. Nos modelos atuais de trabalho, a solidão pode ser uma companhia indesejada.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De acordo com a economista britânica Noreena Hertz, “a progressiva institucionalização da vida a sós ocorre dentro de um sistema, a doutrina neoliberal, que há várias décadas vem alterando profundamente as relações trabalhistas, sociais e pessoais, levando ao isolamento”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu livro, O Século da Solidão, ela analisa alguns dos serviços desta nova economia, como uma empresa de aluguel de amigos, da qual foi cliente e contratou uma amiga-acompanhante. Hertz contou que, após certa insistência, a amiga contratada descreveu seus outros clientes como sendo “profissionais solitários entre 30 e 40 anos, o tipo de gente que trabalha muitas horas e não parece ter tempo para fazer muitos amigos”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os seres humanos são seres sociáveis e o afastamento do convívio, das trocas e do contato físico vão na contramão de uma natureza. Estar entre pessoas, se sentir parte de um grupo, partilhar e compartilhar são verbos conjugados no âmbito coletivo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, no contexto do trabalho presencial, as pessoas tendem a se conectarem de forma mais espontânea. O bolo e o pão de queijo, que alguém leva para o café, viram pretexto para uma pequena pausa e uma breve conversa. Os almoços em grupo, o rodízio de caronas, o fretado e até mesmo a esticada de pescoço para trocar uma ideia com o colega da mesa do lado. Todas estas são situações de troca que não cabem no trabalho remoto. </span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Mas, veja bem, não estou aqui defendendo o trabalho exclusivamente presencial, pelo contrário, eu mesmo trabalho à distância a maior parte do tempo. O que estou problematizando e refletindo é sobre a perda desse campo relacional em que as trocas afetivas tendem a surgir de forma mais espontânea.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para o filósofo Spinoza, “o afeto consiste na capacidade de aumentar ou diminuir a potência de ação do corpo e da mente, motivada pelas afecções. Essa transição, por sua vez, pode ser entendida através das afecções de alegria e tristeza, segundo as quais corpo e mente passam a uma perfeição maior ou menor, respectivamente.” Ou seja, é por meio dos afetos que agimos e, para isso, é necessário que haja contato, proximidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, vale destacar que as relações sociais no trabalho devem extrapolar os muros dos interesses corporativos e mercadológicos. É preciso que haja, ao meu ver, respeito coletivo à subjetividade. As pessoas e as relações no ambiente de trabalho precisam ser olhadas com profundidade. A superfície é incapaz de abrigar a complexidade que envolve o sujeito, seu labor e os afetos que o atravessam. </span></p>
<p><b><i>Espero que as reflexões compartilhadas aqui possam despertar para muitas outras questões acerca das relações sociais no trabalho. Como disse no início deste artigo, os pontos trazidos não se encerram. Eles foram colocados como pontos de partida.</i></b></p>
<p><b><i>Até o próximo! </i></b></p>
<p>&nbsp;</p>
<h5><i>Fontes:</i></h5>
<h5><i>Byung-Chul Han. Psicopolítica &#8211; o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2020.</i></h5>
<h5><i>Roberto Heloani. Gestão e Organização no Capitalismo Globalizado: História da manipulação psicológica no mundo do trabalho. São Paulo: Atlas, 2003.</i></h5>
<h5><a href="https://www.scielo.br/j/rac/a/3N5Lhx3NnJ6t5sD4x8vTNYL/?lang=pt" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><i>Scielo</i></a><i> </i></h5>
<h5><a href="https://cadernosdepsicologias.crppr.org.br/psicopolitica-o-neoliberalismo-e-as-novas-tecnicas-de-poder/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><i>Cadernos de Psicologias  </i></a></h5>
<h5><a href="https://brasil.elpais.com/estilo/2021-10-30/a-solidao-e-uma-epidemia-e-um-negocio-no-futuro-pagaremos-para-ter-amigos.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><i>El País </i></a></h5>
<h5><a href="https://www.foar.unesp.br/Home/projetoviverbem/trabalho-e-afetividade.pdf" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><i>Unesp </i></a></h5>
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		<item>
		<title>Falência do Ensino Médio em preparar para a vida adulta: reflexões de um educador</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/04/14/falencia-do-ensino-medio-em-preparar-para-a-vida-adulta-reflexoes-de-um-educador/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Apr 2022 13:27:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Posso afirmar, sem medo de errar, que a educação ocupa um lugar central em todas as minhas práticas ao longo de meus 20 anos de carreira. A orientação profissional sempre foi vista por mim pelos vieses da identidade profissional e do projeto de vida. Escolher uma profissão é uma tarefa incompleta se não possibilitar ao [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Posso afirmar, sem medo de errar, que a educação ocupa um lugar central em todas as minhas práticas ao longo de meus 20 anos de carreira. A orientação profissional sempre foi vista por mim pelos vieses da identidade profissional e do projeto de vida. Escolher uma profissão é uma tarefa incompleta se não possibilitar ao orientando uma compreensão mais abrangente de sua inserção no mundo e de um consequente projeto de vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo dos meus 20 anos de experiência, transito por pelo menos duas posições diferentes que me permitem observar, de perto, o papel exercido pelo Ensino Médio na preparação para a inserção na vida adulta. Uma delas é como orientador vocacional e a outra é como professor de Psicologia. Na primeira situação, acompanho os adolescentes no final do Ensino Médio. Já na segunda, estou junto de jovens com o Ensino Médio recém concluído. Nas duas condições, é possível perceber que o ensino é visto por grande parte dos adolescentes apenas como uma etapa a ser cumprida antes de entrar no ensino superior ou de ingressar na no mercado de trabalho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O relato de que a escola não serve para nada é mais comum que o esperado e, embora esta percepção seja preocupante, entendo que reflete a dificuldade das escolas em apresentar o conhecimento de forma que este dialogue concretamente com a realidade vivida pelos estudantes. O mais interessante é que esta é uma premissa presente no pensamento dos principais teóricos da pedagogia e da psicologia da aprendizagem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outra coisa que me deixa intrigado é o seguinte: por anos a fio, frequentei as bibliotecas da Unicamp, USP e PUC-SP e PUC-Campinas. Sempre separo um tempo para me atualizar a respeito das teses defendidas nas universidades e tenho plena convicção de que, se dependesse da produção acadêmica desses lugares, sem contar de todas as outras universidades que temos pelo país todo, deveríamos ter um dos melhores sistemas educacionais do mundo. Mas por que todo este conhecimento não chega até as salas de aula? É a partir dessa provocação que começo este artigo e compartilho alguns pontos com vocês.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">1. Educação de baixa qualidade como política pública</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Para começar, trago a questão do tratamento precarizado que tem sido dado à educação por parte do poder público &#8211; já há alguns anos &#8211; como uma ação articulada e planejada. Trata-se de um projeto, e não de uma crise &#8211; como bem disse o antropólogo, historiador, sociólogo, escritor e político brasileiro, Darcy Ribeiro -, cujo objetivo central é impedir e dificultar o acesso ao conhecimento e aos recursos intelectuais para que as pessoas possam, vejam só, pensar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O pensamento crítico, embasado em argumentos que questionam o </span><i><span style="font-weight: 400;">status quo</span></i><span style="font-weight: 400;">, trata-se de um pensamento visto como ameaçador pelas estruturas de poder e governos autoritários e liberais. Assim, medidas de cortes de investimentos na educação, como os que estamos vendo, são medidas estratégicas que afetam o conhecimento e impedem a formação de uma sociedade pensante, atuante, questionadora e reivindicadora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A educação brasileira, infelizmente, amarga o último lugar em ranking de competitividade, segundo estudo feito pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">IMD World Competitiveness Center</span></i><span style="font-weight: 400;">, no ano passado, que comparou a prosperidade e a competitividade de 64 nações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na avaliação, o Brasil caiu uma posição em relação a 2019, após quatro anos seguidos de avanços. No eixo que olha para a educação, o País teve a pior avaliação entre as nações analisadas, alcançando a 64ª posição. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De acordo com a pesquisa, entre outros fatores, o resultado do Brasil se explica pelo mau desempenho do país no que diz respeito aos gastos públicos totais em educação: em termos per capita, o mundo investe em média US$ 6.873 (cerca de R$ 34,5 mil) por estudante anualmente, enquanto que, por aqui, se aplica apenas US$ 2.110 (R$ 10,6 aproximadamente). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E não para por aí: o país teve ainda um baixo desempenho no Pisa, a principal avaliação internacional de desempenho escolar, ocupando a 54ª posição, e no TOEFL, ocupando o 43º lugar no ranking. Além disso, o analfabetismo atinge 6,8% da população acima de 15 anos, sendo a média mundial de apenas 2,6%.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em se tratando de ensino superior, especificamente, bolsas de pesquisa foram suspensas e vimos um corte no orçamento das universidades federais de 3,4 bilhões. Já o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), principal fonte de apoio à infraestrutura física e laboratorial, teve seu orçamento inicial reduzido de cerca de R$ 3,5 bilhões para R$ 1,3 bilhão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu poderia seguir ainda citando outras situações de descaso com a educação, mas fica evidente, que estamos diante de um projeto político, costurado de forma consciente, que visa sucatear as possibilidades de conhecimento e, assim, impedir que os saberes desenvolvidos pelos educadores, pesquisadores, professores, enfim, pela academia, possam ser implementados em forma de políticas de educação, de priorização de verbas, de melhoria de qualidade de vida para todos. Pergunto a vocês: aos detentores de poder e privilégios, isso importa? </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">2. Os excessos das escolas particulares</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, agora vamos passar para um segundo ponto que, no meu entendimento, distancia e impede que o conhecimento, tão bem produzido, chegue às salas de aula. Neste caso, a questão mora, justamente, nas salas de aula, em especial das escolas particulares. Na ânsia de promover e propagandear a aprovação de seus alunos nos vestibulares, as instituições de ensino particulares colocam o conteúdo como elemento central do processo educacional, colocando o desenvolvimento humano em segundo plano. Afinal, ele ocorre concomitantemente com o aprendizado ao longo de toda a vida e, a cada etapa do ensino, há um ser humano a ser ouvido, acolhido, compreendido em suas muitas dimensões. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A pressão pelos bons resultados em provas de vestibulares das faculdades renomadas, a pressão pela boa pontuação no Enem, a pressão pela conquista que pode ser exposta. Todas essas formas de pressão colaboram para que o aluno se sinta, muitas vezes, deslocado daquela realidade, se distancie de si próprio e atue como mero reprodutor de conteúdo, sem trazê-lo para a consciência, para o questionamento e sem, por fim, abraçar esse conhecimento para transformá-lo em sua própria visão de mundo. Há, ao meu ver, uma alienação entre aluno, ser e conteúdo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, os excessos das escolas particulares acabam afetando a saúde mental e desencadeando quadros de estresse e ansiedade nos estudantes. Segundo uma pesquisa promovida pelo C6 Bank e Datafolha, publicada em junho, 64% dos estudantes brasileiros afirmaram sentir mais ansiedade em 2021. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A rotina de estudos já é bastante densa para os vestibulandos e, quando se soma a isso a cobrança por boas notas e colocação, a pressão fica grande demais. O efeito, comumente, costuma ser de rebote. A ansiedade reflete em perda de foco, de motivação e de autoestima. Os estudantes entram numa estafa que, inclusive, pode causar problemas ainda mais graves, como depressão e síndrome do pânico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, no meu ponto de vista, é preciso que haja, sobretudo, uma atenção para além do conteúdo programado. É preciso que haja uma atenção à pessoa que está ali, aos seus anseios e dificuldades, para que, fortalecida e segura, ela possa aprender, apreender, pensar, refletir e manifestar.</span></p>
<h3></h3>
<h3><span style="font-weight: 400;">3. A escassez das escolas públicas</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Se por um lado os alunos sofrem com os excessos das escolas particulares, por outro, os estudantes de escolas públicas são atravessados pela escassez. Sabemos que o ensino público é permeado, historicamente, aqui no Brasil, pela falta de verbas, pela falta de professores, pela ausência de iniciativas capazes de fomentar e despertar o interesse dos alunos e profissionais. As escolas públicas, em sua maioria, ocupam prédios sucateados e, ao invés de serem redutos de atração e estímulo, se tornam locais hostis e insalubres, tanto para estudantes como para trabalhadores da educação. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, além do nítido descaso dos poderes estaduais em relação aos investimentos voltados às escolas de Ensino Médio, outros problemas enfrentados pelos educadores se devem à dificuldade em compreender o contexto fora da escola, o histórico, os modos de vida construídos pelos estudantes daquela comunidade. Neste sentido, é fundamental que esses jovens sejam também ouvidos para que, a partir da condição social na qual estão inseridos, seja possível identificar qual lugar a escola ocupa em suas vidas e qual a melhor maneira de conduzir o processo de aprendizagem. É assim que o conhecimento faz sentido. Faz sentir. </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">4. Patologização da adolescência </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste ponto, destaco o desafio enfrentado pela escola ao lidar com a adolescência. Trata-se de um período da vida sobre o qual recaem visões simplistas &#8211; e infelizmente predominantes &#8211; que tendem a naturalizar, padronizar e patologizar os jovens, destacando crises e conflitos universais, sem considerar as condições subjetivas, singulares e concretas de cada sujeito. Ao “apagar” cada indivíduo, tornamos o acesso a ele muito mais difícil. Sem conhecer o outro é impossível reconhecê-lo e o não reconhecimento é algo que distancia, violenta, prejudica o desenvolvimento humano e permite a proliferação de diagnósticos de TDAH, TOD, dentre outros. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para fechar este ponto, trago mais uma questão que colabora para o descarrilamento da educação. É fato que existe um discurso de responsabilização pessoal de estudantes pelo sucesso ou fracasso nos estudos, sem que sejam observadas as condições de ensino-aprendizagem oferecidas pela instituição. A culpa é do jovem que não se esforça. A culpa é do jovem que não se dedica. Mas será mesmo? Diante de todo cenário que vimos até aqui, seria culpa deles? Nessa atmosfera, os estudantes ficam vulneráveis ao sistema e, muitas vezes, sofrem com a descrença dos professores. Como desfecho, temos, muitas vezes, a evasão escolar e a sobrevivência por meio de subempregos.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">5. A culpa não é do professor</span></h3>
<p><a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/04/falencia-do-ensino-medio-em-preparar-para-a-vida-adulta-reflexoes-de-um-educador.jpg"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-2384" src="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/04/falencia-do-ensino-medio-em-preparar-para-a-vida-adulta-reflexoes-de-um-educador.jpg" alt="" width="800" height="600" srcset="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/04/falencia-do-ensino-medio-em-preparar-para-a-vida-adulta-reflexoes-de-um-educador.jpg 800w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/04/falencia-do-ensino-medio-em-preparar-para-a-vida-adulta-reflexoes-de-um-educador-300x225.jpg 300w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/04/falencia-do-ensino-medio-em-preparar-para-a-vida-adulta-reflexoes-de-um-educador-768x576.jpg 768w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/04/falencia-do-ensino-medio-em-preparar-para-a-vida-adulta-reflexoes-de-um-educador-393x295.jpg 393w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2022/04/falencia-do-ensino-medio-em-preparar-para-a-vida-adulta-reflexoes-de-um-educador-786x590.jpg 786w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" /></a></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Falando em culpa, quero aqui encerrar este artigo ressaltando que: a culpa também não é do professor nem da professora. Como pertencente à categoria e atuante em salas de aulas há alguns anos, posso garantir que existe um sofrimento genuíno do professor que deseja ensinar, mas que se vê em condições precárias de trabalho, sem formação suficiente para enfrentar as demandas e com a cobrança tanto da sociedade &#8211; que o condena &#8211; como do próprio estado &#8211; que não o remunera, não o valoriza. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No orçamento de 2022, o Governo Federal fez um corte de R$ 3,2 bilhões nas contas do ano, atingindo, principalmente, os ministérios de Trabalho e Previdência, Educação, Desenvolvimento Regional e Cidadania. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A redução no Ministério da Educação foi a segunda maior, totalizando R$ 740 milhões, e entre as áreas impactadas, temos o programa Educação Básica de Qualidade, com redução de aproximadamente R$ 400 milhões. Um repasse de R$ 34,4 milhões para as instituições federais de ensino superior também foi travado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A culpa não é dos professores e professoras que sofrem com o potencial patológico da profissão em razão de fatores como: carga excessiva de trabalho, remuneração inadequada, falta de cooperação entre pares, falta de autonomia, excessos de burocracia, indisciplina dos alunos e estilo de gestão autoritário. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Toda essa carga é sentida na pele e no corpo, literalmente, dos professores que adoecem e apresentam sintomas físicos e mentais, como: tensão muscular, dores de cabeça, dores nas costas, perda de voz, taquicardia, aumento de sudorese, tontura, fadiga, problemas de memória, irritabilidade excessiva, ansiedade, nervosismo, angústia, depressão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estes dados estão no artigo “Adoecimento mental e o trabalho do professor: um estudo de caso na rede pública de ensino”, que aponta a profissão do docente como uma &#8220;atividade de risco para a saúde&#8221;. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, entendo que a desvalorização dos professores, da educação, da pesquisa, do conhecimento, da ciência, trata-se de uma desvalorização do desenvolvimento social, econômico e humano. Trata-se de uma desvalorização da vida em si. Quando a educação falha, há falências múltiplas de ideias, saberes e existências.</span></p>
<p>Espero que as reflexões compartilhadas aqui possam ter colaborado de alguma forma e que, a partir delas, você possa elucidar outros pontos que relacionam educação e vida adulta.</p>
<p>Até o próximo!</p>
<p>Um abraço,</p>
<p>Márcio Souza</p>
<p>&nbsp;</p>
<h5><b><i>Fontes:</i></b></h5>
<p><a href="https://www.istoedinheiro.com.br/xbrasil-cai-para-ultima-posicao-em-educacao-em-ranking-global-de-competitividade/">Isto É Dinheiro </a></p>
<p><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/educacao-brasileira-esta-em-ultimo-lugar-em-ranking-de-competitividade/">CNN Brasil </a></p>
<p><a href="https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-crise-da-educacao-no-brasil-nao-e-uma-crise-e-projeto/">Carta Capital </a></p>
<p><a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/donna/maternidade/noticia/2020/04/ensino-em-casa-qual-o-limite-da-cobranca-com-os-estudos-no-isolamento-ck8rwgmi7017001ntm2hzpvo6.html">Zero Hora </a></p>
<p><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/euestudante/enem/2021/10/4952925-preparacao-para-o-enem-gera-ansiedade-em-estudantes-brasileiros.html">Correio Braziliense </a></p>
<p><a href="https://revistaeducacao.com.br/2021/03/22/professores-saude-mental-estresse/">Revista Educação </a></p>
<p><a href="http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1516-37172018000200001">Periódicos Eletrônicos em Psicologia </a></p>
<p><a href="https://guiadoestudante.abril.com.br/atualidades/ministerio-da-educacao-teve-o-segundo-maior-corte-no-orcamento-2022/">Guia do Estudante </a></p>
<p><a href="https://investnews.com.br/economia/orcamento-de-2022-bolsonaro-faz-cortes-em-educacao-inss-saude-e-meio-ambiente/">Invest News</a></p>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/04/14/falencia-do-ensino-medio-em-preparar-para-a-vida-adulta-reflexoes-de-um-educador/">Falência do Ensino Médio em preparar para a vida adulta: reflexões de um educador</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
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		<title>Projeto de vida em tempos de incerteza</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2021/12/14/projeto-de-vida-em-tempos-de-incerteza/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Dec 2021 18:56:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; nunca sei ao certo se sou um menino de dúvidas ou homem de fé certezas o vento leva só dúvidas ficam de pé. – Paulo Leminski Para ser sincero, começo este artigo com as dúvidas que ficaram de pé e que me ajudaram &#8211; depois de criar consciência sobre elas &#8211; a escrevê-lo. Acho [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2021/12/14/projeto-de-vida-em-tempos-de-incerteza/">Projeto de vida em tempos de incerteza</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">nunca sei ao certo</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">se sou um menino de dúvidas</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">ou homem de fé</span></i></p>
<p style="text-align: right;">
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">certezas o vento leva</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">só dúvidas ficam de pé.</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">– Paulo Leminski</span></p>
<p style="text-align: right;">
<p><span style="font-weight: 400;">Para ser sincero, começo este artigo com as dúvidas que ficaram de pé e que me ajudaram &#8211; depois de criar consciência sobre elas &#8211; a escrevê-lo. Acho que a melhor forma de começar confessando a minha dificuldade em colocar aqui as primeiras palavras. Já estou atrasado há dias com a entrega deste texto, o que é intrigante, pois projeto de vida é um tema que me é muito caro, que gosto de estudar, discutir, além de ser o tema central em grande parte dos atendimentos de carreira que realizo. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, ao refletir um pouco sobre a dificuldade desse início, me deparei com alguns questionamentos que estavam emperrando a escrita. Sei da responsabilidade de publicar um texto e também não sou a favor de disparar fórmulas de &#8220;como ter sucesso e ser feliz para sempre&#8221;, pois sei que existem pessoas ansiosas para encontrar estas respostas. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, o problema é que elas não existem. Dessa forma, meu impasse na escrita deste texto estava, justamente, nas seguintes questões: como não carregar na tinta da desesperança ou do otimismo? como, ao invés de um &#8220;manual contra o fracasso&#8221;, possibilitar algumas reflexões importantes para pensar um projeto de vida em um contexto tão instável como o que descrevi em meu último artigo? </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Te convido a seguir a leitura e a refletir comigo sobre projeto de vida e as incertezas que nos atravessam e nos libertam. Vamos lá?</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Tudo sob controle mesmo?</span></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tanto em minha atuação como orientador de carreiras quanto como psicoterapeuta, é comum que eu me depare com clientes que estão diante de algum impasse e querem ter certeza sobre qual a escolha correta a se fazer, sem deixar margem para falha. O problema é que toda esta certeza é uma tarefa impossível, pois independente de quanto planejamento tenha sido feito, são muitas as variáveis fora de nosso controle que interferem no sucesso ou no fracasso de nossos projetos.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Na fenomenologia de Heidegger, a noção de facticidade cumpre um papel essencial em nossa experiência existencial. Na compreensão deste autor, somos lançados em um mundo que não escolhemos, não controlamos e ainda assim somos os únicos responsáveis por nossa existência. Acredito que este é um elemento central no impasse que acabei de citar acima: queremos certeza e segurança em um mundo que não está sob o nosso controle e que a cada momento reafirma sua instabilidade. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Trocando em miúdos, o mundo nos oferece um cenário no qual se darão nossas escolhas. Este cenário é determinado a partir das condições macroeconômicas, macropolíticas e sociais do tempo histórico em que vivemos. As tendências no mundo do trabalho, as mudanças nas formas como nos relacionamos com outras pessoas, aquilo que entendemos como fracasso ou sucesso e até mesmo as mudanças de valores sociais fazem parte desse contexto. Estas são algumas das variáveis que não controlamos, no entanto, é também a partir delas que realizamos nossas escolhas e planejamos nosso futuro. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A inconstância do mundo se choca com aquilo que compreendemos como planejamento de carreira e projeto de vida. Vivemos em uma sociedade que valoriza a capacidade de alcançarmos objetivos e usa este critério como régua para definir sucesso e fracasso. Em orientação de carreiras, existe um exercício chamado Roadmap, no qual é definido um objetivo final e os objetivos parciais necessários para se chegar ao objetivo desejado. O que me deixa intrigado é que, geralmente, esse mapa é representado por uma linha reta, sendo que, na maioria das vezes, serão necessários ajustes durante o percurso. Ajustes que, claramente, vão exigir um desvio aqui e outro ali para se chegar ao mesmo destino.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Queremos certezas e isso é tudo que o mundo não nos apresenta. Desejamos um solo firme em uma modernidade que já se liquefez como analisou Bauman. Esta é a nossa grande tragédia e não é à toa que encontramos tantas pessoas vendendo soluções infalíveis para todo tipo de inseguranças que podemos viver. Essas fórmulas me preocupam muito, pois quem está sofrendo diante da facticidade apresentada pelo mundo tende a acreditar na promessa de que seu sofrimento deixará de existir. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já deu para perceber que não vou apresentar mais uma dessas fórmulas, até porque não acredito nelas. Minha contribuição com este texto será a de compartilhar algumas reflexões de como eu costumo articular o pensamento fenomenológico com o planejamento de carreiras para que a formulação do projeto de vida contemple as incessantes mudanças apresentadas pelo mundo. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Facticidade, os outros e condição inautêntica</span></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não nos damos conta do quanto nossa relação com o mundo é radicalmente parte de quem nós somos. Existimos em um &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">mundo concreto, literal, efetivo, do dia-a-dia. Ser humano é estar imerso, implantado, enraizado na terra, na materialidade cotidiana do mundo. Uma filosofia que abstrai, que procura elevar-se acima da cotidianidade do cotidiano, é vazia.&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> (STEINER, 1990:74) </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Só que não é desta forma que nos percebemos na modernidade, pois ainda somos herdeiros dos pensamentos platônico e cartesiano. Mas como assim? Explico: do pensamento platônico, herdamos a divisão entre mundo das idéias e mundo material, e de Descartes, herdamos a noção de que o pensamento é o fator definidor da existência humana. Estas duas noções filosóficas estão tão enraizadas em nossa cultura que nem percebemos o quanto avaliamos nossa realidade a partir de idealizações de um mundo perfeito. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seria fácil ultrapassar essas perspectivas se esse idealismo não estivesse tão arraigado em nossa cultura. Somos bombardeados o tempo inteiro com modelos que nos indicam como pensar, sentir e agir. Por isso, falas como &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">não posso me sentir assim&#8221;, &#8220;deveria ser mais otimista&#8221;, &#8220;sei que deveria ter uma atitude mais proativa&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> são tão comuns tanto em atendimentos psicoterapêuticos quanto de carreiras.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estar no mundo é também estar com os demais. Além disso, dos relacionamentos que mantemos com os outros também recebemos indicações de quais características deveríamos ter. Dentro da família, na escola, no trabalho, os amigos, todos possuem alguma opinião a respeito de como seríamos uma pessoa melhor e como conseguiríamos atingir nossos objetivos com mais facilidade. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como consequência de tantas demandas, corremos o risco de não pararmos para refletir a respeito de quem nós somos, de nossos valores, de como sentimos e pensamos os desafios que a vida nos impõe. Não esperamos uma resposta de dentro para fora, pois este é um processo que demanda reflexão e contemplação e, como não paramos para fazer estes exercícios, acabamos nos apegando a valores, objetivos e formas de compreender a existência que nem sempre respeitam quem somos. Isso é o que chamamos de inautenticidade. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Lançado para o meio de outros, atualizando e realizando o nosso próprio Dasein como um ser-uns-com-os-outros (o pesado uso dos hífens por Heidegger reflete a intrincada densidade dos fatos), </span></i><i><span style="font-weight: 400;">não chegamos a ser nós próprios</span></i><i><span style="font-weight: 400;">.(&#8230;) Num sentido perfeitamente literal, concreto, </span></i><i><span style="font-weight: 400;">não somos nós próprios</span></i><i><span style="font-weight: 400;">, o que corresponde dizer que o nosso ser se torna fictício&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(STEINER, 1990:81) </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto vivemos em condição de inautenticidade corremos o risco de sempre perseguir objetivos e, ao conquistá-los, não sentir que realizamos algo ou que os objetivos alcançados não nos preencheram de alguma maneira, gerando uma busca incessante e infrutífera por realização. Infrutífera, pois perseguimos objetivos que assumimos como nossos mas que, na verdade, fazem parte de compreensões massificadas do mundo, dos outros e, sobretudo, de nós mesmos.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Condição autêntica e cuidado</span></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pronto, agora é só ser autêntico que tudo se resolve. Simples assim. Seria ótimo se fosse tão fácil quanto pregam os discursos da positividade sustentados em uma compreensão idealizada do mundo e da existência humana.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cabe aqui, acredito, um esclarecimento importante sobre a noção de autenticidade, pois acreditamos ser autêntico tudo aquilo que habita nosso pensamento e que a autenticidade é um estado permanente. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, vejam bem, não podemos esquecer que somos seres inseridos na materialidade do mundo que nos cerca e que, sendo assim, corremos o risco de confundir aquilo que o mundo nos apresenta com aquilo que nos é mais próprio. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: center;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Dasein não perde a si mesmo como se perde um guarda chuva. Ele o perde ao cair na ocupação. Ele cai em e é absorvido pelo mundo, de tal forma que esquece de si mesmo como um ente autônomo e interpreta a si mesmo em função de suas preocupações correntes. (&#8230;) Em casos extremos, ele compreende a si mesmo como um ser-simplesmente-dado, com o qual só se pode lidar por meio de suas preocupações.&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(INWOOD, 2002:11-12)</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Portanto, para chegarmos àquilo que é realmente nosso, precisamos analisar nossos pensamentos e sentimentos de forma que possamos, aos poucos, perceber quais deles estão sendo apenas absorvidos dos outros e do mundo que nos cerca e quais deles nos são realmente próprios. Este exercício reflexivo nos possibilita avaliar quais pensamentos e sentimentos ainda fazem sentido e, para aqueles que mantêm seu sentido, elaborar nossa própria versão deles.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vale lembrar que Heidegger, em Ser e Tempo, alerta para o fato de que autenticidade acontece em momentos da existência nos quais estamos abertos para uma compreensão de nós mesmos e momentaneamente afastados dos ruídos do cotidiano. Não podemos esperar que a autenticidade seja um estado permanente, pois somos permanentemente solicitados pelas demandas do mundo. Mas é, justamente, nesses momentos de autenticidade que podemos ter uma compreensão mais clara daquilo que nos é mais próprio e, então, pensar projetos de vida mais coerentes com quem somos. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando conseguimos chegar a uma compreensão mais ampliada de nós mesmos, passamos a vislumbrar um horizonte mais autêntico para o futuro e podemos desenvolver um sentimento ora de obrigação, ora de urgência em relação a esse horizonte. Passamos a sentir a necessidade de cuidar desse futuro e daquilo que nos é mais próprio. Isso é o que Heidegger chama de cuidado. Neste sentido, passamos a cuidar de nossa existência. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Enfim, e as incertezas?</span></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sinto informar que não é aqui que você encontrará os 5 passos para sempre ter certeza sobre o futuro. Como cita a poesia de Leminski na epígrafe deste texto, </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;certezas o vento leva, só dúvidas ficam de pé&#8221;.</span></i><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desejar um mundo repleto de certezas é reflexo de uma postura idealista diante da vida. Então, se esse é seu caso, vale a pena tentar compreender o mundo tal como ele se apresenta. Basta revisar brevemente a história da humanidade para perceber que as mudanças estão cada vez mais aceleradas. Procurar por certezas definitivamente não é o que vai te ajudar.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Meu convite é para abraçarmos as incertezas. Isso não quer dizer que vamos jogar tudo para o alto, pelo contrário. Ao assumirmos que o cenário que usamos para fazer nossos planejamentos pode mudar, seria inconsistente achar que a execução deste planejamento passaria ilesa. Temos que adaptar aquilo que planejamos à realidade que se apresenta diante de nós. Isso significa, inclusive, ter margem para abortar ou mudar completamente nosso planejamento inicial. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pode parecer impossível, mas não é. Na verdade, pode ser bem libertador, pois quando pensamos nossos projetos de vida a partir daquilo que percebemos como verdadeiramente nosso, sabemos que o que mais importa não são os detalhes daquilo que planejamos e sim aquele horizonte futuro que almejamos alcançar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Espero ter colaborado deixando livres as dúvidas em pé.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até o próximo!</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b><i>Referências:</i></b></p>
<p><b><i>INWOOD, M. Dicionário Heidegger.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002</i></b></p>
<p><b><i>STEINER, G. Heidegger. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1990</i></b></p>
<p><b><i>HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. edição bilingue, Tradução de Fausto Castilho. Petrópolis: Vozes. 2012.</i></b></p>
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		<title>Afinal, para que serve a psicoterapia?</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2021/08/13/afinal-para-que-serve-a-psicoterapia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Aug 2021 18:35:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Márcio Melo Guimarães de Souza &#160; Um homem com uma dor É muito mais elegante Caminha assim de lado Com se chegando atrasado Chegasse mais adiante Carrega o peso da dor Como se portasse medalhas Uma coroa, um milhão de dólares Ou coisa que os valha &#160; Ópios, édens, analgésicos Não me toquem nesse dor [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Márcio Melo Guimarães de Souza</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Um homem com uma dor</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">É muito mais elegante</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Caminha assim de lado</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Com se chegando atrasado</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Chegasse mais adiante</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Carrega o peso da dor</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Como se portasse medalhas</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Uma coroa, um milhão de dólares</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Ou coisa que os valha</span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Ópios, édens, analgésicos</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Não me toquem nesse dor</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Ela é tudo o que me sobra</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Sofrer vai ser a minha última obra</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8211; </span></i><span style="font-weight: 400;">Paulo Leminski</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">É no momento do encontro que ouvimos o outro e nos ouvimos também. Desses encontros de escuta mútua, vemos nascer questões que nos levam ao principal propósito de uma pergunta: fazer pensar. Assim, em conversa recente com uma ex-aluna, ela compartilhou sua dúvida sobre qual abordagem teórica iria escolher para sua carreira como psicóloga.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre suas várias questões, ela enfatizou uma que mais lhe afligia. Há abordagens que oferecem procedimentos e soluções para os problemas dos clientes. Segundo sua visão, no entanto, a fenomenologia é capaz de oferecer um caminho para a introspecção, mas não consegue oferecer soluções.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Nem preciso dizer que adorei essa conversa, não é?! Foi desse encontro, dessa troca, que identifiquei o tema para este texto: </span><b>para que serve a psicoterapia?</b></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">O recorte veio naturalmente. O questionamento sobre qual seria a função da psicoterapia me é feito com certa frequência por possíveis pacientes. Eu costumo responder à pergunta com muito cuidado para que a resposta não pareça prescritiva, pois eu, realmente, não acredito que seja obrigatório fazer psicoterapia. O que acredito, no entanto, é que a psicoterapia se trata de uma possibilidade para quem quer se conhecer de forma mais aprofundada e encontrar caminhos para lidar com seus afetos e sofrimentos.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo assim, ao navegar pelas redes sociais, sou inundado por materiais produzidos por colegas de profissão que colocam a psicoterapia como receita para combater depressão, pânico, ansiedade e uma infinidade de sofrimentos. Muitas vezes, tais postagens são acompanhadas por dicas ou prescrições passo a passo de como solucionar problemas relacionados ao sofrimento psicológico. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao me deparar com postagens dessa natureza, é inevitável me lembrar do Byung-Chul Han. Em seu livro, Sociedade do Cansaço, ele problematiza o excesso de positividade de nossa sociedade. O autor constata que todo sofrimento precisa ser aplacado com alguma fórmula para a felicidade ou ser anestesiado por alguma forma de entretenimento, não existindo, então, espaço para o tédio, o vazio e a frustração.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo a análise de Byung-Chul Han, as redes sociais e a mídia impõem um padrão de vida fundado na euforia e na felicidade, qualquer sentimento fora deste padrão deve ser suprimido pelo entretenimento ou corrigido pelas &#8220;terapias da positividade&#8221;. A busca, para ele, é por bem-estar quase que instantâneo. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A impossibilidade de lidar com o que não é felicidade se materializa no consultório na forma da busca por eficácia. Quem chega ao consultório quer logo saber em quantas sessões seu problema será resolvido ou se a abordagem X é mais eficiente que a abordagem Y para o tipo de sofrimento que vivencia. Junto à pergunta pela eficácia da psicoterapia, vem o desejo de dominar as próprias emoções pois, de acordo com a ciência positivista preponderante em nossa sociedade, tudo aquilo que não é compreendido precisa ser dominado. (POMPEIA, 2011)</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">É certo que cada demanda carrega um sofrimento e há a expectativa pela diminuição desse mesmo sofrimento. Nada mais legítimo. Mas eu apenas questiono o caminho previamente desenhado para se chegar à redução do sofrimento. Como estudioso da fenomenologia, tenho o hábito de dar um passo para trás na tentativa de ter uma compreensão mais ampla dos fenômenos e, ao refletir sobre toda essa demanda por positividade, por fórmulas prontas e domínio das emoções, me veio à mente o verbo solucionar. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em português, o </span><b>verbo solucionar tem duas acepções</b><span style="font-weight: 400;">: 1- </span><span style="font-weight: 400;">dar solução a; resolver: solucionar um problema</span><span style="font-weight: 400;">; 2-</span><span style="font-weight: 400;"> conseguir decifrar algo extremamente difícil, indecifrável, misterioso; decifrar: solucionar um enigma</span><span style="font-weight: 400;">. A princípio, pode parecer que ambos significados são iguais, mas compreendo que são dois sentidos totalmente diferentes. Acompanhe comigo. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na primeira acepção, mais abrangente, solucionar um problema pode ser compreendido como suprimir, resolver um problema por meio de sua eliminação. Fazemos isso todos os dias em nossa vida prática. Desligamos um aparelho elétrico para gastar menos luz, cortamos a água de um encanamento para eliminar um vazamento, aplicamos um veneno para eliminar as ervas daninhas de um jardim, etc. Também podemos resolver um problema por meio da adequação, como quando trocamos uma peça do motor de um carro para que ele funcione da maneira esperada. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, essa mesma lógica é usada no oferecimento e na busca por bem-estar: nossa relação com a vida passou a ser mediada pela função das coisas. Meditamos para ter mindfulness, comemos bem para manter o colesterol e o triglicérides dentro da faixa adequada, temos um hobbie para aliviar o estresse e nos acalmar e assim por diante. Não raro, escuto que meus passeios de moto &#8211; que tanto adoro &#8211; são uma &#8220;terapia&#8221;. No dar e receber, perdemos a relação de espontaneidade com a vida e com as oportunidades que ela nos possibilita. Estamos sempre mais preocupados com os resultados que uma atividade qualquer pode nos proporcionar do que com a própria experiência da atividade em si.  </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em minha análise, a psicoterapia compreendida com esse enquadre poderia ser comparada a uma oficina mecânica, já que a busca do paciente está sempre orientada no ato de &#8220;consertar&#8221; algum sentimento considerado inadequado, desregulado. Mas, além de muito reducionista, essa compreensão da psicoterapia, orientada exclusivamente pelo sintoma, promove a fragmentação do saber psicológico e impede o olhar para o ser humano de forma mais ampla, ignorando o caráter multifacetado e multideterminado de sua existência.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir da reflexão acima, sobre a primeira acepção do verbo solucionar, sou instigado a fazer duas perguntas: é realmente possível eliminar sentimentos? é possível adequar sentimentos? </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bem, acredito que você que chegou até aqui na leitura deste texto já tenha tentado alguma vez alguma dessas alternativas: suprimir ou adequar um sentimento. E aí, me diga, funcionou? Em minha vivência como psicoterapeuta, observo que esses artifícios, quando funcionam, têm uma validade muito curta, pois, geralmente, quando tentamos suprimir ou adequar sentimentos, o fazemos usando princípios do pensamento lógico. O único &#8211; e grande &#8211; problema é que as emoções não obedecem à lógica. Parafraseando Nietzsche:</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span><b><i>Apenas os homens muito ingênuos podem acreditar que a natureza humana pode ser transformada numa natureza puramente lógica</i></b><i><span style="font-weight: 400;">; mas, se houvesse graus de aproximação desta meta, o que não se haveria de perder nesse caminho! Mesmo o homem mais racional precisa, de tempo em tempo, novamente da natureza, isto é, de sua ilógica relação fundamental com todas as coisas.&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2005, p.37)</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Gostaria de destacar uma passagem do texto acima: &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Apenas os homens muito ingênuos podem acreditar que a natureza humana pode ser transformada numa natureza puramente lógica; mas, (&#8230;) </span></i><b><i>o que não se haveria de perder nesse caminho!</i></b><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;.</span></i> <span style="font-weight: 400;">Acredito que Nietzsche se refere justamente à riqueza de nossa vivência emocional, que é a principal responsável pela abundância de sentidos que damos à nossa existência e a cada momento dela. É esta infinita diversidade de vivências e significados a grande responsável pela nossa mais absoluta singularidade. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos fenômenos que mais me encanta como psicólogo é, justamente, como nosso processo de individuação se dá em meio a uma coletividade. Somos membros de uma sociedade, compartilhamos o mesmo caldo cultural daqueles que estão à nossa volta e, ainda assim, cada ser humano significa e percebe sua vivência no mundo de forma única. Tentar impor a lógica formal à nossa vida subjetiva seria uma violência contra toda esta. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, prefiro trabalhar com a segunda acepção do verbo solucionar: &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">conseguir decifrar algo extremamente difícil, indecifrável, misterioso; decifrar: solucionar um enigma</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, pois os sentimentos funcionam a partir de uma lógica muito própria e não atendem aos princípios do pensamento hipotético-dedutivo, ao qual estamos acostumados. Na tentativa de  compreender os sentimentos, é necessário respeitar seu modo de constituição e de construção dos seus sentidos. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir dessa compreensão, não faz sentido algum propor fórmulas ou falar em argumentos lógicos na tentativa de fazer com que o paciente modifique os sentimentos que lhe causam sofrimento. Além de prometer o impossível, o terapeuta corre o risco de assumir para si uma tarefa que é do paciente: compreender os sentidos presentes em seus sofrimentos e sentimentos. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em contrapartida, Pompeia (2011), propõe que um psicoterapeuta, fundamentado na fenomenologia &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">pode, honestamente, oferecer ao paciente é a </span></i><b><i>parceria</i></b><i><span style="font-weight: 400;"> na procura da verdade de sua história, da qual fazem parte o seu momento atual, o já vivido e o que está por vir, pois esta história está sempre em aberto&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(p.131)</span><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A expressão parceria reflete muito bem a postura de um psicoterapeuta em uma abordagem fenomenológica, pois não cabe ao terapeuta convencer o paciente de um certa lógica ou, ainda, tentar promover a adequação de seus sentimentos. A parceria surge de forma natural, pois paciente e terapeuta unem-se na jornada de autoconhecimento iniciada pelo primeiro. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">O papel do terapeuta é de facilitar a postura de reflexividade necessária para a tomada de consciência do paciente a respeito de sua história, dos sentidos nela existentes e dos sentimentos daí derivados. O terapeuta também é capaz de ajudar o paciente a perceber que escolhas fazem mais sentido a partir das compreensões por ele próprio conquistadas. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, para que seja possível o solucionar que visa decifrar algo extremamente difícil, é necessário quietude. Byung-Chul Han recorre à noção de </span><i><span style="font-weight: 400;">vida contemplativa</span></i><span style="font-weight: 400;">, presente no pensamento de Nietzsche, como caminho para escapar do frenesí de estímulos em que estamos inseridos. A </span><i><span style="font-weight: 400;">vida contemplativa</span></i><span style="font-weight: 400;"> como descrita exige &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-de-si, isto é, capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> (p.51). É justamente o exercício de não reagir imediatamente a um estímulo que nos proporciona o vazio necessário para o desenvolvimento da reflexividade.  </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Heidegger (1959) se refere à reflexividade como </span><i><span style="font-weight: 400;">pensamento que medita.</span></i><span style="font-weight: 400;"> Em suas palavras: &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">O pensamento que medita exige, por vezes, um grande esforço. Requer um treino demorado. Carece de cuidados ainda mais delicados do que qualquer outro verdadeiro ofício. Contudo, tal como o lavrador, também tem de saber aguardar que a semente desponte e amadureça.&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> (p.14). O esforço referido é o de nos afastarmos dos julgamentos, das representações, das crenças que temos a respeito daquilo sobre o que meditamos. Este esforço também se refere à tentativa de afastamento do pensamento lógico com a intenção de perceber o sentido próprio dos sentimentos. Também há o esforço de respeitar o próprio tempo do pensamento e não tentar antecipar conclusões e compreensões. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na prática, o que acontece quando temos um sentimento que não compreendemos, que nos causa incômodo ou sofrimento? O mais natural é buscarmos uma referência em situações passadas, mas nem sempre isso dá certo, pois é possível que esta seja uma situação nova e nossa referência passada não nos possibilite uma boa compreensão no agora. Quando vamos mais além, podemos ainda pesquisar a respeito desse sentimento. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste caso, pode ser que encontremos tanto material acadêmico quanto relato de pessoas que viveram sentimentos parecidos. Mas, mesmo que todos esses relatos sejam verdadeiros, nenhum deles diz respeito à sua vivência especificamente. Muitas vezes, com todo esse material que vamos juntando, corremos o risco de nos afastarmos da compreensão do sentimento em questão ao invés de compreendê-lo. Conseguem perceber a dificuldade sobre a qual Heidegger nos alerta?</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, o próprio Heidegger lembra que &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">qualquer pessoa pode seguir os caminhos da reflexão à sua maneira e dentro dos seus limites&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(p.14). É desta forma que o psicoterapeuta de base fenomenológica busca auxiliar o paciente a meditar sobre seus sentimentos e sofrimentos, afastando-se de referenciais externos e procurando em suas próprias vivências os sentidos daquilo que sente. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quanto mais esse olhar para dentro de si for desenvolvido, melhor o paciente poderá compreender que seus sentimentos e vivências formam um tecido composto por diferentes fios de sentido. Desta forma, quando estiver pronto, poderá compreender a si mesmo ao invés de reproduzir aquilo que o mundo &#8211; o externo &#8211; diz a respeito de suas vivências. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não se assuste, mas o caminho é longo, tortuoso e desafiador. Mas é também libertador. Como existencialista, não consigo pensar em outra possibilidade que seja mais recompensadora, uma vez que ela nos permite um afastamento do ruído das opiniões, das lógicas estabelecidas e nos aproxima de uma apropriação de nossa própria existência. Reconhecer que há uma jornada e que a solução não é pronta, muito menos única e absoluta, é um importante exercício de conhecimento e &#8211; claro &#8211; de conhecimento de si, como bem colocou Lao-Tsé.  </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b><i>&#8220;Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão.&#8221;</i></b><span style="font-weight: 400;">  – Lao-Tsé</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando à pergunta inicial: para que serve a psicoterapia? Do meu ponto de vista, a psicoterapia serve para criar um espaço, gerar uma pausa das demandas do mundo, e propiciar as condições necessárias para uma meditação sobre si mesmo, algo tão difícil de se conseguir diante dos chamados incessantes do cotidiano. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, na fenomenologia, evitamos estabelecer relações funcionalistas com a psicoterapia, assumindo objetivos fechados para um processo que, como aqui foi descrito, é pessoal e artesanal. Entretanto, deixo aqui alguns apontamentos da professora Ana Feijoó (2015), acerca de mudanças observadas em pacientes que fizeram psicoterapia dentro desta proposta:</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<ol>
<li style="list-style-type: none;">
<ol>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b><i>&#8220;Romper com ilusões&#8221;</i></b><b>,</b><span style="font-weight: 400;"> pois frequentemente temos uma compreensão cristalizada e, em certa medida, ilusória dos problemas que vivemos. Com a abertura do espaço para a reflexividade, podemos romper com essas ilusões e nos aproximarmos de uma compreensão mais fidedigna das situações que vivemos;</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b><i>&#8220;Deixar transparecer que a vida não é lugar de total realização, que a vida comporta frustrações, ou seja, projetos não realizados</i></b><b>&#8220;</b><span style="font-weight: 400;">, pois a existência também possui uma dimensão negativa representada por sua indeterminação e incompletude. Refere-se à compreensão de que positividade e negatividade coexistem e ambas são importantes na compreensão da existência. </span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b><i>&#8220;Questionar verdades estabelecidas&#8221;</i></b><span style="font-weight: 400;">, refere-se à possibilidade de vivenciar a angústia como parte da existência e não como patologia. O esvaziamento dos sentidos resulta na angústia, condição necessária para o exercício da liberdade e para a ressignificação de vivências.</span></li>
</ol>
</li>
</ol>
<p>&nbsp;</p>
<ul>
<li aria-level="1"><b>Abrir o caráter de poder ser de toda e qualquer existência: <span style="font-weight: 400;">somos seres inacabados e são nossas possibilidades que nos garantem um direcionamento para o futuro. Ao abrir o caráter de poder ser, o paciente tem a oportunidade, não apenas de analisar os limitadores externos para a realização de seus projetos, como também de compreender em que medida ele mesmo atua de forma a dificultar ou impossibilitar a realização desses mesmos projetos.</span></b></li>
</ul>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para encerrar, gostaria de resgatar o papel dos encontros que citei logo no início. Foi a partir de uma conversa &#8211; de um encontro com o outro &#8211; que escrevi essas linhas e trouxe elementos na tentativa de responder a uma questão. Perguntas não devem ser encerradas, tão pouco os encontros que nos afetam e nos levam a refletir. Reflexão, esta mesma, também proposta pela psicoterapia. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até o próximo! </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>REFERÊNCIAS:</b></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">FEIJOÓ, Ana Maria Calvo de. </span><b>Situações Clínicas I: análise fenomenológica de discursos clínicos.</b><span style="font-weight: 400;"> Rio de Janeiro. IFEN, 2015</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">HAN Byung-Chul.</span><b> Sociedade do Cansaço.</b><span style="font-weight: 400;"> Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">HEIDEGGER, Martin. </span><b>Serenidade. </b><span style="font-weight: 400;">Lisboa: Instituto Piaget, 1959.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">NIETZSCHE, Friedrich. </span><b>Humano, Demasiado Humano. </b><span style="font-weight: 400;"> São Paulo: Companhia das Letras, 2005.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">POMPEIA, João Augusto. </span><b>Dois Nascimentos do Homem.</b><span style="font-weight: 400;"> Rio de Janeiro: Via Verita:2011.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">https://www.dicio.com.br/solucionar/</span></li>
</ul>
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		<title>Vamos falar de Produtividade? Quanto mais podemos produzir sem adoecer?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Apr 2021 20:42:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Márcio Souza &#160; Estou com a ideia deste texto há um bom tempo escrita em um post-it colado na parede do meu escritório de casa. Tempo suficiente para a tinta da caneta permanente perder seu viço. Uma das razões para esta procrastinação (sim, eu também faço isso;)) foi a tentativa de achar um caminho para [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Márcio Souza</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estou com a ideia deste texto há um bom tempo escrita em um post-it colado na parede do meu escritório de casa. Tempo suficiente para a tinta da caneta permanente perder seu viço. Uma das razões para esta procrastinação (sim, eu também faço isso;)) foi a tentativa de achar um caminho para trazer uma discussão complexa e eu não gostaria de ser mais um na fila daqueles que simplificam profundas questões sociais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Começo com uma situação que vivi em algum momento de 2019. Neste ano adotei a motocicleta como meio de transporte e, com alguma frequência, deixava a moto no consultório à noite para encontrar algum amigo ou minha esposa em um boteco antes de ir para casa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No dia seguinte chamei um Uber para ir de volta para o consultório. Sempre que estou desacompanhado, sento no banco da frente. E assim, o fiz. Percebi que a motorista não estava no melhor de seus dias. Tentei puxar assunto, mas depois de duas respostas atravessadas resolvi ficar calado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alguns quarteirões depois ela se desculpa: “Márcio, desculpe, você não tem culpa por eu odiar este trabalho”. Perguntei com o que ela trabalhava antes e ela disse que trabalhou a vida inteira como secretária de um escritório e que faltavam apenas três semestres para que ela se formasse em engenharia, portanto, a única forma que ela via de pagar suas contas até terminar a faculdade era sendo motorista de aplicativo, mas com a quantidade de horas que ela precisava trabalhar ali, não sobrava muito tempo para o estudo. Logo chegamos ao meu destino e não pudemos aprofundar o assunto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Infelizmente esta situação não é isolada. Por todo lado vejo o termo </span><b>empreendedorismo</b><span style="font-weight: 400;"> sendo aplicado ao contexto onde o que existe é a </span><b>precarização do trabalho</b><span style="font-weight: 400;">. Usamos este termo para nos referir a contextos de trabalho que não contam com qualquer tipo de garantia para o trabalhador. Este processo não é novo, desde a década de 70 há estudos mostrando diferentes formas de perdas de garantias relacionadas ao trabalho. Nos anos 80 e 90, foram os bancários, no início dos anos 2000, os operadores de call centers, e mais recentemente os trabalhadores de aplicativos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas a lista não para por aí. Recentemente, a lógica da precarização está alcançando as mais diversas profissões. Segundo o professor Ricardo Antunes da Unicamp, a precarização do trabalho </span><i><span style="font-weight: 400;">“abrange um universo imenso de trabalhadores e trabalhadoras, de que são exemplos médicos, enfermeiros, cuidadores de idosos e crianças, motoristas, eletricistas, advogados, serviços de limpeza, consertos domésticos, entre tantos outros.</span></i><span style="font-weight: 400;">” (2020, p.12). Ou seja, com raríssimas exceções, não existe mais trabalho protegido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Claro que para que tal delapidação aconteça, é necessário um conjunto de medidas que passam pela criação de políticas públicas que permitam a gradual retirada de direitos trabalhistas, flexibilização dos contratos de trabalho, manutenção de um contingente de desempregados, dentre muitos outros. Cada um destes processos é analisado por uma  infinidade de artigos acadêmicos respeitados tanto no Brasil quanto no mundo. Em função do recorte proposto para este texto, não entrarei nestas análises. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De forma concomitante, observamos o surgimento de discursos que tentam “dourar a pílula” de tais transformações vendendo a ideia de que qualquer pessoa pode ser um empreendedor de sucesso, que com pouco dinheiro e conhecimento é possível se tornar um milionário na bolsa de valores ou que você pode ser o próximo Bill Gates ou George Soros. É justamente neste ponto que acredito ser necessário tomar cuidado, pois já vi muita gente falir fazendo day trade, pois haviam aprendido na internet como ganhar muito dinheiro com esta operação na bolsa de valores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em tempo, alguns economistas formados que conheço não fazem este tipo de operação por considerarem o risco muito alto. Não apenas na área do mercado financeiro, basta uma rolada em qualquer rede social que já é possível encontrar uma enxurrada de anúncios de pessoas que vivem de vender fórmulas infalíveis de sucesso em todas as áreas possíveis e imagináveis. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, existe um aspecto do fenômeno da precarização do trabalho que é a razão de ser deste texto que é a tentativa de </span><b>aplicar às pessoas a mesma lógica de produção usada pelas indústrias</b><span style="font-weight: 400;"> ou pelas empresas de tecnologia.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já estamos vivendo a quarta revolução industrial, a chamada Indústria 4.0, caracterizada pelo uso intensivo de recursos computacionais  e de inteligência artificial para  produzir alterações nas expectativas dos clientes, criar produtos mais inteligentes e mais produtivos, promover novas formas de colaboração e parcerias e  converter o modelo operacional em modelo digital (COELHO, 2016). A ideia é que cada vez mais tarefas sejam assumidas por máquinas e computadores e cada vez menos atividades sejam designadas a seres humanos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se, por um lado, o aumento de produtividade gerado pelos recentes recursos computacionais seja algo a ser comemorado, o que de fato me preocupa é a aplicação desta lógica a seres humanos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tem sido frequente entre meus clientes, tanto de psicoterapia quanto de orientação de carreiras, o relato de </span><b>sofrimentos referentes à sobrecarga de trabalho, dificuldade de conciliar o trabalho com a vida pessoal e familiar, sentimento de ineficiência, medo de demissão e muitos outros</b><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acredito ser imprescindível que o profissional que trabalha com estes sofrimentos tenha bom conhecimento do contexto sócio-político e econômico que vivemos. Afinal, não existe ser humano que viva longe das influências do contexto social que o cerca. Entendo o Ser-no-mundo, proposto por Heidegger, como um processo de individuação que é singular, mas acontece em um mundo já dado com todo seu caldo cultural. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antunes (2020) aponta a necessidade de articulação coletiva por parte dos trabalhadores a fim de forçar a reversão das perdas trabalhistas. Movimentos como estes estão espalhados pela Europa e ano passado assistimos aqui no Brasil uma paralisação de entregadores de aplicativos em meio à pandemia, contudo estas mobilizações, apesar de necessárias para a tentativa de reverter a precarização do trabalho, são iniciativas que não respondem aos sofrimentos daqueles que me procuram.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acredito que, ao falarmos de produtividade, precisamos primeiro definir de que contexto estamos falando. Uma coisa é uma equipe programar ajustes para otimizar recursos em uma linha de produção ou o desenvolvimento de recursos de informática para que as pessoas gastem menos tempo na execução de tarefas repetitivas; outra coisa totalmente diferente é comparar o ser humano às máquinas e computadores que deveriam estar a serviço dele. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde o Iluminismo tais comparações seduzem a humanidade desde o advento das primeiras máquinas automatizadas. Escuto para todo lado que fulano deu “tela azul”, beltrano precisa “trocar de processador” ou que alguém precisa instalar mais “memória RAM”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Confesso que fico muito incomodado com tais analogias pois, em minha compreensão, seres humanos precisam de alimento, segurança, descanso, afeto e realização. Coisas tão essenciais para nossa existência que duvido que ainda venha a existir alguma máquina capaz apreender o sentido de um afago em um momento de sofrimento, de uma noite bem dormida depois de uma semana exaustiva, de um olhar de apoio quando achamos que não daremos conta de algo, ou o brilho nos olhos de alguém que acabou de conquistar algo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vamos fazer uma analogia? Em 1885 foi criada a primeira motocicleta que tinha a potência de 0,5cv e chegava a 12km/h. O modelo que pilota atualmente, que está longe de ser o mais potente em produção, produz 54vc, 108 vezes mais potência que a sua anciã e não sei qual é a sua velocidade máxima, pois nunca tive coragem de fazer este teste. Com o advento da engenharia é perfeitamente possível forçar o limite das máquinas e na indústria 4.0 este empurrão é dado com o recurso da inteligência artificial e demais recursos de computação. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O problema desta lógica é que ela não afeta somente a mentalidade de gestores e empresas que esperam sempre que seus trabalhadores aumentem paulatinamente de produtividade, da mesma forma que se espera que as máquinas façam. </span><b>O próprio trabalhador passa a se ver como máquina que precisa ser ajustada, programada, reprogramada e atualizada para produzir cada vez mais, sem perceber o custo desta lógica para sua saúde física e mental.</b> <b>Meu questionamento é a viabilidade deste raciocínio em termos da saúde do trabalhador. </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No anseio por produzir mais, trabalhadores consomem cursos e literatura com foco em  produtividade. Nas redes sociais não faltam gurus para te ensinar a ser mais produtivo. </span><b>O que eu não vejo acontecer fora dos círculos acadêmicos</b><span style="font-weight: 400;"> (afinal a ciência está sempre atenta para não ser confundida com senso comum!) </span><b>é alguém questionar quais são os limites por esta busca desenfreada por produtividade.</b><span style="font-weight: 400;"> A consequência de quando negamos os fatores sociais que fazem parte de um fenômeno, corremos o risco de atribuir aos indivíduos a responsabilidade por sua ineficiência. E é exatamente isso que tenho visto não apenas no consultório, mas também no discurso dos gurus da produtividade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Gostaria de deixar claro que não tenho problema nenhum em estudar produtividade, às vezes é preciso melhorar a forma como trabalhamos para termos tempo para nos dedicarmos às demais dimensões que são importantes em nossas vidas. Contudo, sempre acreditei que os recursos da produtividade deveriam estar a serviço do trabalhador para que ele possa ter o trabalho como fonte de realização e, para isso, é necessário haver uma vida fora do trabalho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Preciso encerrar este texto, pois desdobramentos estão borbulhando aqui em minha cabeça enquanto escrevo, mas estes serão objetos de outros textos, pois hoje ainda vou preparar o jantar e tocar um pouco de violão <img src="https://s.w.org/images/core/emoji/17.0.2/72x72/1f609.png" alt="😉" class="wp-smiley" style="height: 1em; max-height: 1em;" /> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes de encerrar, gostaria de fazer um alerta e fazer alguns convites para a reflexão. O alerta é que se não tomarmos cuidado, o trabalho tende a ocupar todos os espaços disponíveis em nossas vidas. Em uma lógica de produção que visa o lucro acima de tudo, o bem-estar do trabalhador, na maior parte das vezes, não é prioridade para as empresas, tanto que as recentes reformas trabalhistas foram aprovadas pelo congresso de 2016 para cá. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Agora, alguns convites de reflexão: </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">1- Se você está trabalhando demais, primeiro avalie a quantidade de demanda de trabalho que você recebe antes de achar que tem que ser mais produtivo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">2- Caso perceba que a demanda é possível de ser administrada, mas mesmo assim não está conseguindo, aí sim é a hora de estudar um pouco sobre produtividade ou de procurar alguém que possa te ajudar a fazer alguns ajustes em sua rotina de trabalho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">3- Caso perceba que a demanda de trabalho é alta, tente avaliar se há abertura para diálogo com seu gestor para tentar equalizar esta demanda. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">3.1- Se seu gestor estiver aberto a este diálogo, ótimo, mas não se esqueça de entregar aquilo que combinou com ele. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">3-2- Se seu gestor não estiver aberto, talvez seja a hora de planejar uma transição de carreira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">4- Mesmo quem é feliz no trabalho vive momentos de sofrimento, portanto não acredite em promessas que te comparem a uma máquina ou que promovam uma solução rápida para sua situação. Procure um profissional de quem você já tenha referência e que respeite a especificidade de suas necessidades e de suas aspirações. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">5- Antes de pensar em empreender, avalie muito bem sua situação. Procure consultoria para fazer um plano de negócios e se prepare em todos os aspectos para a implementação de seu negócio. Caso contrário, mesmo sendo empreendedor, você corre o risco de entrar na lógica da precarização do trabalho.</span></p>
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		<title>Mentoria para Psicólogos: por que os cursos superiores não ensinam sobre carreira?</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2021/03/03/mentoria-psicologos-porque-cursos-superiores-nao-ensinam-carreira/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Mar 2021 20:31:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Márcio Souza &#160; Há um incômodo que me acompanha por quase todos os 20 anos que atuo como professor universitário e como orientador de carreiras. O incômodo é como os cursos superiores, mesmo os de excelência, falham em ajudar os seus profissionais recém-formados a compreender como planejar e desenvolver suas carreiras.  &#160; O resultado disso [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Márcio Souza</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há um incômodo que me acompanha por quase todos os 20 anos que atuo como professor universitário e como orientador de carreiras. O incômodo é como os cursos superiores, mesmo os de excelência, falham em ajudar os seus profissionais recém-formados a compreender como planejar e desenvolver suas carreiras. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">O resultado disso é que muitos profissionais que sonharam tornar-se psicólogos, que pagaram a duras penas as mensalidades, que abriram mão de tempo com família e amigos para estudar, desistem de atuar em sua área de formação devido às dificuldades em conseguir sua inserção profissional. O que me deixa mais triste é saber que isso poderia ser evitado se estes profissionais tivessem a oportunidade de pensar em suas carreiras desde o período da faculdade. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lembro de abordar este assunto em algumas das minhas aulas e, frequentemente, ouvia como resposta. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Claro que estamos pensando em nossas carreiras, estamos aqui cansados à noite só para assistir a sua aula!</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta resposta é fruto de uma confusão que as próprias universidades ajudam a difundir: a falta de distinção entre </span><b>profissão</b><span style="font-weight: 400;"> e </span><b>carreira</b><span style="font-weight: 400;">. A palavra </span><b>profissão</b><span style="font-weight: 400;"> tem origem no latim &#8220;professio,onis&#8221;, neste contexto relacionada a professar, ensinar. Portanto, a palavra profissão está relacionada a um lugar de conhecimento ocupado por aquele que se dedicou a aprender um ofício. Já a palavra </span><b>carreira</b><span style="font-weight: 400;"> tem sua origem relacionada a rota, estrada, um caminho para se chegar em algum lugar. Percebe a diferença? A grosso modo, profissão é o conjunto de conhecimentos que te habilita a exercer um ofício e carreira é o caminho que se percorre no desenvolvimento profissional, quais escolhas foram feitas, que atitudes foram tomadas para que um profissional ocupe seu lugar no mercado.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">É muito interessante observar que nas propagandas das universidades usam-se slogans como “Garanta seu sucesso profissional”, “Conquiste seu lugar no mercado” ou “Esteja entre os primeiros”. Em todos os casos a promessa é de sucesso na carreira, mas e os currículos de tais universidades? Em geral estão focados apenas na profissionalização de seus estudantes. Vamos a um exemplo.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde 2002 atuo como professor de cursos de psicologia em diferentes instituições de ensino. Neste período, além de professor, atuei como coordenador de curso e participei da reestruturação curricular de dois dos cursos onde atuei. Em todas estas instituições, havia o esforço de adequar os currículos aos parâmetros determinados pelas Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Psicologia. Esta é uma obrigação legal, da qual depende a autorização de funcionamento de cada cMentoria para Psicólogos: Porque os cursos superiores não ensinam sobre carreira?urso. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao analisar as Diretrizes curriculares, percebe-se que a ênfase está na formação </span><b>profissional</b><span style="font-weight: 400;">, ou seja, quais são os conhecimentos e habilidades esperados do aluno que se forma no curso de psicologia. Como consequência disso, mesmo em cursos de excelência, os profissionais formados dominam os conhecimentos esperados mas não sabem o que fazer para atingir o desejado sucesso profissional.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cresci ouvindo de professores e colegas que </span><i><span style="font-weight: 400;">“basta fazer um bom trabalho que o reconhecimento vem sozinho”.</span></i><span style="font-weight: 400;"> Sou obrigado a discordar veementemente desta afirmação. Conheço inúmeros profissionais de todas as áreas que exercem suas profissões com maestria mas não possuem o reconhecimento desejado. Seja o reconhecimento social dado por seus pares ou o reconhecimento financeiro.   </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso acontece, pois ao </span><i><span style="font-weight: 400;">“fazer bem seu trabalho”</span></i><span style="font-weight: 400;"> o foco do indivíduo está voltado exclusivamente para sua atividade profissional. Certamente este é um requisito para atingir o sucesso e, principalmente, para mantê-lo a longo prazo. Mas não é o suficiente, pois com a alta concorrência em todos os campos de atuação profissional, é imperativo que cada profissional tome para si a tarefa de planejar e executar a rota que deseja seguir em sua carreira. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escuto com frequência recém formados que se queixam das instituições onde estudaram por acreditarem que tiveram suas carreiras negligenciadas. Em parte compreendo, pois acredito que se as instituições de ensino não se preocupassem apenas em garantir as exigências das Diretrizes Curriculares, haveria espaço para alertar aos estudantes sobre a necessidade de fazer um </span><b>planejamento de carreira</b><span style="font-weight: 400;"> e, até mesmo, prever em seu currículo uma mentoria fornecida pela própria instituição. Este modelo existe em outros países, mas, infelizmente, por aqui, quando esta mentoria acontece, é de maneira informal como discuti em meu artigo anterior.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como disse, compreendo em parte, pois, por outro lado, as discussões mais atuais a respeito de carreira tem colocado na mão do profissional a responsabilidade por definir os caminhos que deseja trilhar em sua história profissional. Sem dúvida, a relação da parcela de responsabilidade das instituições de ensino e a do profissional em formação  precisa ser discutida, mas tenho algumas considerações a fazer.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para quem se formou entre as décadas de 60 e 80, o emprego era praticamente uma garantia e era esperado que a pessoa trabalhasse a vida inteira e se aposentasse na mesma empresa. Este ainda é o sonho de muita gente e se este contexto nos atrai pelas garantias, ele peca na possibilidade de mobilidade profissional. Uma pessoa que não se adaptasse ou que buscasse uma recolocação poderia não ser bem vista pelo mercado e até se prejudicar profissionalmente.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para quem se forma hoje, o cenário é bem diferente. Estudos apontam que é esperado que quem inicia agora sua trajetória profissional passe, em média, por 5 grandes transações de carreira. As garantias trabalhistas de hoje não chegam nem perto daquelas dos profissionais citados no parágrafo anterior. Contudo, quando há perdas de garantias, há também um ganho em liberdade e mobilidade profissional. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Portanto, o protagonismo de carreira precisa ser assumido por cada profissional. </span><b>Cabe a nós assumirmos o controle sobre nossas carreiras</b><span style="font-weight: 400;">, definirmos o caminho que desejamos trilhar profissionalmente e traçar estratégias para atingir a tão desejada realização profissional. Como resultado desta mobilidade e deste protagonismo tenho testemunhado profissionais que encontram caminhos para viver da profissão que escolheram e plenamente identificados com seus trabalhos e suas rotinas</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas como fazer isso se as universidades não preparam os alunos para este planejamento? Felizmente existem diversos recursos para quem deseja aprender a empreender e a ter controle sobre sua carreira. Existe uma diversidade de cursos sobre o tema, mas neste caso, além de estudar uma área que não é a sua especialidade, o profissional tem que saber selecionar os conhecimentos que serão úteis para seu projeto profissional. Este caminho pode funcionar, mas já vi muitos profissionais batendo cabeça tentando descobrir como aplicar o aprendizado na sua carreira. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para quem deseja ir mais “direto ao ponto”, existem os processos de coaching de carreiras ou de mentoria. Em ambos processos, o objetivo é o de ajudar o jovem profissional a estabelecer um nicho de atuação em sua profissão que esteja alinhado com seus valores pessoais e ambições para o futuro. A partir deste ponto, em conjunto com o cliente, são definidas estratégias para possibilitar a realização deste projeto, são definidos aprendizados e experiências que precisam ser construídos ao longo do caminho profissional para que a realização seja atingida.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A diferença entre o processo de coaching de carreiras e a mentoria está na experiência profissional do coach ou do mentor.  O coach aprende a respeito da área de atuação do coachee a fim de ajudá-lo assim, consegue ajudar profissionais das mais diversas áreas de atuação. Já o mentor conta com sua própria experiência profissional para ajudar os seus mentorados a trilhar suas trajetórias. O trabalho do mentor é, portanto, mais específico e voltado para uma profissão ou área de atuação que seja de seu domínio. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/mentoria-para-psicologos/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><img decoding="async" class="alignnone wp-image-2289" src="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/01/mentoria-para-psicologos-marcio-souza-2.svg" alt="" width="300" height="117" /></a></p>
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		<title>Mentoria de carreira em psicologia: alguns apontamentos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Feb 2021 21:06:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Márcio Souza &#160; Durante toda minha vida, mesmo na infância, estive cercado por pessoas que eram frustradas em suas carreiras. Sem dúvida, este foi um dos fatores que me fez escolher a  Psicologia como profissão e, em especial, a área de orientação profissional e de carreiras. Fenômenos relacionados a carreiras nunca passaram despercebidos de mim. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Márcio Souza</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante toda minha vida, mesmo na infância, estive cercado por pessoas que eram frustradas em suas carreiras. Sem dúvida, este foi um dos fatores que me fez escolher a  Psicologia como profissão e, em especial, a área de orientação profissional e de carreiras. Fenômenos relacionados a carreiras nunca passaram despercebidos de mim. Por que profissionais muito capazes em suas áreas não conseguiam um bom posicionamento profissional? Por que, nem sempre, os melhores alunos de uma turma são os que obtêm maior destaque em suas profissões?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diversas vezes me questionei: Quais os fatores que levam alguns à realização na profissão e outros a viverem relações tão conturbadas com suas profissões? Por que eu mesmo vivi estas dificuldades de forma mais branda que clientes e colegas? E foi tentando responder a esta última pergunta que eu tive alguns insights relevantes. O primeiro deles foi o papel dos diferentes mentores que tive ao longo de toda minha vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Renato Ricci define mentoria como </span><i><span style="font-weight: 400;">“o processo onde alguém, geralmente mais experiente, auxilia e apoia alguém mais novato. A figura do mentor espelha o papel daquele que leva outra pessoa a um novo patamar de conhecimentos ou experiências”. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No sentido usado por Ricci, percebi que nunca deixei de ter mentores em minha vida. O primeiro que consigo lembrar foi o meu avô paterno “Seu Guima”, que nunca deixou de acreditar em meu potencial e em meus momentos de dificuldade na escola sempre me recebia com um abraço acolhedor e conselhos que me acompanham até hoje. Ainda hoje lembro de seu orgulho quando enviei uma cópia do certificado de minha primeira apresentação em um congresso científico. Ainda no ensino médio, pude contar também com alguns pais de amigos que sempre alertavam para critérios importantes ao fazer uma boa escolha profissional.</span></p>
<p><a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos2.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-2316 size-full" src="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos2.jpg" alt="" width="800" height="600" srcset="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos2.jpg 800w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos2-300x225.jpg 300w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos2-768x576.jpg 768w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos2-393x295.jpg 393w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos2-786x590.jpg 786w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" /></a></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na universidade, tive a sorte de ingressar em uma instituição em que a formação, e não apenas o ensino, era uma preocupação muito grande entre o corpo docente. Muitos dos meus professores desta época se tornaram amigos e, certamente, alguns cumpriram o papel de mentores. Eram verdadeiros mestres que, em geral, fora da sala de aula, me ajudavam debatendo comigo a respeito dos temas de suas disciplinas, discutindo sobre o mercado de trabalho da psicologia e, não raro, com um ombro para acolher minhas mágoas ou minhas ansiedades diante da formação. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Posso dizer que durante o período da faculdade tive muitos mentores mas uma delas ocupou um lugar muito especial. Seu nome é Glória. Meu primeiro contato com ela foi quando eu era representante acadêmico em um dos departamentos do curso de psicologia. Só fui ser seu aluno no terceiro ano e foi aí que nos aproximamos. Sempre com um jeito doce, ela conseguia me estimular para ir sempre um pouco além. Lembro ainda hoje quando ela me pediu para refazer um trabalho, pois sabia que eu não tinha dado o meu melhor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitos dos meus alunos não entenderiam se eu fizesse um pedido desses, mas eu entendi. Para ela, não bastava que eu conseguisse a nota, ela estava preocupada com o profissional que crescia em mim. Refiz o trabalho e não lembro que nota tirei. Foi também ela quem me apresentou ao mundo da orientação profissional e, quando eu questionei os textos que ela havia recomendado, me emprestou uma dezena de livros em espanhol (junto com um dicionário). Um destes autores cubanos se tornou a base teórica do meu mestrado. Tenho muitas outras histórias com a Glória que não cabem aqui. Ainda hoje somos amigos e não foi à toa que a convidei para ser minha madrinha de casamento. </span></p>
<p><a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos.jpg"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-2312 size-full" src="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos.jpg" alt="" width="800" height="600" srcset="https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos.jpg 800w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos-300x225.jpg 300w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos-768x576.jpg 768w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos-393x295.jpg 393w, https://www.marciosouzacoaching.com.br/wp-content/uploads/2021/02/mentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentosmentoria-de-carreira-em-psicologia-alguns-apontamentos-786x590.jpg 786w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" /></a></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estes professores/mentores tiveram um papel fundamental, pois tinham a exigência necessária para que eu me desenvolvesse como profissional e a sensibilidade de reconhecer a hora de acolher o estudante. Foram eles que primeiro perceberam minha afinidade com a pesquisa e com o ensino e me incentivaram a perseguir um mestrado logo ao término da minha graduação. Ainda antes de finalizar o mestrado me tornei professor universitário e agora era a minha vez de ajudar os aspirantes a psicólogos a encontrar seus próprios caminhos. Não foi nada fácil, mas admirador do pensamento de Paulo Freire, deixei que os próprios estudantes me mostrassem como ajudá-los. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como professor universitário, ao longo de quase 20 anos, tive a oportunidade de orientar um grande número de alunos que, simplesmente não acreditavam em sua capacidade, ou acreditavam que deveriam trancar o curso por não serem bons o suficiente. Lembro com muito carinho de inúmeras conversas nos bancos das faculdades em que eu tentava lançar uma luz nestas perspectivas tão sombrias de futuro. Felizmente muitos destes ex-alunos hoje são profissionais formados e pós-graduados e em quem eu confio plenamente como profissionais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de minha trajetória como professor, também tenho aproximadamente 20 anos de experiência em orientação de carreiras. Também este ofício me permitiu refletir bastante sobre a relação entre a satisfação e a insatisfação profissional. Geralmente quem me procura como orientador tem alguma insatisfação com sua carreira. Em geral tais insatisfações estão relacionadas a critérios de escolhas que pareciam pragmáticos  na época em que as escolhas foram feitas, mas deixaram de considerar o contexto como um todo ou quais as perspectivas de futuro estes critérios abririam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No contexto de orientação de carreira, é muito comum que critérios de escolha equivocados sejam a principal fonte de insatisfação com a vida profissional. Geralmente estes critérios são escolhidos pela pessoa sozinha, ou até mesmo com a ajuda de alguma figura de confiança que não reunia o conhecimento necessário para orientá-la adequadamente. Infelizmente esta fonte de erro é muito comum, pois frequentemente estes “conselheiros&#8221; são pessoas que possuem boa vontade e alguma experiência na área de atuação mas acabam universalizando sua experiência na hora de aconselhar os mais jovens. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas Palavras de Achor, </span><i><span style="font-weight: 400;">“Se você começar a observar pessoas ao seu redor, perceberá que a maioria segue uma fórmula que sutilmente ensinada nas escolas, pelos pais ou pela sociedade. Ou seja: se você se empenhar, terá sucesso e só depois de ter sucesso é que poderá ser feliz”</span></i><span style="font-weight: 400;">.  O grande problema deste tipo de crença é que a maior parte das pessoas passa a vida vivenciando um sofrimento relacionado ao trabalho na esperança de que, um dia, sintam-se felizes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo existencialista, estou mais propenso a acreditar que é a partir de nossas escolhas que são criadas as condições de possibilidade daquilo que entendemos como felicidade. Claro que nossas escolhas são feitas dentro do contexto em que nossa vida se encontra e seria leviano dizer que fatores sociais, culturais e econômicos não pesam sobre as nossas escolhas. Não apenas pesam, muitas vezes as determinam, basta ver o impacto que a pandemia do COVID-19 teve em nossas vidas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É por isso que Sartre alerta que nossa liberdade é sempre situada, ou seja, dentro do contexto social, econômico e político em que estamos inseridos, somos obrigados a escolher e sempre seremos responsáveis por estas escolhas. Sartre chama a tentativa de negar esta responsabilidade de má-fé, pois ao invés de nos isentar da responsabilidade, esta postura só nos coloca em uma condição de alienação que tende a intensificar nosso sofrimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Portanto, não adianta desejar algo, fazer escolhas que nos afastem daquilo que desejamos e esperar que nossos sonhos se realizem. Para que os sonham tenham a possibilidade de serem realizados, precisamos buscar a coerência entre aquilo que desejamos e as escolhas que fazemos. É exatamente aí que se encontra o problema. A maioria das pessoas simplesmente não tem como contar com mentores experientes e habilitados para orientá-las em sua rede de relacionamentos. É justamente por isso que grandes empresas adotam esta metodologia para que seus profissionais mais experientes ajudem a orientar os menos experientes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Unindo as minhas experiências como orientador de carreiras e como professor universitário, passei a me questionar por que os cursos de psicologia não possuíam um serviço para ajudar os jovens psicólogos a planejar suas carreiras e já começar a pensar em suas trajetórias profissionais. Foi com um certo choque que percebi que a vivência que tive na universidade, com professores/mentores sempre à minha disposição não é a realidade de praticamente nenhum curso de psicologia. A própria dinâmica dos cursos mudou radicalmente desde que me formei. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estudei em um curso de período integral e os professores tinham uma carga horária de dedicação para cumprir e estes dois fatores eram grandes facilitadores do convívio do qual tanto me beneficiei. Hoje quase todas as universidades contratam os professores pelas horas das disciplinas que eles ministram e os próprios alunos acabam entrando e saindo da universidade com os horários apertados. É outra realidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes de finalizar este texto, ficam duas perguntas para responder. Qual a qualificação necessária para ser mentor? E como encontrar uma mentoria adequada?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em primeiro lugar, o mentor precisa ser alguém qualificado e com experiência consolidada em sua área de atuação. Como psicólogo, não estou qualificado a ser mentor de um engenheiro de produção e vice-versa, pois é com meu conhecimento e experiência que ajudarei o mentorando a encontrar seus próprios caminhos. Esta é uma diferença fundamental entre o processo de coaching e a mentoria. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No coaching existe uma diretividade maior e um número maior de estratégias que permitem o direcionamento da carreira do coachee, mesmo ele sendo de uma área de atuação diferente da de seu coach. Na mentoria, até existem ferramentas, mas como o foco é o desenvolvimento profissional, todas elas são mais reflexivas e exigem um processo de autoanálise por parte do mentorando. Na mentoria espera-se também uma independência maior do mentorando, neste caso, o mentor tem o papel de ajudar o jovem profissional a encontrar e construir caminhos que façam sentido em sua própria trajetória, de acordo com seus valores pessoais e aspirações para o futuro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um bom mentor também precisa ser, não apenas um professor, mas um bom educador. Qual a diferença? Um professor pode transmitir de uma forma mecânica seus conhecimentos sem ter um olhar para o processo de desenvolvimento do aluno. Já um educador, coloca o conteúdo em perspectiva com relação ao valor que o educando dá ao aprendizado, que usos espera fazer deste conhecimento e como o conhecimento construído transforma sua visão de mundo. Nas palavras do querido Paulo Freire &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Educar-se é impregnar de sentido cada momento da vida, cada ato cotidiano</span></i><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
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