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	<title>Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</title>
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	<description>Psicólogo, coach de carreiras, orientador vocacional e psicoterapeuta</description>
	<lastBuildDate>Tue, 24 Mar 2026 13:33:57 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</title>
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		<title>Quando o conflito vira distância: Como a Terapia de Casal ajuda a superar o afastamento e promover o reencontro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2026 13:33:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Márcio Souza &#8220;Bem mais que o tempo que nós perdemos Ficou pra trás também o que nos juntou&#8221; Resposta – Skank  Em minha experiência atendendo casais, é comum escutar falas como: “Ele não divide as tarefas da casa comigo, fica tudo em cima de mim! E quando peço para fazer alguma coisa, precisa ver a [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b>Márcio Souza</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Bem mais que o tempo que nós perdemos</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ficou pra trás também o que nos juntou&#8221;</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Resposta – Skank </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em minha experiência atendendo casais, é comum escutar falas como:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Ele não divide as tarefas da casa comigo, fica tudo em cima de mim! E quando peço para fazer alguma coisa, precisa ver a má vontade e a cara amarrada que ele faz&#8221;</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ela não entende quando falo que precisamos economizar. Enquanto eu estou preocupado em economizar para a aposentadoria, ela quer uma casa maior, um carro novo.&#8221;</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ele não me ouve! Quero dividir meus sentimentos com ele e, quando percebo, parece que ele está com a cabeça em outro planeta&#8221;</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu já falei que não quero mais um filho! Ela não entende que a gente já gasta muito com o Joaquim? Ter mais um filho pode comprometer o padrão de vida que queremos ter.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem divide a vida com outra pessoa sabe: o conflito não é um erro de percurso. Na verdade, ele é o resultado inevitável de duas histórias, expectativas e necessidades diferentes tentando ocupar o mesmo espaço.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferente do que muita gente pensa, o desentendimento não é um sinal de fracasso. Muitas vezes, é justamente no atrito que surge a chance de ajustar o caminho e entender, de verdade, o mundo emocional do outro. O problema real não é a briga em si, mas o que fazemos com ela quando o diálogo acaba.</span></p>
<h2><span style="font-weight: 400;">O perigo do &#8220;conflito silencioso&#8221;</span></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Percebo que o sinal de alerta acende quando o conflito deixa de ser um evento pontual e vira o nosso &#8220;</span><b>modo de operação</b><span style="font-weight: 400;">&#8220;. Sabe aquelas pequenas frustrações que guardamos para não criar confusão? Elas raramente desaparecem; elas se acumulam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Ela não reconhece meu esforço, parece que nada é suficiente!”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Toda vez que o procuro ele diz que está cansado. Quer saber, deixa para lá, ele surta toda vez que toco no assunto”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aos poucos, paramos de reagir ao que o parceiro disse hoje e passamos a reagir ao peso de tudo o que ficou guardado. Quando nos sentimos ignorados ou pouco reconhecidos, o nosso instinto é a </span><b>autoproteção</b><span style="font-weight: 400;">. E é aqui que o abismo começa a abrir. Essa proteção aparece de várias formas:</span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Aquela</span><b> ironia &#8220;fina&#8221;</b><span style="font-weight: 400;"> no meio de uma conversa.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Uma </span><b>cobrança excessiva</b><span style="font-weight: 400;"> por atenção.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">O </span><b>silêncio punitivo</b><span style="font-weight: 400;">.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">O </span><b>distanciamento emocional</b><span style="font-weight: 400;"> (&#8220;tanto faz&#8221;).</span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">Ninguém acorda querendo ferir o outro. Essas reações são, no fundo, pedidos desesperados de socorro diante do </span><b>medo da rejeição</b><span style="font-weight: 400;"> ou da insegurança. O paradoxo? Em vez de aproximar, elas empurram o parceiro para longe.</span></p>
<h2><span style="font-weight: 400;">O Ciclo que Aprisiona</span></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">É muito comum cairmos no que chamo de </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span></i><b><i>dança do desencontro</i></b><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span></i><span style="font-weight: 400;">: um dos parceiros cobra proximidade de forma intensa; o outro, sentindo-se pressionado ou acusado, recua. Quanto mais um pressiona, mais o outro foge. E quanto mais o outro foge, mais o primeiro intensifica a cobrança. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Para mim é importante falar sobre o que está acontecendo. Mas quando tento conversar, ele diz que não é o momento ou simplesmente muda de assunto.”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu tento controlar melhor as coisas da nossa rotina para que tudo funcione bem, mas isso parece fazer com que ela se irrite e queira fazer tudo do próprio jeito.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse estágio, a relação deixa de ser um porto seguro e vira um campo de batalha — ou pior, um deserto. Começamos a rotular o outro: </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Ele é frio&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> ou </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Ela é crítica demais&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">. A relação perde a vitalidade e a comunicação passa a ser puramente </span><b>logística</b><span style="font-weight: 400;">: quem busca as crianças, o que vamos jantar, as contas a pagar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acredito que a</span><b> solidão a dois </b><span style="font-weight: 400;">é uma das experiências mais dolorosas que existem. É estar ao lado de alguém, mas sentir que a </span><b>intimidade</b><span style="font-weight: 400;"> — aquela possibilidade de compartilhar medos, desejos e vulnerabilidades — virou uma lembrança do passado.</span></p>
<h2><span style="font-weight: 400;">O Caminho de Volta: A Visão da Gestalt-terapia</span></h2>
<p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;O contato ocorre quando há auto-suporte e suporte mútuo, permitindo que diferenças emerjam sem confluência destrutiva – comum em casamentos, onde brigas precedem o verdadeiro encontro&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> – Fritz Perls</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitos casais chegam ao consultório esperando que eu decida quem está certo. Mas a </span><b>Terapia de Casal</b><span style="font-weight: 400;"> não é um tribunal. O foco não é encontrar culpados, mas entender como a relação passou a funcionar dentro desses </span><b>ciclos repetitivos</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na </span><b>Gestalt-terapia</b><span style="font-weight: 400;">, olhamos para a relação como um &#8220;</span><b>campo compartilhado</b><span style="font-weight: 400;">&#8220;. O que acontece entre o casal não pertence a um ou a outro, mas à forma como os dois se encontram (ou se evitam). O trabalho é ampliar a awareness (consciência):</span></p>
<ul>
<li aria-level="1"><b>Como eu me sinto</b><span style="font-weight: 400;"> quando você se afasta?</span></li>
</ul>
<ul>
<li aria-level="1"><b>O que eu faço </b><span style="font-weight: 400;">que acaba provocando a sua defesa?</span></li>
<li aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Quais são as </span><b>necessidades</b><span style="font-weight: 400;"> reais por trás das minhas críticas?</span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">O objetivo não é eliminar o conflito para sempre — isso seria irreal. O objetivo é recuperar a capacidade de se </span><b>encontrar verdadeiramente</b><span style="font-weight: 400;">. Quando paramos de ser adversários e voltamos a ser parceiros que compartilham vulnerabilidades, o conflito deixa de ser um mecanismo de afastamento e volta a ser um espaço de </span><b>negociação e renovação</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Às vezes, o que o casal precisa não é aprender algo revolucionário, mas resgatar algo que se perdeu no barulho da rotina: </span><b>a coragem de ser visto</b><span style="font-weight: 400;"> e a </span><b>generosidade de realmente ouvir.</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“O ser humano se torna eu pela relação com o você, à medida que me torno eu, digo você. Todo viver real é encontro.”</span></i><span style="font-weight: 400;"> – Martin Buber</span></p>
<p><b>Você sente que a sua relação se tornou mais logística do que encontro? Talvez seja o momento de redescobrir o caminho de volta. Vamos conversar?</b></p>
<h2></h2>
<h2><span style="font-weight: 400;">Referências</span></h2>
<p><span style="font-weight: 400;">COSTA, C. B.; DELATORRE, M. Z.; WAGNER, A.; MOSMANN, C. P. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Terapia de casal e estratégias de resolução de conflitos: uma revisão sistemática. </span><b>Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília</b><span style="font-weight: 400;">, v. 37, n. 2, p. 437–449, 2017. Disponível em: </span><a href="https://www.scielo.br/j/pcp/a/fCjtdgfd5zR9bqXpQTs9fqm/" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">https://www.scielo.br/j/pcp/a/fCjtdgfd5zR9bqXpQTs9fqm/</span></a><span style="font-weight: 400;"> Acesso em: 13 mar. 2026.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">VALE, K. S. A </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Relação Conjugal em Debate: uma análise gestática. 2011. 96f. </span><b>Dissertação (Mestrado em Psicologia).</b><span style="font-weight: 400;"> Universidade Federal do Pará. 2011. Disponível em: </span><a href="https://repositorio.ufpa.br/server/api/core/bitstreams/09b97b44-26a9-4821-8e85-6234acb6aaf6/content" target="_blank" rel="noopener"><span style="font-weight: 400;">https://repositorio.ufpa.br/server/api/core/bitstreams/09b97b44-26a9-4821-8e85-6234acb6aaf6/content</span></a><span style="font-weight: 400;"> Acesso em 13 mar. 2026.</span></p>
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		<item>
		<title>Entre dois mundos: psicoterapia online para brasileiros no exterior</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2025/10/20/entre-dois-mundos-psicoterapia-online-brasileiros-exterior/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2025 17:49:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Caminhos para fortalecer sua identidade e sentido de pertencimento, onde quer que você esteja Por Márcio Melo Guimarães de Souza “É preciso partir, é preciso chegar. É preciso recomeçar.” — Cecília Meireles, em Canção (1939) Partir é sempre mais do que mudar de lugar. É atravessar mundos — externos e internos —, deixar para trás [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Caminhos para fortalecer sua identidade e sentido de pertencimento, onde quer que você esteja</em></p>
<p><strong>Por Márcio Melo Guimarães de Souza</strong></p>
<p>“É preciso partir, é preciso chegar.<br />
É preciso recomeçar.”</p>
<p>— Cecília Meireles, em Canção (1939)</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Partir é sempre mais do que mudar de lugar. É atravessar mundos — externos e internos —, deixar para trás o que era conhecido e, aos poucos, reinventar o próprio modo de existir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No consultório online, escuto muitas histórias de brasileiros que vivem essa travessia. Histórias de quem busca um novo começo, mas descobre que recomeçar também exige encontrar-se novamente.</span></p>
<h2>O início da psicoterapia online no Brasil</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Tenho experiência em atendimentos psicológicos online desde </span><b>2012</b><span style="font-weight: 400;">, quando o </span><b>Conselho Federal de Psicologia (CFP) </b><span style="font-weight: 400;">publicou a primeira resolução que autorizava o uso dessa modalidade para </span><b>aconselhamento e atendimentos breves</b><span style="font-weight: 400;"> (CFP, 2012). Naquele momento, a ideia de fazer terapia por vídeo ainda era vista com desconfiança.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitos se perguntavam se seria possível construir vínculo, sustentar o encontro e experimentar a presença do outro por meio de uma tela. Havia receio de que a tecnologia criasse distância, de que o contato humano fosse substituído por algo impessoal e frio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De lá para cá, muita coisa mudou — e não apenas do ponto de vista técnico. </span><b>O CFP ampliou a regulamentação em 2018</b><span style="font-weight: 400;">, permitindo que os atendimentos psicológicos completos pudessem ser realizados de forma online, desde que o profissional estivesse </span><b>cadastrado na plataforma e-Psi </b><span style="font-weight: 400;">e seguisse rigorosamente os princípios éticos da profissão (CFP, 2018).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante a pandemia de COVID-19, essa modalidade se tornou essencial. Para muitos pacientes, foi a única forma possível de continuar o processo terapêutico. Para outros, foi a porta de entrada para iniciar o cuidado emocional. Desde então, sigo atendendo pessoas de diversas regiões do Brasil e de diferentes países — </span><b>Europa, Estados Unidos, Austrália e América Latina.</b><span style="font-weight: 400;"> O que antes era visto como exceção tornou-se parte viva da clínica contemporânea.</span></p>
<h2>Entre a tela e o encontro: especificidades do atendimento online</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">A psicoterapia online exige uma atenção ética e técnica muito particular. O </span><b>sigilo</b><span style="font-weight: 400;"> e a </span><b>privacidade</b><span style="font-weight: 400;"> são pilares inegociáveis. O psicólogo precisa assegurar que as informações estejam protegidas, que o ambiente seja reservado e que o vínculo terapêutico se mantenha livre de interferências externas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fundamental que o paciente compreenda os limites e possibilidades desse formato: o que muda, o que permanece, o que precisa ser cuidado com ainda mais delicadeza.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><b>Código de Ética Profissional</b><span style="font-weight: 400;"> continua sendo o eixo que sustenta a prática. Ele nos lembra que toda atuação psicológica deve respeitar a </span><b>dignidade</b><span style="font-weight: 400;">, a </span><b>autonomia</b><span style="font-weight: 400;"> e a </span><b>singularidade</b><span style="font-weight: 400;"> da pessoa. No caso do atendimento online, isso inclui o cuidado com o </span><b>consentimento informado</b><span style="font-weight: 400;">, a </span><b>segurança digital</b><span style="font-weight: 400;"> e a </span><b>responsabilidade técnica</b><span style="font-weight: 400;"> de avaliar quando o atendimento à distância é ou não adequado (CFP, 2020).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas há um aspecto que as resoluções não conseguem capturar: a </span><b>presença</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em Gestalt-terapia, presença não é apenas estar fisicamente diante do outro, mas </span><b>disponibilizar-se ao encontro</b><span style="font-weight: 400;"> — estar inteiro na experiência, sensível às nuances do contato. A presença se manifesta no tom de voz, no silêncio compartilhado, no olhar atento, mesmo mediado pela tela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em tempos de dispersão, talvez o ambiente virtual exija ainda mais</span><b> intencionalidade de presença </b><span style="font-weight: 400;">do que o encontro presencial. Quando há autenticidade, a tecnologia não separa; ela apenas oferece outro meio para o diálogo humano.</span></p>
<h2>Brasileiros no exterior: entre o novo e o familiar</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">“Não sou brasileiro<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Não sou estrangeiro</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não sou de nenhum lugar<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Sou de lugar nenhum.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Titãs, “Lugar Nenhum” (1987)</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esses versos traduzem com simplicidade a sensação de quem vive entre fronteiras — físicas e simbólicas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos últimos anos, tenho acompanhado um número crescente de </span><b>brasileiros vivendo fora do país</b><span style="font-weight: 400;">. As motivações para mudar do Brasil são as mais diversas: paixões por pessoas de outra nacionalidade, oportunidades de trabalho, estágios acadêmicos, pós-graduações e até mesmo a tentativa de iniciar a vida do zero em outra realidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A migração, embora muitas vezes motivada pela esperança e pelo desejo de recomeço, mobiliza um campo emocional intenso: o entusiasmo diante da nova vida se mistura à solidão, à saudade e à sensação de não pertencer completamente a lugar algum.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse sentimento de desenraizamento surge porque o processo migratório envolve</span><b> rupturas sucessivas — culturais, linguísticas e afetivas </b><span style="font-weight: 400;">— que desafiam a continuidade da identidade e o modo como o sujeito se reconhece no mundo (Bhugra, 2004).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Adaptar-se a uma nova cultura é uma tarefa delicada. O migrante precisa encontrar um </span><b>equilíbrio entre integrar-se ao novo contexto e preservar suas origens</b><span style="font-weight: 400;">. Nesse movimento, muitos se esforçam para se ajustar, mas acabam pagando o preço de </span><b>silenciar partes de si</b><span style="font-weight: 400;"> — uma estratégia de sobrevivência que, aos poucos, pode gerar fragmentação e perda de autenticidade (Kuo, 2014).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre as dificuldades que observo nos pacientes que vivem fora do Brasil estão as </span><b>barreiras culturais e linguísticas</b><span style="font-weight: 400;">. Rotinas simples, tão bem integradas ao nosso cotidiano, acabam se tornando objeto de um novo aprendizado — de uma nova adaptação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A questão é que essas pequenas vivências, quando se acumulam, costumam gerar </span><b>cansaço, solidão e saudade da terra natal</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Somam-se a isso as </span><b>classificações étnicas e raciais </b><span style="font-weight: 400;">que não correspondem à forma como o sujeito se percebe — como ser identificado genericamente como “latino” ou “hispânico” —, o que intensifica o sentimento de deslocamento e dificulta a afirmação de uma identidade própria.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse sentimento é ampliado quando surge a experiência direta da </span><b>xenofobia</b><span style="font-weight: 400;">, que tem crescido em diferentes países e atinge de modo profundo o senso de dignidade e pertencimento de quem migra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como destacam estudos sobre o i</span><b>mpacto psicológico da migração </b><span style="font-weight: 400;">(OMS/IOM, 2023), essas experiências podem gerar vulnerabilidade, mas também abrir espaço para </span><b>resiliência e reconstrução</b><span style="font-weight: 400;">. Migrar é, de algum modo, reorganizar o self diante de um campo totalmente novo — um campo em que antigas referências se desfazem e novas formas de ser precisam nascer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na psicoterapia, esse processo encontra um </span><b>espaço de elaboração e reconexão</b><span style="font-weight: 400;">. A clínica pode se tornar o lugar onde o paciente volta a se ouvir em sua língua, revisita suas histórias e redescobre maneiras de habitar o mundo. Aos poucos, o estrangeiro que há em si encontra tradução e sentido. E o que antes parecia perda começa a se revelar também como possibilidade: a de </span><b>viver entre culturas sem perder a si mesmo</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<h2>Gestalt-terapia e a noção de campo: o mundo compartilhado</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Na </span><b>Gestalt-terapia</b><span style="font-weight: 400;">, compreendemos que o ser humano não existe isolado: ele se constitui no </span><b>campo relacional</b><span style="font-weight: 400;">. O self é um processo vivo de contato que se forma e se transforma na relação com o ambiente. Quando uma pessoa muda de país, o campo muda junto — novas linguagens, valores e modos de vida passam a compor a experiência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O migrante, portanto, não leva apenas sua história, mas também o modo como aprendeu a estar no mundo — e é esse modo que, diante de um novo campo, precisa se reorganizar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas vezes, o paciente se vê dividido entre o desejo de se adaptar e o medo de perder a própria singularidade. Um dos riscos desse movimento é a </span><b>confluência</b><span style="font-weight: 400;"> — quando o sujeito tenta se fundir ao meio para ser aceito, abrindo mão de aspectos fundamentais de sua identidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse ponto, o papel do terapeuta é sustentar o espaço de diferenciação e presença: ajudar o paciente a reconhecer o que nele é autêntico e o que surgiu apenas como forma de sobrevivência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É também por isso que o atendimento com um </span><b>terapeuta brasileiro</b><span style="font-weight: 400;"> pode fazer diferença.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não apenas porque a língua portuguesa permite expressar nuances afetivas e sutilezas emocionais, mas porque o terapeuta compartilha </span><b>referências culturais e simbólicas </b><span style="font-weight: 400;">que tornam o campo mais familiar e acolhedor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando o paciente fala, ele não precisa traduzir suas metáforas ou justificar seu jeito de sentir; há um </span><b>mundo compartilhado</b><span style="font-weight: 400;"> que permite ao terapeuta compreender gestos, expressões e silêncios que são próprios da cultura brasileira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do ponto de vista gestáltico, isso significa que o </span><b>campo terapêutico se torna mais orgânico e congruente</b><span style="font-weight: 400;">. A compreensão mútua não depende apenas da técnica, mas da sintonia entre as histórias e significados que ambos carregam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A terapia online, nesse contexto, é uma </span><b>ponte simbólica</b><span style="font-weight: 400;"> que reconecta o sujeito ao seu campo de origem, oferecendo um espaço de fala onde ele pode se ouvir novamente como quem pertence.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Quem sabe isso quer dizer amor,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">estrada de fazer o sonho acontecer.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Milton Nascimento e Lô Borges, “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” (1972)</span></p>
<h2>A clínica como lugar de reconexão</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um mundo cada vez mais globalizado, a psicoterapia online amplia as possibilidades de encontro. A tela, quando habitada com presença, pode se tornar um </span><b>espaço de enraizamento.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao poder falar em português, expressar-se sem censura linguística e ser compreendido por alguém que partilha a mesma matriz cultural, o paciente reencontra partes de si que estavam dispersas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O processo terapêutico, então, torna-se uma travessia: o </span><b>self</b><span style="font-weight: 400;"> se reorganiza, integrando o que muda e o que permanece. A experiência migratória deixa de ser apenas adaptação e passa a ser </span><b>criação de novas formas de pertencimento</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Atender brasileiros que vivem fora do país é, para mim, acompanhar esse movimento de reconstrução — o nascimento de um novo modo de ser que inclui todas as margens que a pessoa atravessou.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A psicoterapia online, nesse sentido, é mais do que uma ferramenta: é um </span><b>lugar de encontro entre mundos</b><span style="font-weight: 400;">, onde a subjetividade pode respirar entre línguas, geografias e identidades, sem precisar escolher uma delas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É a possibilidade de </span><b>mudar de território sem perder a si mesmo </b><span style="font-weight: 400;">— de continuar sendo quem se é, mesmo à distância.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Não sei… se a vida é curta<br />
</span><span style="font-weight: 400;">ou longa demais para nós,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">mas sei que nada<br />
</span><span style="font-weight: 400;">do que vivemos tem sentido,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">se não tocamos o coração das pessoas.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Cora Coralina, em “Cântico da Volta” (1969)</span></p>
<h2>Referências completas</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">BHUGRA, Dinesh. </span><i><span style="font-weight: 400;">Migration and Mental Health: A Review of the Literature.</span></i><span style="font-weight: 400;"> World Psychiatry, v. 3, n. 3, p. 168–175, 2004.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). </span><i><span style="font-weight: 400;">Resolução CFP nº 011/2012.</span></i><span style="font-weight: 400;"> Dispõe sobre a prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologias da informação e da comunicação. Brasília: CFP, 2012.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). </span><i><span style="font-weight: 400;">Resolução CFP nº 011/2018</span></i><span style="font-weight: 400;">. Regulamenta de forma ampliada os serviços psicológicos prestados por meios tecnológicos e institui o cadastro e-Psi. Brasília: CFP, 2018.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). </span><i><span style="font-weight: 400;">Resolução CFP nº 004/2020</span></i><span style="font-weight: 400;">. Dispõe sobre os atendimentos psicológicos online durante o período da pandemia de COVID-19. Brasília: CFP, 2020.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CIRINEU, L.; ASSAD, M.; BRAGA, M. “Estrangeiro nenhum se sente parte do país em que mora”: cotidiano de pessoas migradas e refugiadas no Brasil a partir de diálogos com a terapia ocupacional e os processos de corporeidade. </span><i><span style="font-weight: 400;">Cadernos de Terapia Ocupacional da UFSCar</span></i><span style="font-weight: 400;">, v. 33, n. 1, 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">KUO, Ben C. H. Coping, Acculturation, and Psychological Adaptation Among Migrants: A Theoretical and Empirical Review and Synthesis of the Literature. Frontiers in </span><i><span style="font-weight: 400;">Psychology</span></i><span style="font-weight: 400;">, v. 5, 2014.</span><span style="font-weight: 400;">WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO); INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR MIGRATION (IOM). </span><i><span style="font-weight: 400;">The Psychological Impact of Migration: Vulnerabilities and Resilience. </span></i><span style="font-weight: 400;">Geneva: WHO/IOM, 2023.</span></p>
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		<title>Violência contra as mulheres: do ato individual às estruturas sociais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Sep 2025 19:07:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Na mídia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Marcio Souza “A masculinidade hegemônica é uma prisão. Ela impede os homens de serem plenamente humanos.” JJ Bola Entre histórias pessoais e estruturas sociais Sempre que leio uma notícia sobre violência contra as mulheres, algo em mim se agita. Não consigo tratar como se fosse um episódio isolado. Lembro das mulheres que já escutei em [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Marcio Souza</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“A masculinidade hegemônica é uma prisão. Ela impede os homens de serem plenamente humanos.” JJ Bola</span></i></p>
<h3><b>Entre histórias pessoais e estruturas sociais</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Sempre que leio uma notícia sobre violência contra as mulheres, algo em mim se agita. Não consigo tratar como se fosse um episódio isolado. Lembro das mulheres que já escutei em consultório, muitas vezes trazendo não apenas as marcas visíveis da agressão, mas também as invisíveis: vergonha, medo de não serem acreditadas, dúvidas sobre o próprio valor. Também escuto homens que se sentem perdidos, por não se reconhecerem nesse modelo de masculinidade que agride e controla as mulheres, e que muitas vezes sofrem por não encontrar referências para viver outras formas de ser homem. Outros chegam sem saber como expressar sentimentos — como se emoções não lhes fossem permitidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É nesse terreno que a violência de gênero se sustenta. Ela não nasce do nada. Está entranhada em discursos, expectativas e práticas cotidianas: na piada machista que circula entre amigos, na cobrança de que as mulheres deem conta de tudo, na desvalorização do trabalho doméstico, no desprezo pelas emoções masculinas e no valor atribuído ao silêncio feminino. Se não enxergamos isso, corremos o risco de reduzir um problema estrutural a casos pontuais.</span></p>
<h3><b>Como o masculino se tornou medida de tudo</b></h3>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“A força da ordem masculina se evidencia no fato de que ela dispensa justificação: a visão androcêntrica impõe-se como neutra.” Pierre Bourdieu</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pierre Bourdieu nos ajuda a compreender esse processo ao analisar o </span><b>poder do masculino</b><span style="font-weight: 400;">. Ele mostra como a dominação se mantém justamente porque se apresenta como natural. O masculino se coloca como medida universal — razão, neutralidade, objetividade — enquanto o feminino é relegado ao campo do particular, do emocional, do secundário.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse contexto, atua a </span><b>violência simbólica</b><span style="font-weight: 400;">: formas de dominação que não precisam de coerção física para se impor, porque já estão inscritas nas estruturas sociais e incorporadas subjetivamente. É ela que faz com que desigualdades pareçam “óbvias” ou “inevitáveis”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A violência simbólica se manifesta em diferentes esferas:</span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">No </span><b>mundo do trabalho</b><span style="font-weight: 400;">, onde mulheres ainda recebem salários menores, têm menor representatividade em cargos de liderança e enfrentam barreiras para ascender em carreiras tradicionalmente masculinas.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Na </span><b>divisão de tarefas domésticas</b><span style="font-weight: 400;">, em que, mesmo trabalhando fora, são majoritariamente responsáveis pelo cuidado da casa e dos filhos.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Nas </span><b>cobranças estéticas</b><span style="font-weight: 400;">, que aprisionam corpos femininos em padrões de juventude, magreza e beleza, reforçando a sensação constante de inadequação.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">No </span><b>julgamento moral,</b><span style="font-weight: 400;"> quando a responsabilidade pela violência sofrida recai sobre a própria mulher, questionada por suas roupas, seus horários ou suas escolhas.</span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">Essas práticas corroem cotidianamente a autonomia feminina, criam dependência e reforçam posições de inferioridade. E é nesse terreno, já fragilizado, que a violência física encontra condições de acontecer e ser legitimada.</span></p>
<h3><b>O amor como prisão simbólica</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Valeska Zanello amplia essa análise ao propor a metáfora da </span><b>“prateleira do amor”</b><span style="font-weight: 400;">. Na cultura ocidental, ensina-se às mulheres que seu valor está diretamente ligado à vida afetiva, especialmente ao amor romântico. Para os homens, o destino é o poder; para as mulheres, o amor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse desequilíbrio gera uma vulnerabilidade estrutural. Se para os homens a identidade social se afirma pelo prestígio, pela carreira ou pela virilidade, para muitas mulheres ela se constrói em torno de ser escolhida, desejada ou reconhecida em uma relação amorosa. O rompimento de um vínculo, nesse contexto, pode ser vivido não apenas como perda afetiva, mas como ameaça à própria identidade social.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa lógica produz uma armadilha: mulheres tendem a permanecer em relações abusivas porque perder o amor significa, de algum modo, perder a si mesmas. A “pateleira do amor” sustenta, assim, relações de dependência, legitima práticas de controle e contribui para a reprodução de violências.</span></p>
<h3><b>Misoginia digital: novas roupagens do velho patriarcado</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">O avanço das mulheres em direção à igualdade de direitos representa um marco civilizatório, mas também tem gerado reações hostis. Como mostra relatório da </span><b>Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres</b><span style="font-weight: 400;"> sobre misoginia no YouTube, cresce em ambientes digitais um conjunto de grupos que propagam discursos de ódio e tentam resgatar uma masculinidade primitiva, baseada no domínio e na força.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Comunidades como os </span><b>masculinistas</b><span style="font-weight: 400;">, os adeptos da </span><b>red pill</b><span style="font-weight: 400;"> e fóruns de “direitos dos homens” difundem a ideia de que o feminismo teria enfraquecido os homens, ameaçado a família e destruído valores tradicionais. Sob essa lógica, a violência contra as mulheres deixa de ser um desvio e passa a ser apresentada como uma reação legítima de defesa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse fenômeno mostra como o ambiente online se tornou um campo privilegiado para a produção e circulação de discursos misóginos. A internet, que poderia ser espaço de democratização e diálogo, também se transformou em terreno fértil para a radicalização de uma masculinidade ressentida.</span></p>
<h3><b>Broderagem: cumplicidade que legitima</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A masculinidade hegemônica não apenas produz violências, mas também constrói mecanismos para invisibilizá-las. A violência simbólica, como vimos com Bourdieu, transforma desigualdades em senso comum, fazendo com que agressões físicas ou verbais sejam relativizadas, banalizadas ou simplesmente ignoradas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Valeska Zanello chama atenção para outro elemento: a </span><b>broderagem</b><span style="font-weight: 400;">, isto é, a cumplicidade entre homens na manutenção de privilégios. Essa cumplicidade se expressa nas piadas machistas aceitas entre amigos, no silêncio diante de atitudes abusivas, na banalização do assédio ou na deslegitimação sistemática das denúncias das mulheres.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Violência simbólica e broderagem formam, assim, um circuito: enquanto uma naturaliza a desigualdade, a outra garante solidariedade masculina para protegê-la. O resultado é um ambiente social em que a violência contra as mulheres perde visibilidade e gravidade, ao mesmo tempo em que se potencializa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse pacto silencioso ajuda a explicar por que tantas mulheres têm dificuldade em denunciar e por que tantas vezes seus relatos são desacreditados. A masculinidade hegemônica se sustenta não apenas pelo exercício direto da violência, mas também pela capacidade de torná-la invisível ou aceitável.</span></p>
<h3><b>O desafio do engajamento masculino</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Não basta esperar que as mulheres resistam sozinhas. É urgente que os homens assumam a responsabilidade de refletir sobre o que significa “ser homem” e de se engajar ativamente na transformação das masculinidades.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O escritor e ativista </span><b>JJ Bola</b><span style="font-weight: 400;">, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Seja homem: a masculinidade desmascarada</span></i><span style="font-weight: 400;">, mostra que essa mudança não pode se restringir a ajustes superficiais. É preciso retirar a máscara da masculinidade hegemônica — construída como fachada de força, controle e silêncio — e reaprender outras formas de existir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bola aponta alguns caminhos fundamentais:</span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b>Desconstruir os mitos</b><span style="font-weight: 400;"> que moldam o senso comum sobre o que é “ser homem”: a crença de que homens não choram, de que precisam sempre demonstrar força ou de que seu valor está na virilidade.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b>Reconhecer e expressar vulnerabilidades</b><span style="font-weight: 400;">, reivindicando afeto entre homens e partilhando sentimentos, medos e ansiedades como forma de ampliar o campo de humanidade masculina.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b>Reeducar a relação com o amor, o sexo e o consentimento</b><span style="font-weight: 400;">, rompendo com a lógica da posse, com as pressões performativas e com padrões violentos ensinados desde cedo.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b>Atuar como aliados do feminismo</b><span style="font-weight: 400;">, reconhecendo privilégios, assumindo responsabilidades no cotidiano e engajando outros homens nesse processo.</span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">Esses passos revelam que não se trata apenas de escolhas individuais. É necessário um </span><b>esforço coletivo</b><span style="font-weight: 400;"> — cultural, institucional e comunitário — para que os homens se sintam convocados a se posicionar. Isso significa deslocar o foco da punição isolada para a criação de </span><b>ambientes que pressionem e incentivem os homens, enquanto grupo, a romperem a lógica da broderagem </b><span style="font-weight: 400;">e a se responsabilizarem mutuamente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cada espaço coletivo — escolas, universidades, locais de trabalho, rodas de amigos, famílias — deve assumir a tarefa de interromper o silêncio cúmplice e estimular novas práticas de masculinidade. Só assim será possível transformar a corresponsabilidade em compromisso real com a não violência.</span></p>
<h3><b>Amor ético: cuidado e liberdade</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">“Amar verdadeiramente é um ato de liberdade, e não de posse.” bell hooks</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">bell hooks, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Tudo sobre o amor</span></i><span style="font-weight: 400;">, nos lembra que o amor não pode ser reduzido a um sentimento privado. Amar é uma prática ética que exige cuidado, respeito e responsabilidade mútua. Isso implica que os homens precisam aprender a se relacionar não a partir do controle ou da posse, mas da reciprocidade e da liberdade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando o amor é compreendido dessa forma, ele se torna um recurso de transformação das próprias bases da masculinidade hegemônica. Ao abrir espaço para vulnerabilidade e reconhecimento mútuo, o amor se opõe diretamente à lógica da violência e do poder.</span></p>
<h3><b>Por onde começar a mudança</b></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Enfrentar a violência contra as mulheres exige múltiplos movimentos articulados. Tenho visto, no consultório, como esse problema atravessa vidas de forma dolorosa. Muitas mulheres chegam carregando violências simbólicas e físicas, mas responsabilizando a si mesmas. E, quando enfim criam coragem para falar com alguém, recebem respostas que as desacreditam: conselhos de como “contornar os humores” de seus companheiros, como se fosse delas a tarefa de evitar a agressão. Esse silenciamento reforça a lógica perversa da desigualdade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Também atendo homens que, em um primeiro momento, não conseguem sequer identificar seus próprios sentimentos. Muitos não desejam machucar suas parceiras, mas, à medida que conversamos, percebem que os mecanismos de violência — sejam eles de controle, de desprezo ou de invisibilização — estão entranhados em suas identidades. Reconhecer que são eles próprios os causadores do sofrimento vivido é, para muitos, um choque difícil, mas também o início de um processo de responsabilização e mudança.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É a partir dessas experiências que percebo como a transformação precisa ser coletiva:</span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b>Políticas públicas e responsabilização penal,</b><span style="font-weight: 400;"> para conter a violência física e proteger as vítimas.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b>Educação e debate cultural</b><span style="font-weight: 400;">, para desnaturalizar a violência simbólica e expor seus mecanismos sutis.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b>Espaços de reflexão masculina</b><span style="font-weight: 400;">, que favoreçam a ressignificação das masculinidades e o questionamento dos mitos que as sustentam.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b>Práticas éticas do amor</b><span style="font-weight: 400;">, como lembra bell hooks, para transformar os vínculos em relações de cuidado e liberdade.</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><b>Corresponsabilização dos homens em cada espaço coletivo,</b><span style="font-weight: 400;"> de modo que a mudança não recaia apenas sobre as mulheres ou sobre agressores isolados, mas se torne um processo de engajamento masculino contínuo e compartilhado.</span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse último ponto é crucial. Romper a lógica da </span><b>broderagem</b><span style="font-weight: 400;"> implica que nós, homens, deixemos de ser cúmplices silenciosos e passemos a atuar como aliados ativos, pressionando uns aos outros a repensar comportamentos, reconhecer privilégios e assumir responsabilidades. A transformação, portanto, não virá apenas de leis ou de políticas públicas, mas de um </span><b>esforço cultural e institucional</b><span style="font-weight: 400;"> que convoque os homens, como grupo, a se posicionarem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais do que respostas imediatas, trata-se de repensar os alicerces das nossas relações.</span><b> A violência contra as mulheres é um problema coletivo — e eu vejo seus efeitos todos os dias em minha escuta clínica. Só será superada quando deixarmos de normalizar a violência simbólica e passarmos a cultivar relações éticas de amor, cuidado e liberdade.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“O amor é um ato de vontade — a escolha de nos comprometermos com a liberdade de nós mesmos e dos outros.” bell hooks</span></p>
<h4><b>Referências</b></h4>
<p><span style="font-weight: 400;">BOURDIEU, Pierre. </span><i><span style="font-weight: 400;">A dominação masculina</span></i><span style="font-weight: 400;">. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2019.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">ZANELLO, Valeska.</span><i><span style="font-weight: 400;"> “A prateleira do amor”</span></i><span style="font-weight: 400;">. In:</span><b> Papo de Homem</b><span style="font-weight: 400;">. Pesquisadoras que você deveria conhecer #3. Disponível em: https://papodehomem.com.br/valeska-zanello-pesquisadoras-que-voce-deveria-conhecer-3/</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">. Acesso em: 06 set. 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">BOLA, JJ. </span><i><span style="font-weight: 400;">Seja homem: a masculinidade desmascarada.</span></i><span style="font-weight: 400;"> São Paulo: Planeta do Brasil, 2021.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">HOOKS, bell. </span><i><span style="font-weight: 400;">Tudo sobre o amor: novas perspectivas</span></i><span style="font-weight: 400;">. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2021.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">BRASIL. Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres. </span><i><span style="font-weight: 400;">Relatório completo: Estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube. </span></i><span style="font-weight: 400;">Brasília: Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/publicacoes/RelatrioCompletoEstratgiasdiscursivasemonetizaodamisoginianoYouTube.pdf . Acesso em: 06 set. 2025.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<item>
		<title>Amar também é coisa de homem: diálogos entre bell hooks e a Gestalt-terapia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Jul 2025 13:33:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Márcio Souza Cada vez mais, homens chegam ao meu consultório trazendo dúvidas, angústias, dores que, muitas vezes, nem sabem nomear. Chegam com dificuldades em lidar com seus afetos, nos relacionamentos, solidão — e, muitas vezes, com uma sensação estranha de estarem desconectados de si mesmos. Alguns sabem exatamente o que sentem, mas não encontram espaço [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b>Márcio Souza</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cada vez mais, homens chegam ao meu consultório trazendo dúvidas, angústias, dores que, muitas vezes, nem sabem nomear. Chegam com dificuldades em lidar com seus afetos, nos relacionamentos, solidão — e, muitas vezes, com uma sensação estranha de estarem desconectados de si mesmos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alguns sabem exatamente o que sentem, mas não encontram espaço onde possam expressar isso sem medo. Outros nem sabem mais o que sentem, como se, em algum momento da vida, tivessem sido obrigados a desligar essa parte de si.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitos carregam marcas profundas de uma história que os ensinou que </span><b>ser homem é não sentir. Que demonstrar afeto, pedir colo, dizer “eu te amo” ou simplesmente chorar é sinônimo de fraqueza, de fracasso, de vergonha.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, diante disso, uma pergunta, às vezes silenciosa, atravessa o processo terapêutico de muitos homens:</span></p>
<p>É possível amar sendo homem? É possível amar sem abrir mão de si?</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escritora e pensadora bell hooks, em seu livro Tudo sobre o Amor, nos lembra que essa não é uma pergunta simples — afinal, sequer sabemos direito o que é amor. Vivemos em uma cultura que fala muito sobre amor, mas pouco sabe defini-lo. E isso gera confusão, frustração e sofrimento. hooks propõe que amor não é apenas um sentimento, nem algo que surge espontaneamente. </span><b>Amor é ação, é prática, é um compromisso ético com o cuidado, com o respeito, com a responsabilidade e com o crescimento — próprio e do outro.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa visão dialoga profundamente com os princípios da </span><b>Gestalt-terapia</b><span style="font-weight: 400;">, que entende o amor como algo que acontece no encontro genuíno — quando duas pessoas estão dispostas a se perceber, se acolher e se afetar, cada uma sustentando sua própria inteireza. O amor, na Gestalt, é uma atitude de presença, de abertura e de disponibilidade para o outro, sem precisar controlar, consertar ou dominar.</span></p>
<h4>O amor como prática de cuidado e presença</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Gestalt-terapia, o amor é visto como uma experiência que se dá no contato verdadeiro. Ele não surge de discursos, nem de expectativas idealizadas, </span><b>mas do encontro entre duas pessoas que se permitem estar presentes uma para a outra.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Amar, nesse sentido, é poder olhar para o outro e dizer, de forma implícita: </span><b>“Eu te vejo. E te aceito como você é, com seus medos, suas dores, suas potências.”</b><span style="font-weight: 400;"> Isso exige autenticidade, coragem e compromisso — tanto na vida quanto na relação terapêutica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na psicoterapia com homens, presencio como essa visão é profundamente transformadora. Porque muitos deles aprenderam que amar é se submeter, é perder poder, é se fragilizar. E, aos poucos, vão percebendo que, na verdade, </span><b>amar é um gesto de força e de presença. É escolher se implicar na própria vida e nas próprias relações.</b></p>
<h4>Rompendo com o silêncio afetivo</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante gerações, a masculinidade foi construída sobre um silêncio afetivo. Nós homens, somos ensinados desde meninos que não podemos demonstrar tristeza, medo ou vulnerabilidade. Aprendemos a vestir a armadura da racionalidade, da força, do controle.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Só que essa armadura tem um preço: o preço do afastamento de nós e dos outros. Do isolamento. Da solidão emocional. No consultório, esse distanciamento aparece de muitas formas: dificuldade em nomear sentimentos, corpos tensos, desconexão com as próprias necessidades emocionais, dificuldade em se deixar cuidar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Gestalt-terapia, trabalhamos com o conceito de awareness — a capacidade de estar consciente da própria experiência no momento presente. É através desse despertar da consciência que começamos a perceber o que sentimos, o que precisamos, o que nos faz falta. E é justamente essa ampliação da awareness que nos permite retomar o contato com partes de nós mesmos que estavam adormecidas, esquecidas ou reprimidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sentir não é fraqueza. Sentir é o caminho para se tornar inteiro.</span></p>
<p><b>Sentir</b><span style="font-weight: 400;">, na verdade, </span><b>não nos fragiliza — nos humaniza</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<h4>Patriarcado: o modelo que também aprisiona os homens</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">bell hooks nos lembra que o patriarcado, embora se sustente historicamente em estruturas de poder, </span><b>também nos adoece</b><span style="font-weight: 400;">. Isso porque, ao impor um modelo de masculinidade baseado na dominação, na invulnerabilidade e na supressão dos afetos, o patriarcado desumaniza. Cobra que sejamos fortes o tempo todo, que não sintamos, que não precisemos, que não amemos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Gestalt-terapia contribui para desarmar esse modelo. No processo terapêutico, somos convidados a olhar para os padrões que fomos obrigados a internalizar — muitos deles inconscientes — e a perguntar: </span><b>“Isso realmente me serve? Isso me faz viver de forma mais inteira, mais verdadeira?”</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como afirmam Rodrigues e Rangel (2017), </span><b>“amar é uma atitude ética e estética, um modo de se responsabilizar pelo que se gera no campo relacional, sustentando a tensão entre aceitar o outro como ele é e, ao mesmo tempo, estar disponível para ser afetado e transformado pelo encontro”</b><span style="font-weight: 400;"> (p. 6).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na relação terapêutica, é possível experimentar uma nova forma de se relacionar — sem precisar dominar, controlar ou se omitir. Pode simplesmente </span><b>estar. Se vincular. Cuidar. E ser cuidado.</b></p>
<h4>Amor como expressão da autenticidade</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Gestalt, ser autêntico é ser capaz de se colocar no mundo com verdade. Sem máscaras. Sem papéis rigidamente impostos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quantos homens passaram a vida inteira tentando sustentar o personagem do invulnerável? Do que nunca erra, nunca sente, nunca precisa? E, nesse esforço, quantos se afastaram de si mesmos?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Amar, como lembra bell hooks, exige coragem para ser honesto consigo e com o outro. E essa honestidade só se torna possível quando podemos, de fato, </span><b>nos encontrar conosco — com nossos desejos, nossos limites, nossos medos e nossas potências</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A terapia se torna, então, esse lugar onde é possível treinar o músculo da autenticidade. E, consequentemente, do amor.</span></p>
<h4>Amor-próprio: a base para qualquer vínculo</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Nós homens aprendemos a medir nosso valor por aquilo que fazemos, produzimos ou conquistamos. A lógica do desempenho ocupa o lugar do amor-próprio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, na perspectiva gestáltica, isso não se sustenta. O que sustenta é a capacidade de nos reconhecermos como legítimos. De nos acolhermos com nossas potências, sim, mas também com nossos vazios, dores e contradições.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É no processo terapêutico que muitos homens vão, pela primeira vez,</span><b> experimentar uma forma de olhar para si que não seja atravessada pela cobrança, pelo julgamento ou pela autossuficiência forçada.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É um processo de reaprendizado: </span><b>como é se amar? Como é se cuidar? Como é ser gentil consigo?</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, quando esse amor-próprio começa a se fortalecer, os vínculos também mudam. Porque já não se ama mais a partir da carência, da dependência ou da performance, mas sim a partir da inteireza.</span></p>
<h4>Amar de um jeito novo</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Terapia também é um lugar de </span><b>aprender novas possibilidades de lidar e significar nossos afetos</b><span style="font-weight: 400;">. Construindo recursos para relações mais genuínas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">bell hooks nos lembra que amar é algo que se aprende. E os textos da Gestalt reforçam isso, mostrando que o amor nasce no contato, na escuta, na aceitação do outro e de si mesmo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na relação terapêutica, o homem tem a oportunidade de viver uma experiência onde ele não precisa provar nada, nem fingir ser quem não é.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ali, ele pode experimentar que é possível ser amado </span><b>sem precisar abrir mão de si</b><span style="font-weight: 400;">. E que, sim, </span><b>amar também é coisa de homem</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">REFERÊNCIAS:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Almeida, T. R. D., &amp; Lima, D. M. A. (2023). O amor e as relações amorosas em Gestalt-terapia. IGT Na Rede 20(38). Disponível em &lt;https://igt.psc.br/ojs3/index.php/IGTnaRede/article/view/555/1197&gt;. acessos em  18  jun.  2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Editora Elefante, 2021</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">LEAL, Stela Regina Pinheiro Correa. Conjugalidade e amor: um olhar da Gestalt &#8211; Terapia na prática clínica. IGT rede,  Rio de Janeiro ,  v. 14, n. 26, p. 51-71,    2017 .   Disponível em &lt;http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1807-25262017000100004&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. acessos em  18  jun.  2025.</span></p>
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		<title>Aconselhamento Psicológico por Inteligência Artificial: Reflexões Éticas e Riscos Potenciais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Jun 2025 20:48:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo surgiu como resposta a um amigo que gosta de me mandar várias notícias sobre como as pessoas têm buscado a IA como forma de suporte emocional e, também, a partir de reflexões sobre relatos de pacientes que relataram ter usado a IA como uma forma de oráculo para tentar responder a questões existenciais [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Este artigo surgiu como resposta a um amigo que gosta de me mandar várias notícias sobre como as pessoas têm buscado a IA como forma de suporte emocional e, também, a partir de reflexões sobre relatos de pacientes que relataram ter usado a IA como uma forma de oráculo para tentar responder a questões existenciais presentes em suas vidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos últimos anos, a Inteligência Artificial (IA) tem sido incorporada em diversas áreas, incluindo a saúde mental. Embora a tecnologia possa oferecer recursos inovadores para o desenvolvimento de novas tecnologias para contextos empresariais e para pesquisas de diversas áreas, é fundamental refletir sobre os limites éticos e profissionais do seu uso, especialmente no aconselhamento psicológico.</span></p>
<h3>O Estudo do MIT e o Uso Emocional de Chatbots</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Um estudo recente do MIT Media Lab analisou os efeitos psicossociais do uso de chatbots em interações prolongadas. Os resultados sugerem que, embora alguns usuários relatem benefícios subjetivos como redução do estresse ou sensação de companhia, esses efeitos dependem fortemente da forma como a pessoa se engaja com o chatbot. Quando há uma tendência a antropomorfizar a IA — ou seja, tratá-la como se tivesse intenções humanas — os riscos aumentam, incluindo a formação de expectativas irreais sobre o que a tecnologia pode oferecer. Isso reforça a necessidade de compreendermos não apenas o que a IA faz, mas como os usuários projetam nela suas carências emocionais e desejos de conexão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo alerta que o uso emocional da IA, em vez de ser neutro, pode moldar significativamente a experiência subjetiva do usuário, com implicações tanto positivas quanto negativas. Essa constatação exige um olhar crítico sobre o lugar que os chatbots estão ocupando na vida de pessoas em sofrimento emocional.</span></p>
<h3>A Importância do Vínculo Humano na Psicologia</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">O processo terapêutico é construído a partir da relação entre o profissional e o cliente. Essa interação permite a compreensão profunda das experiências, emoções e contextos individuais. A IA, por mais avançada que seja, não possui consciência, empatia genuína ou a capacidade de estabelecer vínculos afetivos reais. Substituir o contato humano por interações com algoritmos compromete a qualidade do suporte por não conter aquilo que é mais essencial em nosso desenvolvimento: o vínculo com outros seres humanos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo do MIT mostra que, mesmo quando usuários sentem-se “ouvidos” por um chatbot, esse sentimento pode estar mais relacionado à projeção do que à realidade da interação. O risco é que, ao se engajar com um sistema que simula compreensão, a pessoa retarde a busca por ajuda profissional ou confunda respostas automatizadas com acolhimento real.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<h3>Responsabilidade Ética e Profissional</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Psicólogos são regidos por códigos de ética e supervisionados por conselhos profissionais, como o Conselho Federal de Psicologia (CFP). Essas diretrizes garantem a qualidade e a segurança dos atendimentos. A IA, por outro lado, não está sujeita a essas regulamentações, o que levanta preocupações sobre a responsabilidade em casos de orientações inadequadas ou prejudiciais.</span></p>
<h3>Privacidade e Confidencialidade dos Dados</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">O sigilo é um pilar fundamental na prática psicológica. Ao utilizar plataformas de IA, há riscos relacionados à coleta, armazenamento e uso indevido de informações pessoais e sensíveis. Sem regulamentações claras, os dados dos usuários podem ser expostos ou utilizados de maneira inadequada, comprometendo a confidencialidade.</span></p>
<h3>Para Quem Busca Ajuda: Quais São os Riscos Reais?</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas pessoas recorrem à IA em momentos de sofrimento emocional, solidão ou crise, na esperança de encontrar consolo ou orientação. No entanto, esse tipo de “aconselhamento” pode oferecer respostas genéricas, sem contexto clínico, e reforçar padrões de pensamento disfuncionais. Além disso, a falsa sensação de estar sendo compreendido pode retardar ou até impedir a busca por um profissional de verdade. O risco não está apenas na resposta inadequada, mas no afastamento progressivo do cuidado humano e ético.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo do MIT também destaca que o impacto de longo prazo do uso frequente de chatbots para suporte emocional ainda é incerto. O que hoje parece aliviar, amanhã pode alienar. A dependência de respostas automatizadas pode contribuir para uma redução da capacidade de autorreflexão profunda e para o empobrecimento dos vínculos interpessoais reais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A complexidade da experiência humana não pode ser reduzida a códigos ou algoritmos. A IA, por mais sofisticada que seja, opera dentro dos limites do que foi programada para fazer. Ela não vive, não sente, não sofre — apenas executa comandos baseados em padrões. Por isso, é incapaz de compreender os dilemas profundos que envolvem escolhas morais, crises existenciais e os paradoxos da vida. Apenas um ser humano, com sua bagagem de vivências, sensibilidade e consciência, é capaz de acolher a infinidade de possibilidades que constituem a existência humana. Confiar a uma máquina decisões que exigem escuta profunda, reflexão ética e presença real é não reconhecer o valor inestimável da condição humana no processo de cuidado.</span></p>
<h3>A Comunicação Não Verbal: Um Elemento Essencial na Psicoterapia</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A comunicação não verbal é um componente crucial na prática psicoterapêutica. Expressões faciais, postura corporal, movimentos oculares e padrões respiratórios fornecem ao terapeuta informações valiosas sobre o estado emocional do paciente. Esses sinais sutis, muitas vezes inconscientes, ajudam a construir uma compreensão mais profunda das experiências e sentimentos do indivíduo. A IA, limitada à análise de texto ou voz, não possui a capacidade de captar essas nuances, o que compromete a eficácia do atendimento terapêutico. A ausência dessa percepção pode resultar em interpretações superficiais, deixando de lado aspectos fundamentais do processo terapêutico.</span></p>
<h3>A Necessidade de Regulamentação Específica</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante dos avanços tecnológicos, é imprescindível que haja regulamentações específicas que orientem o uso da IA na saúde mental. Essas normas devem assegurar que qualquer ferramenta tecnológica utilizada respeite os princípios éticos da psicologia e não substitua o atendimento realizado por profissionais qualificados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP) expressou recentemente sua posição sobre o uso da inteligência artificial no contexto do aconselhamento psicológico. Em publicação oficial, o CRP-SP enfatizou a importância de que a aplicação de tecnologias de IA na Psicologia seja pautada por critérios éticos, técnicos e científicos. O Conselho reafirmou seu compromisso com a dignidade humana e a escuta qualificada, destacando que a prática psicológica deve sempre priorizar o bem-estar e os direitos dos indivíduos atendidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O CRP-SP alertou para os riscos de se substituir o contato humano por interações com algoritmos, ressaltando que a IA, por mais avançada que seja, não possui consciência, empatia genuína ou a capacidade de estabelecer vínculos afetivos reais. Dessa forma, o Conselho reforça que o uso de IA na Psicologia deve ser cuidadosamente avaliado, garantindo que não comprometa a qualidade e a ética do atendimento psicológico.</span></p>
<h3>Conclusão</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A Inteligência Artificial tem um papel relevante no avanço de diversas áreas, especialmente naquelas que dependem da automação, do processamento de grandes volumes de dados ou da precisão tecnológica. Seu uso deve ser incentivado nesses contextos, onde de fato pode gerar inovação e eficiência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, quando se trata de psicoterapia, é necessário reconhecer que as tecnologias que realmente contribuem para o cuidado são aquelas que fortalecem a escuta, o vínculo e as múltiplas formas de intervenção clínica que o psicólogo desenvolve com base em sua formação, responsabilidade ética e sensibilidade profissional. A prática terapêutica não pode ser automatizada sem comprometer sua essência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário da IA, o psicólogo é capaz de compreender as nuances da subjetividade humana e oferecer um cuidado que leva em conta a complexidade das experiências, dos contextos e dos dilemas individuais. Por isso, a atuação clínica deve permanecer como uma atividade conduzida por pessoas, com o suporte de tecnologias quando apropriado — mas sem que isso signifique substituir a relação terapêutica.</span></p>
<h5><b>referência: </b><a href="https://www-media-mit-edu.translate.goog/publications/how-ai-and-human-behaviors-shape-psychosocial-effects-of-chatbot-use-a-longitudinal-controlled-study/?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt&amp;_x_tr_pto=tc"><span style="font-weight: 400;">https://www-media-mit-edu.translate.goog/publications/how-ai-and-human-behaviors-shape-psychosocial-effects-of-chatbot-use-a-longitudinal-controlled-study/?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt&amp;_x_tr_pto=tc</span></a><span style="font-weight: 400;"> </span></h5>
<h5><a href="https://www.instagram.com/p/DKFt44YRSvk/?igsh=ejRubmoxMWZocnNy"><span style="font-weight: 400;">https://www.instagram.com/p/DKFt44YRSvk/?igsh=ejRubmoxMWZocnNy</span></a><span style="font-weight: 400;"> </span></h5>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2025/06/11/aconselhamento-psicologico-por-inteligencia-artificial-reflexoes-eticas-e-riscos-potenciais/">Aconselhamento Psicológico por Inteligência Artificial: Reflexões Éticas e Riscos Potenciais</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Psicoterapia no masculino: para além do gênero, a subjetividade como ponto de partida</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2023/12/13/psicoterapia-no-masculino-para-alem-do-genero-a-subjetividade-como-ponto-de-partida/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Dec 2023 19:30:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em meu último artigo por aqui, abordei algumas barreiras iniciais enfrentadas por homens que buscam pela psicoterapia, dentre elas: a dificuldade de falar de si, o olhar utilitarista sobre a psicoterapia e o medo de que a psicoterapia vá mudar sua essência. Para quem não leu, fica o convite para visitar o texto anterior.  Neste [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2023/12/13/psicoterapia-no-masculino-para-alem-do-genero-a-subjetividade-como-ponto-de-partida/">Psicoterapia no masculino: para além do gênero, a subjetividade como ponto de partida</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Em meu último artigo por aqui, abordei algumas barreiras iniciais enfrentadas por homens que buscam pela psicoterapia, dentre elas: a dificuldade de falar de si, o olhar utilitarista sobre a psicoterapia e o medo de que a psicoterapia vá mudar sua essência. Para quem não leu, fica o convite para visitar o texto anterior. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste texto, pretendo abordar alguns movimentos comuns esperados para aqueles homens que já venceram a barreira inicial de procurar a psicoterapia e encontram-se engajados em seus processos psicoterápicos. A inspiração para este texto vem de uma articulação entre minha experiência clínica e um capítulo de Carl Rogers chamado &#8220;Ser o que realmente se é: os objetivos pessoais vistos por um terapeuta&#8221;, de seu livro, &#8220;Tornar-se Pessoa&#8221;. Vamos lá?</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"><br />
Por detrás das fachadas</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
Para começar nossa conversa, não há outro modo, precisamos remontar ao início, à infância. Desde pequenos, nós, homens, somos ensinados a como devemos nos portar: não podemos demonstrar fraqueza, não podemos levar desaforos para casa, temos que sair &#8220;por cima&#8221; de qualquer desafio. Somos criados como se estivéssemos sendo preparados para uma guerra. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, não é à toa que o tema da masculinidade seja carregado de tantos estigmas. Como pessoas do sexo masculino, precisamos atender às expectativas sociais para que possamos ser considerados suficientemente homens.</p>
<p></span><span style="font-weight: 400;">O desfecho disso é que nos afastamos de nossas próprias necessidades e construímos fachadas que usamos para esconder aquilo que realmente sentimos e pensamos. Na maioria das vezes, esse processo é tão severo que simplesmente perdemos contato com essa dimensão mais íntima de nossos sentimentos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, por meio da psicoterapia e como resultado do processo terapêutico, os pacientes começam a perceber como estas fachadas oprimem e, então, começam a sentir necessidade de se afastar delas. Ao invés de buscar segurança nas obrigações do homem moldado pela tradição cultural, eles começam a buscar a própria compreensão de seus valores, de seus relacionamentos e passam a localizar sua vivência da masculinidade em sua própria vivência, de forma singular e íntima.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"><br />
Para além do que os outros esperam</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
Em seu texto, Rogers menciona as fachadas e, na minha compreensão, essas fachadas comportam uma grande quantidade de expectativas presentes na sociedade a respeito dos diferentes papéis sociais. No caso dos homens, há o imperativo socialmente imposto de se afastar de qualquer característica que seja considerada como feminina. Dialogar, entrar em contato com seus sentimentos e, eventualmente, conversar com alguém sobre eles é tido como sinal de fraqueza.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, existem expectativas sobre o ideal de masculinidade impostos histórica e culturalmente. O homem precisa ser forte, conter suas emoções, não ceder diante de pressões, ser conquistador, ser o provedor para sua família. Estas são apenas algumas das expectativas impostas e a pressão para cumpri-las pode se manifestar desde as formas mais sutis até outras bem explícitas e duras. E não há contexto social que esteja completamente livre delas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, a psicoterapia se torna tão importante, pois nela possibilitamos o espaço seguro e necessário para olhar criticamente para essas exigências sociais e perceber o quanto elas não atendem às nossas próprias necessidades. À medida que o paciente consegue se afastar das fachadas, o próximo passo é o de, gradualmente, começar a não dar mais importância a essas exigências sociais que não fazem sentido para ele e a se regular a partir de seus próprios critérios.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"><br />
Para a direção de si</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Então, você pode se perguntar: qual é o benefício de se fazer psicoterapia? Nas palavras de Rogers: </span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Em primeiro lugar, o paciente encaminha-se para a autonomia. Quer isto dizer que ele começa gradualmente a optar por objetivos que pretende atingir.
<p></span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Torna-se responsável por si mesmo. Decide das atividades e dos comportamentos que significam alguma coisa para si e dos que não significam nada.</span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">Por muitos anos, usei o texto de Rogers em uma disciplina que ministrava na universidade. Nessas situações, era frequente que algum aluno retrucasse à apresentação destes objetivos dizendo: &#8220;Professor, eu sou pai de família, trabalho, tomo minhas próprias decisões e pago o preço por elas. Como assim eu não sou autônomo e responsável?&#8221;.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Geralmente, minha resposta ia na direção de diferenciar autonomia e responsabilidade social da autonomia e responsabilidade psicológica. Evidentemente, se uma pessoa é legalmente considerada adulta, ela é considerada tanto autônoma quanto responsável. Mas podemos afirmar que essa pessoa também é autônoma e responsável psicologicamente?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando somos privados em nosso desenvolvimento de entrar em contato com nossas necessidades, suprimindo-as com exigências externas, com a necessidade de nos sentirmos aceitos, de fazermos parte de um grupo, aquilo que reconhecemos como autonomia é, na verdade, a internalização deste conjunto de demandas que passamos a reconhecer como nossos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa forma, no processo psicoterápico, ao fazer os dois movimentos citados anteriormente (abandonar as próprias fachadas e as expectativas dos outros), o paciente cria o espaço para um contato mais intenso e mais genuíno com seu mundo interno, com seus valores, suas motivações e seus sentimentos. Acredito que esta seja uma condição necessária para falarmos de autonomia psicológica, pois o paciente deixa de agir a partir de expectativas externas e passa a guiar-se a partir do contato com suas próprias necessidades e desejos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário do que acredita, esse não é um processo egoísta, pois segundo Rogers: &#8220;A liberdade de se ser a própria pessoa é uma liberdade cheia de responsabilidade&#8221;. Esta responsabilidade vem de nos reconhecermos como autores de nossas escolhas e, também, da empatia gerada pelo processo de reconhecimento de si. À medida que mergulhamos em nosso mundo interno, aumentamos nossas chances de reconhecer como genuínas as necessidades internas daqueles que nos cercam.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"><br />
Para a realidade do processo</span></h3>
<h4><span style="font-weight: 400;"><br />
&#8220;Os pacientes parecem encaminhar-se mais abertamente para uma realidade fluida, em processo e em mudança. Não ficam perturbados ao descobrir que não são os mesmos em cada dia que passa, que não sentem sempre os mesmos sentimentos em relação a uma dada experiência ou a uma dada pessoa, que nem sempre são consequentes.&#8221; </span></h4>
<h4 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">(Rogers)</span></h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto estamos acuados, tentando atender às expectativas externas, a rigidez pode nos trazer a sensação de estabilidade. Isso aparece em falas como &#8220;sempre fui assim, não é agora que vou mudar&#8221;. A segurança vem do fato de nos conformarmos a um determinado padrão que internalizamos como sendo nosso. Neste caso, mudanças frequentes gerariam a necessidade de novas conformações e, consequentemente, novos conflitos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, à medida que entramos em contato com nosso mundo interno e o assumimos como realidade válida, entendemos que nossas percepções, necessidades, desejos mudam conforme nos aprofundamos na reflexão sobre nós mesmos. A mudança passa a ser vista como inevitável &#8211; e até desejável -, pois não temos como prever como nos sentiremos e, muito menos, quais situações nos serão apresentadas pela vida. Viver é dinâmico e compreender isso pode ser libertador.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"><br />
Para finalizar</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Para concluir, ao ler este texto, talvez você pode ter tido a sensação de que esses princípios servem para a psicoterapia como um todo, tanto de homens quanto de mulheres. Então digo que sim, sua impressão está correta, pois os objetivos gerais da psicoterapia são os mesmos, independentemente do gênero da pessoa atendida, o que muda são os elementos vivenciais trazidos por cada pessoa para a psicoterapia. Parece pouco, mas não é.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São justamente as vivências que diferenciam o conteúdo da psicoterapia, pois elas refletem nossa relação com o mundo e a forma como a compreendemos. É neste ponto que as psicoterapias de homens e mulheres se diferenciam, pois o gênero desempenha um papel importante na forma como somos inseridos do mundo, determinando o tipo de pressão social a que somos submetidos e também as possibilidades de enfrentamento diante destas pressões. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Portanto, ao contrário do que se defende no pensamento popular, não existe uma essência masculina e uma essência feminina. Masculinidade e feminilidade são construções sociais e históricas a partir das quais as subjetividades são construídas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, trabalhar com o masculino no consultório significa tomar a subjetividade como ponto de partida, pois é nela que se encontram as vivências individuais que, em relação com contexto histórico mais amplo, preenchem os sentimentos e as ações de sentido.</span></p>
<p><b><i>Espero que tenham gostado deste conteúdo que compartilho aqui e que ele possa abrir portas e caminhos para mais perto de si. </i></b></p>
<p><b><i>Até o próximo! </i></b></p>
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		<title>Terapia para homens: falar de si e se despir de defesas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Aug 2023 17:19:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O encontro consigo mesmo talvez seja o mais temido dos encontros. O medo de aproximar-se de si, de encarar frente a frente sombras e sóis, está presente em nós, seres humanos. O encontro consigo mesmo é um convite para transpor barreiras, se despir de defesas e de máscaras e de mergulhar no que se é. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">O encontro consigo mesmo talvez seja o mais temido dos encontros. O medo de aproximar-se de si, de encarar frente a frente sombras e sóis, está presente em nós, seres humanos. O encontro consigo mesmo é um convite para transpor barreiras, se despir de defesas e de máscaras e de mergulhar no que se é. O chamado é para um movimento subjetivo, que inclui olhar para si, se permitir ouvir, falar e sentir. No entanto, no caso dos homens, o encontro consigo mesmo tende a ser ainda mais temido, justamente porque implica em se abrir, se desfazer de amarras, de um padrão e de uma lógica pragmática e de produtividade, que nos foi ensinada. Então, diante dessa questão que impede, muitas vezes, os homens de uma experiência de contato mais profunda com seus sentimentos, angústias e sofrimentos, para tentar compreendê-los e, assim, também compreender os outros, te convido para leitura deste artigo. Vamos lá?</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">O consultório como ponto de partida </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Para começar nossa conversa por aqui, escolho o consultório como ponto de partida. Isso porque é a partir das experiências cotidianas &#8211; e ao longo de muitos anos &#8211; com meus clientes que vou percebendo a necessidade cada vez maior de falar e de refletir sobre o lugar e a forma da psicoterapia na vida dos homens. Nós não fomos criados para falar sobre nós de maneira reflexiva, com um olhar para dentro, para nossos sentimentos e emoções. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, muitas vezes, a psicoterapia, num primeiro momento, pode ser vista como temerosa, justamente, porque ela é, como falei na abertura deste artigo, um convite para o mergulho em si, em nossa intimidade. Enquanto homens, filhos de uma sociedade estruturada em pilares como machismo e patriarcado, qualquer movimento que se assemelhe a uma sensibilidade, a uma emoção, é visto como um não lugar de homens, como era a cozinha, antes, um cômodo da casa reservado às mulheres. Hoje não mais. Nem a cozinha, nem as emoções estão reservadas somente a um gênero. Essa abertura faz parte da desconstrução da masculinidade patriarcal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, todo mundo precisa se alimentar, não é mesmo? Enquanto pessoas, nós também sentimos, sofremos e temos nossas dúvidas, nossas aflições, desejos e angústias. As emoções são inerentes aos seres humanos e viver uma vida sem ao menos tentar compreendê-las pode ser uma eterna torneira pingando. Um incessante mal-estar que pode nos deixar alienados de nós mesmos e dos outros, das pessoas e das relações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para pensarmos, juntos, em como a prática da psicoterapia, do falar, do se ouvir, do se desfazer de defesas e de máscaras pode colaborar para uma melhor autopercepção e para uma melhor convivência com o mundo, que te convido a seguir com a leitura. </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">O utilitarismo e a lógica da produtividade </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Um outro fator interessante que se apresenta quando falamos de psicoterapia é o utilitarismo, uma maneira de validar algo pelo seu êxito prático. Mas falar sobre mim, resolve? Falar sobre meus sentimentos vai resolver meu problema? Em um mundo pautado pela produtividade, é preciso pontuar que a psicoterapia escapa dessa lógica do produzir e do consumir. Sua prática não caminha para um fim, ela é o fim em si. Ou, em outras palavras, o processo de psicoterapia tem sua finalidade no seu percurso. Como diriam os Titãs, “é caminhando que se faz o caminho”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em geral, os homens têm essa necessidade de saber do resultado, de querer saber da solução, antes mesmo de saber do problema, de identificar onde dói. Há um certo ceticismo e uma competitividade da razão, que tendem a colocar a psicoterapia contra a parede. Mas, vejam só, a psicoterapia não quer ter razão. O que ela quer é ajudar as pessoas em seus processos de ganho de autonomia, de autopercepção, de elaboração de seus sentimentos, de compreensão e construção de uma narrativa de si, para uma experiência de convivência de mais prazer em si e com os outros.    </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">A psicoterapia vai mudar quem eu sou?</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Chegamos a uma pergunta recorrente quando se trata de psicoterapia: fazer terapia vai mudar quem eu sou? Para responder esta questão, recorro a Carl Rogers, psicólogo estadunidense, que em seu livro, Tornar-se pessoa, diz o seguinte:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;"> “Para alguns, ser o que se é é permanecer estático. Eles veem um tal objectivo ou valor como sinónimo de estar fixo ou imutável. Nada pode estar mais longe da verdade. Ser o que se é é mergulhar inteiramente num processo.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, vale destacar que a identidade é uma construção e, em momento nenhum, durante a psicoterapia, se nega a identidade já construída pelo cliente. No entanto, por meio do processo de autoanálise, de desenvolvimento de autopercepção, é possível identificar comportamentos, crenças e atitudes que podem, sempre por iniciativa do próprio cliente, serem alterados, ajustados, com o desejo de caminhar para uma realidade mais fluida, na qual a pessoa passa a ser mais autônoma e apropriada de si. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, vale destacar que, mesmo desconstruindo a identidade da masculinidade frágil, por exemplo, não vamos apagar uma identidade. Pelo contrário, vamos trazê-la à superfície para que a partir dessa consciência de si, o homem possa desenvolver uma ação mais responsável e vigorosa na superação de seus obstáculos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como um exemplo, podemos citar as árvores. Elas vivem seus ciclos, com folhas, sem folhas, com flores, sem flores, com frutos, sem frutos. Seja no inverno, no verão, na primavera, na época da colheita ou da brotação, uma amoreira sempre será uma amoreira. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, no movimento de mudança, de processo, se reconhece cada vez mais quem se é. Uma  vida interior se torna consciente e isso aproxima o sujeito de quem ele é e dos outros. O faz enxergar o mundo também sem amarras, sem defesas. Há um reconhecimento mútuo.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para finalizar este artigo, mas não encerrar nossa reflexão sobre a psicoterapia para homens, gostaria de deixar uma fala do psicólogo Alexandre Coimbra, em participação no programa Altas Horas, em julho deste ano:</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“A gente tem que trocar a violência pela palavra. Trocar a força bruta pela sensibilidade, pelo direito de sermos sensíveis. Pela possibilidade de podermos chorar, pela possibilidade de termos medo, sem achar que isso vai nos diminuir. É um processo de educação que todos nós, homens, meninos, deveríamos ter. Acreditar que é possível resolver nossos problemas a partir das palavras e do olhar sensível para o outro.”</span></i></p>
<p><b><i>Espero que tenha gostado das reflexões que compartilhei aqui e, caso queira conversar mais sobre o assunto, estou à disposição. </i></b></p>
<p><b><i>Até o próximo! </i></b></p>
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			</item>
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		<title>Caminhos para afinar expectativas entre trabalhadores e empresas na era do quiet quitting</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/10/14/caminhos-para-afinar-expectativas-entre-trabalhadores-e-empresas-na-era-do-quiet-quitting/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Oct 2022 20:38:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Para Platão, as principais matérias a serem ensinadas aos jovens eram sobretudo ginástica, que harmoniza o corpo, e música, que harmoniza o espírito.” (Domenico De Masi, em O ócio criativo) Para encontrar caminhos possíveis e capazes de afinar as expectativas entre trabalhadores, trabalhadoras e as empresas, retomo as reflexões sobre os dois grandes fenômenos atuais [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“Para Platão, as principais matérias a serem ensinadas aos jovens eram sobretudo ginástica, que harmoniza o corpo, e música, que harmoniza o espírito.”<br />
</span></i><i></i></h5>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">(Domenico De Masi, em O ócio criativo)</span></i></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Para encontrar caminhos possíveis e capazes de afinar as expectativas entre trabalhadores, trabalhadoras e as empresas, retomo as reflexões sobre os dois grandes fenômenos atuais que atravessam o mundo do trabalho: </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">. Começamos essa discussão no último artigo, compartilhado aqui no meu blog e, agora, seguimos com seu desdobramento e com a elaboração de algumas das saídas e meios para que tanto a demanda das pessoas como das organizações possa ser atendida dentro de uma harmonia, na qual trabalho, lazer, valores e propósito têm espaço, tempo e qualidade. Te convido, então, a seguir com a leitura. Vamos lá? </span></p>
<h3><i><span style="font-weight: 400;">Quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">: uma breve retomada</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"> Antes de entrarmos, no entanto, nas reflexões em relação às saídas para um encontro equilibrado entre produtividade e qualidade de vida, retomo, de forma breve, os conceitos de </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">. O primeiro fenômeno &#8211; traduzido como demissão silenciosa &#8211; pode ser entendido como um movimento que coloca em cheque a forma como o mercado de trabalho foi encarado até então e que vai na contramão de movimentos anteriores como da cultura do “</span><i><span style="font-weight: 400;">work hard, play harder</span></i><span style="font-weight: 400;">”- trabalhe muito, se divirta muito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, o quite quitting convoca as pessoas a cumprirem o mínimo desejado para que continuem empregadas, sem dar o máximo à empresa e ou superar suas limitações. O movimento do </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">fala sobre realizar somente as tarefas que foram combinadas e estão dentro do escopo daquela função. Nada mais. Sem tarefas extras não remuneradas, sem ficar além do horário definido no escritório e sem trabalho aos finais de semana. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já o segundo fenômeno, </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; ou grande demissão &#8211; se refere aos milhões de trabalhadores que, voluntariamente, têm deixado seus postos de trabalho nas principais economias do mundo. O movimento global é caracterizado pelo desligamento voluntário do emprego e pode ser visto como um chamamento a uma nova forma de encarar a vida profissional, na qual o trabalho deve fazer sentido também para o empregador &#8211; e não somente para a empresa &#8211; e na qual se busca a preservação do bem-estar mental.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Mas, então, como afinar as expectativas entre empresas e trabalhadores? </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Para começar, como saída possível para trabalhadores e trabalhadoras, dentro de suas realidades e contextos, compreendo que esteja a busca por uma experiência de trabalho alinhada aos seus valores e que, de fato, faça sentido dentro da sua compreensão de vida e de propósito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, mais do que buscar por uma vaga de emprego, acredito que seja importante avaliar se aquela empresa em questão &#8211; mais do que uma função &#8211; oferece oportunidades de atuação e de desenvolvimento que estejam alinhadas às expectativas profissionais e pessoais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, aspectos relacionados à cultura da empresa precisam ser observados. Além disso, o autoconhecimento é importante para que as pessoas se façam perguntas como:  “será que esse trabalho atende minhas demandas e propósitos?&#8221; “será que estou numa área que me faz feliz? Estou numa empresa alinhada com meus valores? Estou de fato no caminho profissional que gostaria?” </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando a resposta para a maior parte dessas perguntas é “não”, podemos estar diante de um desinteresse ou de um distanciamento que podem levar ao quiet quitting. Sob a perspectiva de especialistas em negócios e que olham apenas pelo ponto de vista da empresa, a aderência à demissão silenciosa pode impedir a evolução profissional.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, existe nesse argumento uma armadilha que é a da promessa de ascensão social e enriquecimento por meio do trabalho pesado. Na verdade, essa promessa não passa de um engodo, de uma falácia, de mais um instrumento de exploração da mão de obra e que gera um trabalhador angustiado, inseguro de si e da sua função. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na tentativa exasperada de satisfação profissional e de realização do que se espera de desempenho, em um contexto superexigente, as pessoas acabam por colocar em risco sua saúde e sua vida pessoal. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entendo que diante dessa conta que não fecha, o caminho talvez seja recalcular a rota e planejar a busca por algo que faça mais sentido para suas escolhas pessoais. O poder da escolha é libertador. Aquilo que se apresenta, me representa? Se perguntar e refletir é ponto chave e destrava portas.</span><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, no artigo anterior, mencionei a pandemia como um dos fatores que colaboram &#8211; ou colaboraram &#8211; para as transformações no mundo do trabalho e para o surgimento dos fenômenos </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">. Compartilho, agora, da visão do sociólogo italiano, Domenico De Masi, que, em recente entrevista ao jornal O Globo, destaca que:</span></p>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“a pandemia também acelerou a conscientização entre os profissionais de que seu trabalho pode ser realizado de forma mais livre e satisfatória, aumentando tanto a produtividade quanto a qualidade de vida. E convenceu milhões de trabalhadores de que o trabalho não é humano se não for inteligente e livre.”</span></i></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, vejo os fenômenos do </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e do great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;"> como a postura atual de decidir não servir mais a um modo de produção que se impõe de forma tirana, ditando o ritmo de trabalho e o que deve ou não ser priorizado, ocupando toda a vida dos trabalhadores. Ao perceber essa situação invasiva, muitas pessoas começaram a priorizar a qualidade de vida e seus projetos pessoais, mesmo que em detrimento de uma maior ascensão profissional.</span></p>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;a bem da verdade, o que significa aproximar-se do tirano senão afastar-se de sua liberdade e, por assim dizer, agarrar com as duas mãos e abraçar a escravidão?&#8221;<br />
</span></i><i></i></h5>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">(​Etienne de La Boétie, em o Discurso da Servidão Voluntária)</span></i></h5>
<h3><span style="font-weight: 400;">E as empresas, o que elas podem fazer para atender às expectativas e  evitar</span><i><span style="font-weight: 400;"> situações de quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">?</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Chegando agora no espaço das organizações, entendo que entre as saídas possíveis para maior e melhor engajamento dos trabalhadores e trabalhadoras estão o repensar o modelo de produtividade &#8211; abandonando a visão míope e retrógrada de poder baseada no castigo e recompensa, controle físico e emocional dos funcionários &#8211; e o promover políticas de retenção de talentos eficientes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As transformações do mundo do trabalho e de gestão de pessoas apontam para ações que colocam a produtividade como resultado da motivação dos envolvidos. Para isso, é preciso promover a autonomia, abrir espaços para as habilidades de cada um e estabelecer uma relação de confiança, não de controle ou de imposição. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, divido aqui o conceito de </span><i><span style="font-weight: 400;">“smart working</span></i><span style="font-weight: 400;">”, definido por De Masi, que trata de </span><span style="font-weight: 400;">“uma abordagem de organização do trabalho que visa a gerar maior eficiência e eficácia na obtenção de resultados por meio de uma combinação de flexibilidade, autonomia e colaboração, em paralelo com a otimização de ferramentas e ambientes para os trabalhadores. Obviamente, nem todos os trabalhos são teletrabalháveis: por exemplo, um barbeiro ou um cirurgião não podem teletrabalhar. Além disso, o smart working é voluntário: depende de um acordo livre entre o trabalhador e a empresa, e ambos podem desistir a qualquer momento.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, acredito que seja importante destacar que compreender o incentivo para desenvolver projetos criativos e paralelos e respeitar o tempo para atividades pessoais e de lazer dos trabalhadores e trabalhadoras não se trata de prejuízo ou perda de produtividade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pelo contrário, ao proporcionar um encontro harmônico entre as expectativas da empresa e das pessoas contratadas, é possível investir em forças potentes, capazes de gerar mais confiança, bem-estar e qualidade de vida, fatores catalisadores de maior engajamento, comprometimento e atração. Um exemplo é a importância dos programas de retenção de talentos, que se trata de uma forma de tornar a empresa mais atraente para os trabalhadores.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para finalizar este artigo, entendo que devemos seguir por um caminho de questionamentos, de revisão e de enfrentamento do que sempre foi posto. Para isso, entendo também que seja fundamental afinar os acordes de um instrumento de escuta e de compreensão, de horizontalidade, no qual os anseios possam ser compartilhados, sem dominação ou intimidação, mas com liberdade e humanidade. Gostaria de pontuar essa questão com algo bastante prático. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No consultório, muitos clientes, quando tomam conhecimento de novidades como o trabalho híbrido ou a semana de quatro dias, por exemplo, sempre me questionam de que forma isso poderá ser usado contra eles. É um alerta importante e, desse modo, acho fundamental incluir aqui que estas medidas, quando tomadas, devem ser tomadas visando, genuinamente, o bem-estar do trabalhador e da trabalhadora e a melhora do ambiente de trabalho, caso contrário, poderão não surtir efeito.</span></p>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“no início serve-se contra a vontade e à força; mais tarde, acostuma-se, e os que vêm depois, nunca tendo conhecido a liberdade, nem mesmo sabendo o que é, servem sem pesar e fazem voluntariamente o que seus pais só haviam feito por imposição. Assim, os homens que nascem sob o jugo, alimentados e criados na servidão, sem olhar mais longe, contentam-se em viver como nasceram; e como não pensam ter outros direitos nem outros bens além dos que encontraram em sua entrada na vida, consideram como sua condição natural a própria condição de seu nascimento”.</span></i></h5>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">\(​​Etienne de La Boétie, em o Discurso da Servidão Voluntária)</span></i></h5>
<p><b><i>Espero que as reflexões trazidas aqui tenham sido úteis. Fiquem à vontade para compartilhar outros pontos de vista! Nos encontramos no próximo artigo!</i></b></p>
<p><b><i>Até lá. </i></b></p>
<p><b><i>Fontes:<br />
</i></b><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2022/09/domenico-de-masi-o-trabalho-nao-liberta-ninguem.ghtml?utm_campaign=ebook" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><b><i>O Globo</i></b></a><br />
<a href="https://www.istoedinheiro.com.br/quiet-quitting-especialista-explica-como-evitar-o-desinteresse-no-trabalho/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><b><i>Isto É </i></b></a><br />
<a href="https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/polemica/article/view/25204/18037" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><b><i>UERJ </i></b></a><br />
<a href="http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_2007_11_Boetie.htm" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><b><i>Discurso Sobre a Servidão Voluntária &#8211; Étienne de La Boétie</i></b></a></p>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/10/14/caminhos-para-afinar-expectativas-entre-trabalhadores-e-empresas-na-era-do-quiet-quitting/">Caminhos para afinar expectativas entre trabalhadores e empresas na era do quiet quitting</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
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		<item>
		<title>Quiet quitting e great resignation: dois fenômenos do mundo do trabalho que convocam à mudança</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/09/23/quiet-quitting-e-great-resignation-dois-fenomenos-do-mundo-do-trabalho-que-convocam-a-mudanca/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Sep 2022 19:09:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Resolvam não servir mais, e serão imediatamente libertados. Não peço que coloquem as mãos sobre o tirano para derrubá-lo, mas simplesmente que não o apoiem mais; então o observarão, como um grande Colosso cujo pedestal foi arrancado, cair de seu próprio peso e quebrar-se em pedaços”. (O Discurso da servidão voluntária, de Étienne de La [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/09/23/quiet-quitting-e-great-resignation-dois-fenomenos-do-mundo-do-trabalho-que-convocam-a-mudanca/">Quiet quitting e great resignation: dois fenômenos do mundo do trabalho que convocam à mudança</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">“Resolvam não servir mais, e serão imediatamente libertados. Não peço que coloquem as mãos sobre o tirano para derrubá-lo, mas simplesmente que não o apoiem mais; então o observarão, como um grande Colosso cujo pedestal foi arrancado, cair de seu próprio peso e quebrar-se em pedaços”.</span></i></h5>
<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">(O Discurso da servidão voluntária, de Étienne de La Boétie)</span></i></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Subverter a ordem que vigora. Subverter a ideia que impera. O mundo do trabalho é atravessado por dois grandes fenômenos, o </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">e o </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">, que têm movimentado as estruturas, até então bem sólidas, do modo de realizar as atividades profissionais. Como estudioso das relações sociais e do trabalho e como orientador profissional e de carreiras, compartilho neste artigo alguns dos aspectos desses dois movimentos que convocam trabalhadores – e empresas  &#8211; a repensarem o modelo tradicional de trabalho e a desenharem novas formas de atuação enquanto profissionais e corporações. Te convido para essa leitura e para, juntos, refletirmos sobre como os fenômenos “quiet quitting” e  o “great resignation” podem representar uma importante transformação não só no modo como se trabalha, mas, especialmente, no modo como se vive. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vamos lá?</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"> </span><span style="font-weight: 400;">O que são os fenômenos </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">?</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Para dar início a nossa conversa por aqui, gostaria de fazer uma ambientação dos fenômenos </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">. O primeiro conceito ganhou destaque depois que a hashtag #quietquitting viralizou, no TikTok,  com a publicação do vídeo de um engenheiro de 24 anos, chamado Zaid Khan, que explicou o que seria a proposta da</span><i><span style="font-weight: 400;"> quiet quitting</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; ou demissão silenciosa em português:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;Você não está desistindo do seu emprego, mas está abandonando a ideia de ir além no trabalho&#8221;. “Você ainda está cumprindo seus deveres, mas não está mais seguindo a mentalidade da cultura de agitação de que o trabalho deve ser sua vida. A realidade é que não é, e seu valor como pessoa não é definido pelo seu trabalho.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ou seja, o fenômeno </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting pode ser visto </span></i><span style="font-weight: 400;">como um movimento que coloca em cheque a forma como o mercado de trabalho foi encarado até então e que vai na contramão de movimentos anteriores como da cultura do </span><i><span style="font-weight: 400;">“work hard, play harder”</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8211; trabalhe muito, se divirta muito. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, o </span><i><span style="font-weight: 400;">quite quitting</span></i><span style="font-weight: 400;"> convoca as pessoas a cumprirem o mínimo desejado para que continuem empregadas, sem dar o máximo à empresa e ou superar suas limitações. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa maneira, o movimento do </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting</span></i><span style="font-weight: 400;"> chama a atenção para algo que poderíamos &#8211; sob certo ponto de vista &#8211; compreender como óbvio: realizar somente as tarefas que foram combinadas e estão dentro do escopo daquela função. Nada mais. Nada além do acordado. Sem tarefas extras não remuneradas, sem ficar além do horário definido no escritório e sem trabalho aos finais de semana. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, o </span><i><span style="font-weight: 400;">quite quitting</span></i><span style="font-weight: 400;"> inverte o modo como enxergamos o trabalho e indica a priorização da vida para além das demandas profissionais. Ou seja, o desejo de estar com a família, de ter momentos de lazer, descanso e de desempenhar outras atividades, para os adeptos do </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting</span></i><span style="font-weight: 400;">, se sobrepõe às ambições profissionais. O trabalho sai do centro da vida do sujeito e passa a ocupar quase que uma via marginal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa mudança na forma de encarar os mecanismos do trabalho, especialmente por parte dos jovens, pode ser analisada a partir de pesquisas sobre engajamento e desengajamento em relação às questões profissionais. Veja só:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De acordo com o relatório global da norte-americana, Gallup, para 2022, somente 9% dos trabalhadores no Reino Unido estavam engajados ou entusiasmados com seu trabalho, ocupando o 33º lugar entre 38 países europeus. Já a pesquisa da equipe do NHS, realizada em outono de 2021, mostrou que o moral havia caído de 6,1 de 10 para 5,8, e o engajamento da equipe caiu de 7,0 para 6,8. </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">A grande demissão: mais um movimento no mundo do trabalho</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante disso, podemos seguir para o próximo fenômeno, o </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; ou grande demissão &#8211; que se refere aos milhões de trabalhadores que, voluntariamente, têm deixado seus postos de trabalho nas principais economias do mundo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, o movimento global é caracterizado pelo desligamento voluntário do emprego e pode ser visto como um chamamento a uma nova forma de encarar a vida profissional, na qual o trabalho deve fazer sentido também para o empregador &#8211; e não somente para a empresa &#8211; e na qual se busca a preservação do bem-estar mental. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo um estudo da consultoria PwC, realizado com mais de 52 mil pessoas em 44 países, um em cada cinco entrevistados declarou que pretende trocar de emprego em 2022. Ainda de acordo com o levantamento, esse desejo é mais intenso entre os trabalhadores da geração Z (com idades entre 18 e 25 anos): 27% disseram que querem mudança de ares nos próximos 12 meses.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Por que esses fenômenos no mundo do trabalho têm surgido? </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Por que estamos vivendo essa onda de convocação à mudança? Por que rever as estruturas e movimentá-las? Bem, estudiosos apontam alguns fatores que colaboram &#8211; ou colaboraram &#8211; para esse chacoalhar no mundo do trabalho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre eles, claro, está a pandemia de Covid-19, que atravessou a vida de todas as pessoas e fez com que muitas questões, dadas como certas, fossem revistas, revisitadas e ressignificadas, não é mesmo?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa forma, a pandemia também afetou a relação das pessoas com o trabalho. Pesquisadores defendem que ao nos depararmos frente a frente com nossa mortalidade de modo mais incisivo &#8211; em razão das muitas incertezas relacionadas à Covid-19, o significado do trabalho se tornou muito mais aparente e questões existenciais passaram a pipocar muito mais: “o que o trabalho deveria significar para mim?” “o que tenho feito da minha vida, além de trabalhar?” “meu esforço para a empresa é recompensado? ou somente a empresa lucra com isso?”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para o professor de psicologia organizacional, Anthony Klotz, da </span><i><span style="font-weight: 400;">UCL School of Management</span></i><span style="font-weight: 400;">, responsável por cunhar o termo </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;">, além da pandemia, existem outras razões capazes de explicar o fenômeno atual:</span></p>
<ol>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">muitas pessoas que pretendiam mudar de emprego no começo de 2020, precisaram adiar os planos;  </span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">a pandemia também expandiu as perspectivas de organização do trabalho (como as possibilidades de trabalho remoto ou híbrido);</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">epifanias (ou revelações) da vida profissional acontecem por conta de algum evento que transforma a visão ou os valores das pessoas, e a pandemia contribuiu muito para que isso ocorresse;</span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">mais gente passou a questionar a dedicação à antiga empresa e decidiu utilizar essa energia para investir em um negócio próprio.</span></li>
</ol>
<p><span style="font-weight: 400;">Vale ainda destacar que, além desses fatores apontados por Klotz, a demissão voluntária pode estar relacionada a motivos como: a fuga do trabalho excessivo, a fuga do </span><i><span style="font-weight: 400;">Burnout</span></i><span style="font-weight: 400;">, de situações de assédio moral e do trabalho sem sentido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, é possível ver quais estímulos permeiam os dois grandes fenômenos atuais no mundo do trabalho que convocam a uma verdadeira revisão do espaço &#8211; e do significado &#8211; ocupado pela atividade profissional dentro da vida das pessoas.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Mas, e no Brasil? Quais as características do </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation?</span></i></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Falando em bom português, a demissão silenciosa e a grande demissão ganham novos contornos em terras tupiniquins. É preciso considerar que as características e as condições de um determinado espaço vão influenciar e até mesmo personalizar fenômenos globais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, no Brasil, os movimentos </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;"> podem ser vistos de um ponto de vista de estratificação, já que se tornam movimentos com marcadores sociais importantes. </span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso porque, lá fora, os fenômenos atuais do trabalho tendem a atingir pessoas de todas as classes sociais, mas, em especial, aquelas que ocupam empregos que tradicionalmente pagam pouco, como lixeiros e faxineiros. São também, em geral, pessoas mais jovens. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já no Brasil, os trabalhadores que saem dos empregos voluntariamente têm um nível de escolaridade mais alto, são profissionais diplomados e que, em geral, ocupam cargos com remunerações mais altas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os dados levantados pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) mostram esse perfil: </span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1">
<h5><span style="font-weight: 400;">2,9 milhões </span><span style="font-weight: 400;">foi o número de pedidos de demissão no Brasil entre janeiro e junho e 2022</span></h5>
</li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1">
<h5><span style="font-weight: 400;">48,2% </span><span style="font-weight: 400;">é o percentual dos pedidos de demissão que foram feitos por profissionais com ensino superior completo</span></h5>
</li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1">
<h5><span style="font-weight: 400;">33% </span><span style="font-weight: 400;">é o percentual dos pedidos de demissão que foram feitos por profissionais com ensino médio completo</span></h5>
</li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante dessas informações, convido a uma reflexão importante: quem pode pedir a conta? Quais trabalhadores e trabalhadoras, sob uma perspectiva social e política, têm o privilégio de refletir sobre o lugar do trabalho em suas vidas, em analisar as condições e pedir demissão de forma voluntária? Em um Brasil que peca, profundamente, em políticas públicas e em condições de acesso ao básico para sobrevivência humana, quem pode escolher se demitir? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto a ser considerado e que envolve as reflexões acima é a crescente taxa de desemprego que temos assistido por aqui. Segundo levantamento da agência de classificação de risco Austin Rating, elaborado a partir das novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a economia global, a taxa de desemprego do Brasil deve ficar entre as maiores do mundo em 2022.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No ranking, que inclui as projeções do FMI para um conjunto de 102 países, o Brasil aparece com a 9ª pior estimativa de desemprego no ano (13,7%), bem acima da média global prevista para o ano (7,7%), da taxa dos emergentes (8,7%) e é a 2ª maior entre os membros do G20 – atrás só da África do Sul (35,2%).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em junho deste ano, a taxa de desemprego no país manteve o recorde de 14,7%, atingindo 14,8 milhões, segundo o IBGE. A taxa e o número de desempregados foram os maiores desde o início da série histórica, iniciada em 2012.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos fatores que colocam o Brasil nessa situação de menos oportunidades de emprego formal é a retração do parque industrial brasileiro, que tornou o país, basicamente, em um país produtor de commodities. Ou seja, o Brasil teve interrompido seu ciclo produtivo expansivo, sua capacidade de industrialização, que se trata de uma das principais estruturas do desenvolvimento de qualquer nação. Sem força produtiva aqui dentro, reduzimos a oferta de trabalho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, em um cenário com menos oportunidades de vagas e assombrosos números de pessoas em busca de emprego, o medo de perder as condições mínimas de sobrevivência pode fazer com que a pessoa permaneça no trabalho, ainda que seu desejo seja sair. </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Por fim, o que os fenômenos </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">great resignation </span></i><span style="font-weight: 400;">têm a dizer e quais desafios eles colocam? </span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Em suma, podemos ver que, embora no Brasil, a escolha por rever o tempo e a energia investidos no trabalho possa ser considerada um privilégio de classe, os fenômenos de </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation </span></i><span style="font-weight: 400;">chegam com o papel de desestabilizadores de um </span><i><span style="font-weight: 400;">status quo</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, podemos olhar através desses fenômenos de </span><i><span style="font-weight: 400;">quiet quitting e great resignation</span></i><span style="font-weight: 400;"> e enxergá-los como despertadores de consciência no que diz respeito às formas de controle, de poder e de servidão em voga até então. Por outro lado, eles são desafios significativos para as organizações que precisam rever cultura, política e gestão de seus talentos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É certo que os movimentos começam a fazer barulho &#8211; para brincar com a expressão demissão silenciosa &#8211; e a afetar empregados e empresas. Novos caminhos precisam ser construídos, novas saídas precisam ser encontradas para que o encontro entre vida pessoal e trabalho seja um encontro de equilíbrio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, é fundamental olharmos para a promessa liberal de que o trabalho permitiria o acesso ao enriquecimento. Essa promessa foi quebrada pela lógica da precarização das condições de trabalho, dos excessos e pressões, que têm produzido, cada vez mais, incertezas e adoecimento. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, como fechamento de minhas reflexões aqui, vejo que, por meio desses movimentos no mundo do trabalho, estamos vivenciando um levante que clama por limites, pela possibilidade de dizer “não” e por defender desejos, propósitos e territórios, que vão muito além do Google Meet e da cadeira giratória. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entendo que, por meio desses movimentos, a Sociedade do Desempenho, descrita pelo filósofo sul-coreano, Byung-Chul Han, começa, ainda que tímida, a despertar, a subverter a ideia de alienação de si e dos excessos, e a compreender que cansaço não é sucesso. </span></p>
<p><b><i>Por fim, para não me alongar mais, deixo aqui o convite para acompanhar, no próximo artigo, as saídas possíveis e os meios para que trabalhadores, trabalhadoras e empresas possam ajustar as expectativas e aos novos desenhos que surgem no mundo do trabalho. </i></b></p>
<p><b><i>Para mais artigos sobre trabalho e relações sociais, acesse meu </i></b><a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/noticias/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><b><i>blog</i></b></a><b><i>. </i></b></p>
<p><b><i>Até mais! </i></b></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b><i>Referências:</i></b></p>
<p><a href="https://epocanegocios.globo.com/colunas/Bolsa-de-Valores/noticia/2022/08/quiet-quitting-o-fenomeno-da-geracao-que-quer-fazer-o-minimo-possivel-no-trabalho.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Época Negócios </span></a></p>
<p><a href="https://forbes.com.br/carreira/2022/09/fernanda-abilel-quiet-quitting-qual-o-valor-de-um-profissional-que-faz-apenas-o-necessario/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Forbes</span></a></p>
<p><a href="https://www.istoedinheiro.com.br/quiet-quitting-especialista-explica-como-evitar-o-desinteresse-no-trabalho/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Isto É Dinheiro</span></a></p>
<p><a href="https://www.insper.edu.br/noticias/largar-o-emprego-e-continuar-empregado-e-o-fenomeno-da-quiet-quitting/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">INSPER</span></a></p>
<p><a href="https://www.theguardian.com/money/2022/aug/06/quiet-quitting-why-doing-the-bare-minimum-at-work-has-gone-global" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">The Guardian </span></a></p>
<p><a href="https://saude.abril.com.br/coluna/com-a-palavra/a-grande-demissao-a-saida-do-trabalho-em-busca-de-equilibrio/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Saúde Abril</span></a></p>
<p><a href="https://www.seudinheiro.com/2022/economia/grande-renuncia-empregos-brasil-demissao-lils/" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Seu Dinheiro </span></a></p>
<p><a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2022/04/28/taxa-de-desemprego-do-brasil-deve-ficar-entre-as-maiores-do-mundo-em-2022-veja-ranking.ghtml" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">G1 </span></a></p>
<p><a href="https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2021/06/30/desemprego-pnad-ibge.htm" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">UOL</span></a></p>
<p><a href="https://www.nexojornal.com.br/expresso/2022/08/25/Como-o-fen%C3%B4meno-da-%E2%80%98grande-demiss%C3%A3o%E2%80%99-chega-no-Brasil" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Nexo Jornal </span></a></p>
<p><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/07/cultura/1517989873_086219.amp.html" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">El País</span></a></p>
<p><a href="https://www.estoico.com.br/1961/resenha-discurso-da-servidao-voluntaria/#:~:text=O%20Dis" target="_blank" rel="noopener noreferrer"><span style="font-weight: 400;">Discurso da Servidão Voluntária </span></a></p>
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		<title>Psicoterapia: acolhimento e prática de liberdade para encontrar a si em meio ao mundo</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/07/21/psicoterapia-acolhimento-e-pratica-de-liberdade-para-encontrar-a-si-em-meio-ao-mundo/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Jul 2022 19:05:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Aceitar a conscientização como horizonte não exige tanto mudar o campo de trabalho, mas a perspectiva teórica e prática a partir da qual se trabalha.&#8221; (MARTÍN-BARÓ, 1997:7) Percebi que já era hora de escrever novamente sobre psicoterapia. Na verdade, talvez seja sempre hora de falar sobre psicoterapia, pois percebo que ainda pairam muitas concepções equivocadas, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h5 style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Aceitar a conscientização como horizonte não exige tanto mudar o campo de trabalho, mas a perspectiva teórica e prática a partir da qual se trabalha.&#8221; (MARTÍN-BARÓ, 1997:7)</span></i></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Percebi que já era hora de escrever novamente sobre psicoterapia. Na verdade, talvez seja sempre hora de falar sobre psicoterapia, pois percebo que ainda pairam muitas concepções equivocadas, tanto na forma como a psicoterapia é divulgada por profissionais que acompanho, como no discurso e expectativas de alguns clientes. Desse modo, este texto tem, então, o objetivo de partilhar com vocês algumas reflexões que faço a respeito deste tema que também é, em grande parte, objeto de minha prática e de meus estudos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Começo compartilhando com vocês que ser psicoterapeuta nem sempre foi meu objetivo profissional. Minha carreira teve início pela psicologia educacional, completamente direcionada para a orientação profissional e para suas relações com a saúde psicológica. Inclusive, foi este o tema do meu mestrado. Neste momento, os pensamentos sócio-históricos de Vigotski e, especialmente, de Fernando González Rey, eram a base do meu trabalho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dois anos após minha formação, concluí o mestrado e comecei a atuar na orientação profissional de adolescentes e jovens adultos. Mas não demorou muito para que a demanda pela psicoterapia surgisse por parte desses clientes que encerravam o processo de orientação e que desejavam iniciar o processo psicoterápico comigo. Assim, em função deles, e de minhas ótimas lembranças dos estágios em clínica na época da faculdade, decidi começar a acolher estes pedidos e, consequentemente, a procurar um supervisor e incluir o tema em minha rotina de estudos.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Sobre a relação entre subjetividade, sociedade e teoria</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Seguindo minha trajetória, já como professor universitário e supervisor de estágios, me deparei com a leitura de &#8220;O Existencialismo é um Humanismo&#8221;, de Jean-Paul Sartre, de quem eu já havia lido algumas peças literárias. A paixão foi imediata e, desde então, me dedico ao estudo do existencialismo e da fenomenologia, corrente de pensamento que ilumina toda minha prática, seja da orientação profissional ou da psicoterapia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora o pensamento sócio-histórico e o pensamento fenomenológico não possam ser sobrepostos, pois possuem entre si alguns conflitos referentes à visão de homem e ao referencial metodológico, há algo em comum entre eles que é a visão crítica a respeito da Psicologia e, principalmente, do papel social desempenhado por esta ciência. Ambos referenciais, à sua maneira, criticam a visão determinista que frequentemente é assumida pela Psicologia e destacam a importância de uma compreensão social da inserção do indivíduo no mundo que ele habita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, posso resumir o </span><b>papel desempenhado pela Psicologia</b><span style="font-weight: 400;"> em </span><b>duas direções</b><span style="font-weight: 400;"> diametralmente opostas: uma é a vertente que privilegia a adaptação do indivíduo à sociedade e a segunda é a que privilegia a compreensão do indivíduo que existe em meio à sociedade, mas que é livre para definir se deve ou não se adaptar às contingências às quais é submetido na vida social. Destaco aqui que minha escolha como profissional sempre foi pela segunda vertente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não vou me alongar muito a respeito da Psicologia que se propõe como adaptativa/normativa, pois nesta vertente a sociedade e suas normas não são questionadas e a ordem social, muito frequentemente, atropela as necessidades do indivíduo. Exemplos desta ótica são muito bem retratados pelo cinema em obras como &#8220;Estranho no ninho&#8221;, &#8220;Bicho de sete cabeças&#8221; e &#8220;Garota interrompida&#8221;. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Parto então para a concepção da Psicologia que me estimula e me move. Desde o início de minha formação como psicólogo senti uma grande atração pelas teorias que se propunham a compreender o ser humano em sua diversidade e complexidade. Sempre me afastei de enfoques interpretativos por acreditar que, frequentemente, as interpretações são formas de condicionar a realidade a uma determinada teoria. Acredito no oposto, na necessidade de adequar as teorias à realidade. Caso contrário, ao meu ver, estaríamos colocando o ser humano em uma forma (pré) definida pelos limites de uma teoria qualquer. Pois, como afirma González Rey (2002):</span></p>
<h5 style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">A teoria é uma construção sistemática, confrontada constantemente com a multiplicidade de idéias geradas por quem as compartilha e quem se opõe a elas, do que resulta um conjunto de alternativas que se expressam na pesquisa científica e que seguem diferentes zonas de sentido sobre a realidade estudada</span></i><span style="font-weight: 400;">.” (P.59-60)</span></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste sentido, o papel teoria é o de permitir a compreensão dos fenômenos estudados, mas sem nunca deixar de confrontá-la com as diferentes realidades que tentamos compreender. É justamente da tensão entre a realidade e o conhecimento existente que se torna possível a constante revisão das teorias.   </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Psicoterapia e de qual ser humano estamos falando?</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A pergunta deste subtítulo pode parecer uma pegadinha, mas garanto que não é. As principais faculdades que nos separam dos demais animais que habitam o planeta são a complexidade de nossa linguagem e nosso intelecto. Portanto, desde que os registros escritos começaram a ser usados, temos notícia de uma grande variedade de pensadores que se dedicaram a compreender a existência humana, sob os mais diferentes referenciais. Isso faz com que sempre que falamos de Psicologia seja necessário apontar de qual destes destes referenciais partiremos e qual tomaremos como baliza para nossa compreensão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, como destaquei no início do texto, o existencialismo é a guia que utilizo para compreender minha prática. Por esta perspectiva, o homem é compreendido como um ser no qual a existência precede a essência. A este respeito Sartre explica:</span></p>
<h5><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que em primeira instância, o homem existe, encontra-se a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. (&#8230;) O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: esse é o primeiro princípio do existencialismo.&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(1987:6)</span></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Para que não ocorra o risco de simplificar a afirmação acima, é importante lembrar que Sartre destaca qual papel da situação na existência humana e sua íntima relação com a liberdade. Não vivemos soltos no espaço, fazemos parte de uma sociedade e somos coautores de sua história. Desse modo, a afirmação nos aponta que, embora o mundo nos imponha uma série de condições que estão fora de nosso campo de escolhas, somos responsáveis por nossa existência, em qualquer que seja o contexto em que ela esteja inserida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A este respeito, Mendonça (2013) alerta para atitudes remanescentes do humanismo individualista antropocêntrico que habitam a prática psicológica. A autora alerta que em nome de acolher o indivíduo que se encontra em psicoterapia, muitas vezes o terapeuta acaba por legitimar no cliente uma visão de si como ser destacado e isento de qualquer relação com o mundo social que o cerca. Estas práticas desvinculam o Eu do Outro e ignoram &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">a noção de que a preocupação do sujeito lhe pertence e tem sua razão de ser na totalidade mais ampla de suas motivações existenciais.&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(p.82).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Concordo com a compreensão da autora de que a </span><b>ética humanista</b><span style="font-weight: 400;"> se norteia por dois vetores (p.83):</span></p>
<ol>
<li><b>A reverência fenomenológica do terapeuta pela experiência do cliente, seja ela qual for. </b><span style="font-weight: 400;">Ou seja, a garantia de uma atitude fenomenológica por parte do terapeuta a fim de facilitar um encontro empático com os sentimentos e pensamentos do cliente. Esta atitude será o fundamento de uma relação capaz de permitir ao cliente a ressignificação e transformação de seus sofrimentos.</span></li>
<li><b>A preocupação do terapeuta com a comunidade próxima do cliente. </b><span style="font-weight: 400;">Esta preocupação se faz presente, pois existimos em uma condição de ser-com. Nossa subjetividade é construída também a partir da relação com os outros que estão à nossa volta. Não há um ser que possua uma subjetividade que não esteja inserido em uma intersubjetividade. Portanto, uma saída saudável para o sofrimento é aquela que considera a relação do indivíduo com os demais.</span></li>
</ol>
<h3><span style="font-weight: 400;">E a psicoterapia, em que consiste?</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Sartre, assim como outros intelectuais franceses do início e meados do século XX, era um grande estudioso tanto da psicanálise quanto da fenomenologia. Este trânsito permitiu que, em sua obra, &#8220;O ser e o nada&#8221;, ele dedicasse um capítulo no qual tece críticas à psicanálise tradicional e reflete sobre o processo psicoterápico à luz de seu existencialismo. Neste texto, ele aponta:</span></p>
<h5><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Se admitimos que a pessoa é uma totalidade, não podemos esperar reconstruí-la por uma adição ou uma organização das diversas tendências empiricamente nela descobertas. Mas, ao contrário, em cada inclinação, em cada tendência, a pessoa se expressa integralmente, embora seguindo uma perspectiva diferente (&#8230;). Sendo assim, devemos descobrir em cada tendência em cada conduta do sujeito, uma significação que a transcenda.&#8221; </span></i><span style="font-weight: 400;">(1997:689)</span></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Sartre aponta neste trecho para a necessidade de desfazer a dualidade sujeito-sociedade em nome de uma compreensão na qual </span><b>indivíduo e sociedade tornam-se uma unidade em relação</b><span style="font-weight: 400;">. Não é possível pensar o indivíduo destacado da sociedade, nem tampouco a sociedade como se indivíduos não fizessem parte dela. Esta relação entre indivíduo e sociedade é invariavelmente única, pois cada um de nós, mesmo que inseridos na mesma cultura e na mesma sociedade, ocupamos lugares e papéis distintos, e a percebemos de forma singular. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, um comportamento não se resume ao ato isoladamente, podendo apenas ser compreendido a partir da relação específica que a pessoa que o emite tem com a sociedade em todas as dimensões, incluindo sua história pessoal. São estas relações que a psicoterapia deve buscar explorar e trazer à consciência para que, a partir delas, novos sentidos e novas escolhas possam surgir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui retomo a epígrafe deste texto:</span></p>
<h5><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Aceitar a conscientização como horizonte não exige tanto mudar o campo de trabalho, mas a perspectiva teórica e prática a partir da qual se trabalha.&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> (MARTÍN-BARÓ, 1997:7)</span></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">A conscientização citada por Martín-Baró é de uma natureza diferente daquela que costumamos usar em psicoterapia, contudo, percebo que ambas são complementares. É perfeitamente possível que a psicoterapia promova tanto uma compreensão de si a partir da sua história pessoal como de uma compreensão que considera a história da sociedade da qual participa. A ideia, então, é romper com a dicotomia indivíduo-sociedade e permitir que a pessoa construa uma compreensão de si como </span><b>ser singular em relação </b><span style="font-weight: 400;">com aqueles que coexistem com ela e com a sociedade como um todo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda sobre o processo psicoterápico Rogers indica:</span></p>
<h5><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Este processo implica uma certa maleabilidade na capacidade de apreensão dos mapas cognitivos da experiência. Partindo de um ponto em que a experiência é construída em quadros rígidos , captados como exteriores, o paciente caminha para um desenvolvimento que o modifica para a construção maleável de significações da experiência, construções que cada nova experiência modifica.</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; (1975:67)</span></h5>
<p><span style="font-weight: 400;">Em geral, o sofrimento psicológico está relacionado a compreensões de si que foram construídas ao longo da vida da pessoa, mas que não são coerentes com o momento atual de sua existência. Desse modo, o processo de psicoterapia visa colocar essas compreensões desatualizadas sob uma perspectiva atual, promovendo elaboração de novos sentidos, mais flexíveis, para as compreensões antes enrijecidas. </span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;">Para finalizar…</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Gosto da proposta  de Mendonça (2013) que, inspirada na compreensão humanista, indica que um projeto terapêutico humanista (e eu acrescento, existencial), &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">deve ser guiado pelo propósito de promover </span></i><b><i>duas dimensões da cura existencial&#8221;.</i></b><span style="font-weight: 400;"> (p.86)</span></p>
<ol>
<li><b>A permissão dada pelo cliente para deixar de ser aquilo que está sendo. </b><span style="font-weight: 400;">Ao longo de nossa vida, desenvolvemos diversas crenças e compreensões a nosso respeito que formam nossa identidade. É a partir delas que nossa vida adquire uma certa estabilidade, pois a identidade permite o reconhecimento de nossa realidade sem que tenhamos que responder sempre as mesmas perguntas (quem sou, quais meus valores, quais relações importantes, etc). A partir dos questionamentos proporcionados pela psicoterapia, algumas destas crenças e compreensões são revisadas e podem sofrer alterações. Este processo pode parecer assustador e requer tempo para que a pessoa em terapia se autorize a seguir em frente com essas mudanças.</span></li>
<li><b>Acesso do cliente à capacidade de estabelecer relações de intimidade no espaço próximo de convivência.</b><span style="font-weight: 400;"> Nem sempre estabelecemos relações genuínas com as pessoas à nossa volta. Muitas vezes, nos conectamos com os outros a partir do papel que eles desempenham em nossas vidas ou a partir daquilo que eles nos proporcionam. Com o desenrolar do processo psicoterápico, o cliente terá a oportunidade de tomar consciência de suas relações e, aos poucos, substituir relações utilitárias por outras mais genuínas, com mais abertura para a intimidade. </span></li>
</ol>
<p><span style="font-weight: 400;">Gostaria de ressaltar que, neste texto, busquei apenas apresentar algumas reflexões a respeito do enfoque que adoto em minha prática como psicoterapeuta. Como apaixonado pela epistemologia, fiquei incomodado em não apresentar detalhadamente como faço a costura dos diferentes autores que cito no texto, pois alguns deles são de matrizes de pensamentos diferentes entre si. No entanto, apesar de meu incômodo, busquei simplificar esta apresentação sem a pretensão de impor ao texto um caráter mais acadêmico. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, me coloco à disposição para quem tiver interesse em conversar sobre a articulação epistemológica dos autores aqui citados. </span></p>
<p><b><i>Espero que este texto tenha servido para apresentar um pouco sobre minha forma de compreender a psicoterapia e de suscitar alguns questionamentos em quem se interessa pelo tema.</i></b></p>
<p><b><i>Até o próximo!</i></b></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b><i>Referências:</i></b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">GONZÁLEZ REY, F.</span></i><b><i> Pesquisa Qualitativa em Psicologia.</i></b><i><span style="font-weight: 400;"> São Paulo: Thomson, 2002.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">MARTÍN-BARÓ, I. O Papel do Psicólogo. </span></i><b><i>Estudos de Psicologia</i></b><i><span style="font-weight: 400;"> (Natal) 2(1), 1997.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">MENDONÇA, M. M. A psicologia humanista e a abordagem gestáltica. em: FRAZÃO, L. M; FUKUMITSU, K. O. </span></i><b><i>Gestalt-terapia – fundamentos epistemológicos e influências filosóficas. </i></b><i><span style="font-weight: 400;">São Paulo: Summus, 2013.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">ROGERS, C. </span></i><b><i>Tornar-se Pessoa. </i></b><i><span style="font-weight: 400;">São Paulo: Livraria Martins Fontes, 1975.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">SARTRE, J. P. O Existencialismo é um humanismo. </span></i><b><i>Coleção os Pensadores.</i></b><i><span style="font-weight: 400;"> 3ªed. São Paulo: Nova Cultural, 1987.<br />
</span></i><i><span style="font-weight: 400;">SARTRE, J. P. </span></i><b><i>O ser e o nada – ensaio de ontologia fenomenológica.</i></b><i><span style="font-weight: 400;"> Petrópolis: Vozes, 1997. </span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2022/07/21/psicoterapia-acolhimento-e-pratica-de-liberdade-para-encontrar-a-si-em-meio-ao-mundo/">Psicoterapia: acolhimento e prática de liberdade para encontrar a si em meio ao mundo</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
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