Márcio Souza
“Bem mais que o tempo que nós perdemos
Ficou pra trás também o que nos juntou”
Resposta – Skank
Em minha experiência atendendo casais, é comum escutar falas como:
“Ele não divide as tarefas da casa comigo, fica tudo em cima de mim! E quando peço para fazer alguma coisa, precisa ver a má vontade e a cara amarrada que ele faz”
“Ela não entende quando falo que precisamos economizar. Enquanto eu estou preocupado em economizar para a aposentadoria, ela quer uma casa maior, um carro novo.”
“Ele não me ouve! Quero dividir meus sentimentos com ele e, quando percebo, parece que ele está com a cabeça em outro planeta”
“Eu já falei que não quero mais um filho! Ela não entende que a gente já gasta muito com o Joaquim? Ter mais um filho pode comprometer o padrão de vida que queremos ter.”
Quem divide a vida com outra pessoa sabe: o conflito não é um erro de percurso. Na verdade, ele é o resultado inevitável de duas histórias, expectativas e necessidades diferentes tentando ocupar o mesmo espaço.
Diferente do que muita gente pensa, o desentendimento não é um sinal de fracasso. Muitas vezes, é justamente no atrito que surge a chance de ajustar o caminho e entender, de verdade, o mundo emocional do outro. O problema real não é a briga em si, mas o que fazemos com ela quando o diálogo acaba.
O perigo do “conflito silencioso”
Percebo que o sinal de alerta acende quando o conflito deixa de ser um evento pontual e vira o nosso “modo de operação“. Sabe aquelas pequenas frustrações que guardamos para não criar confusão? Elas raramente desaparecem; elas se acumulam.
“Ela não reconhece meu esforço, parece que nada é suficiente!”
“Toda vez que o procuro ele diz que está cansado. Quer saber, deixa para lá, ele surta toda vez que toco no assunto”
Aos poucos, paramos de reagir ao que o parceiro disse hoje e passamos a reagir ao peso de tudo o que ficou guardado. Quando nos sentimos ignorados ou pouco reconhecidos, o nosso instinto é a autoproteção. E é aqui que o abismo começa a abrir. Essa proteção aparece de várias formas:
- Aquela ironia “fina” no meio de uma conversa.
- Uma cobrança excessiva por atenção.
- O silêncio punitivo.
- O distanciamento emocional (“tanto faz”).
Ninguém acorda querendo ferir o outro. Essas reações são, no fundo, pedidos desesperados de socorro diante do medo da rejeição ou da insegurança. O paradoxo? Em vez de aproximar, elas empurram o parceiro para longe.
O Ciclo que Aprisiona
É muito comum cairmos no que chamo de “dança do desencontro“: um dos parceiros cobra proximidade de forma intensa; o outro, sentindo-se pressionado ou acusado, recua. Quanto mais um pressiona, mais o outro foge. E quanto mais o outro foge, mais o primeiro intensifica a cobrança.
“Para mim é importante falar sobre o que está acontecendo. Mas quando tento conversar, ele diz que não é o momento ou simplesmente muda de assunto.”
“Eu tento controlar melhor as coisas da nossa rotina para que tudo funcione bem, mas isso parece fazer com que ela se irrite e queira fazer tudo do próprio jeito.”
Nesse estágio, a relação deixa de ser um porto seguro e vira um campo de batalha — ou pior, um deserto. Começamos a rotular o outro: “Ele é frio” ou “Ela é crítica demais”. A relação perde a vitalidade e a comunicação passa a ser puramente logística: quem busca as crianças, o que vamos jantar, as contas a pagar.
Acredito que a solidão a dois é uma das experiências mais dolorosas que existem. É estar ao lado de alguém, mas sentir que a intimidade — aquela possibilidade de compartilhar medos, desejos e vulnerabilidades — virou uma lembrança do passado.
O Caminho de Volta: A Visão da Gestalt-terapia
“O contato ocorre quando há auto-suporte e suporte mútuo, permitindo que diferenças emerjam sem confluência destrutiva – comum em casamentos, onde brigas precedem o verdadeiro encontro” – Fritz Perls
Muitos casais chegam ao consultório esperando que eu decida quem está certo. Mas a Terapia de Casal não é um tribunal. O foco não é encontrar culpados, mas entender como a relação passou a funcionar dentro desses ciclos repetitivos.
Na Gestalt-terapia, olhamos para a relação como um “campo compartilhado“. O que acontece entre o casal não pertence a um ou a outro, mas à forma como os dois se encontram (ou se evitam). O trabalho é ampliar a awareness (consciência):
- Como eu me sinto quando você se afasta?
- O que eu faço que acaba provocando a sua defesa?
- Quais são as necessidades reais por trás das minhas críticas?
O objetivo não é eliminar o conflito para sempre — isso seria irreal. O objetivo é recuperar a capacidade de se encontrar verdadeiramente. Quando paramos de ser adversários e voltamos a ser parceiros que compartilham vulnerabilidades, o conflito deixa de ser um mecanismo de afastamento e volta a ser um espaço de negociação e renovação.
Às vezes, o que o casal precisa não é aprender algo revolucionário, mas resgatar algo que se perdeu no barulho da rotina: a coragem de ser visto e a generosidade de realmente ouvir.
“O ser humano se torna eu pela relação com o você, à medida que me torno eu, digo você. Todo viver real é encontro.” – Martin Buber
Você sente que a sua relação se tornou mais logística do que encontro? Talvez seja o momento de redescobrir o caminho de volta. Vamos conversar?
Referências
COSTA, C. B.; DELATORRE, M. Z.; WAGNER, A.; MOSMANN, C. P.
Terapia de casal e estratégias de resolução de conflitos: uma revisão sistemática. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 37, n. 2, p. 437–449, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/fCjtdgfd5zR9bqXpQTs9fqm/ Acesso em: 13 mar. 2026.
VALE, K. S. A
Relação Conjugal em Debate: uma análise gestática. 2011. 96f. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Universidade Federal do Pará. 2011. Disponível em: https://repositorio.ufpa.br/server/api/core/bitstreams/09b97b44-26a9-4821-8e85-6234acb6aaf6/content Acesso em 13 mar. 2026.
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