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	<title>Arquivos Psicoterapia - Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</title>
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	<description>Psicólogo, coach de carreiras, orientador vocacional e psicoterapeuta</description>
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	<title>Arquivos Psicoterapia - Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</title>
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		<title>Entre dois mundos: psicoterapia online para brasileiros no exterior</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Oct 2025 17:49:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Caminhos para fortalecer sua identidade e sentido de pertencimento, onde quer que você esteja Por Márcio Melo Guimarães de Souza “É preciso partir, é preciso chegar. É preciso recomeçar.” — Cecília Meireles, em Canção (1939) Partir é sempre mais do que mudar de lugar. É atravessar mundos — externos e internos —, deixar para trás [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Caminhos para fortalecer sua identidade e sentido de pertencimento, onde quer que você esteja</em></p>
<p><strong>Por Márcio Melo Guimarães de Souza</strong></p>
<p>“É preciso partir, é preciso chegar.<br />
É preciso recomeçar.”</p>
<p>— Cecília Meireles, em Canção (1939)</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Partir é sempre mais do que mudar de lugar. É atravessar mundos — externos e internos —, deixar para trás o que era conhecido e, aos poucos, reinventar o próprio modo de existir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No consultório online, escuto muitas histórias de brasileiros que vivem essa travessia. Histórias de quem busca um novo começo, mas descobre que recomeçar também exige encontrar-se novamente.</span></p>
<h2>O início da psicoterapia online no Brasil</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Tenho experiência em atendimentos psicológicos online desde </span><b>2012</b><span style="font-weight: 400;">, quando o </span><b>Conselho Federal de Psicologia (CFP) </b><span style="font-weight: 400;">publicou a primeira resolução que autorizava o uso dessa modalidade para </span><b>aconselhamento e atendimentos breves</b><span style="font-weight: 400;"> (CFP, 2012). Naquele momento, a ideia de fazer terapia por vídeo ainda era vista com desconfiança.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitos se perguntavam se seria possível construir vínculo, sustentar o encontro e experimentar a presença do outro por meio de uma tela. Havia receio de que a tecnologia criasse distância, de que o contato humano fosse substituído por algo impessoal e frio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De lá para cá, muita coisa mudou — e não apenas do ponto de vista técnico. </span><b>O CFP ampliou a regulamentação em 2018</b><span style="font-weight: 400;">, permitindo que os atendimentos psicológicos completos pudessem ser realizados de forma online, desde que o profissional estivesse </span><b>cadastrado na plataforma e-Psi </b><span style="font-weight: 400;">e seguisse rigorosamente os princípios éticos da profissão (CFP, 2018).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante a pandemia de COVID-19, essa modalidade se tornou essencial. Para muitos pacientes, foi a única forma possível de continuar o processo terapêutico. Para outros, foi a porta de entrada para iniciar o cuidado emocional. Desde então, sigo atendendo pessoas de diversas regiões do Brasil e de diferentes países — </span><b>Europa, Estados Unidos, Austrália e América Latina.</b><span style="font-weight: 400;"> O que antes era visto como exceção tornou-se parte viva da clínica contemporânea.</span></p>
<h2>Entre a tela e o encontro: especificidades do atendimento online</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">A psicoterapia online exige uma atenção ética e técnica muito particular. O </span><b>sigilo</b><span style="font-weight: 400;"> e a </span><b>privacidade</b><span style="font-weight: 400;"> são pilares inegociáveis. O psicólogo precisa assegurar que as informações estejam protegidas, que o ambiente seja reservado e que o vínculo terapêutico se mantenha livre de interferências externas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fundamental que o paciente compreenda os limites e possibilidades desse formato: o que muda, o que permanece, o que precisa ser cuidado com ainda mais delicadeza.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><b>Código de Ética Profissional</b><span style="font-weight: 400;"> continua sendo o eixo que sustenta a prática. Ele nos lembra que toda atuação psicológica deve respeitar a </span><b>dignidade</b><span style="font-weight: 400;">, a </span><b>autonomia</b><span style="font-weight: 400;"> e a </span><b>singularidade</b><span style="font-weight: 400;"> da pessoa. No caso do atendimento online, isso inclui o cuidado com o </span><b>consentimento informado</b><span style="font-weight: 400;">, a </span><b>segurança digital</b><span style="font-weight: 400;"> e a </span><b>responsabilidade técnica</b><span style="font-weight: 400;"> de avaliar quando o atendimento à distância é ou não adequado (CFP, 2020).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas há um aspecto que as resoluções não conseguem capturar: a </span><b>presença</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em Gestalt-terapia, presença não é apenas estar fisicamente diante do outro, mas </span><b>disponibilizar-se ao encontro</b><span style="font-weight: 400;"> — estar inteiro na experiência, sensível às nuances do contato. A presença se manifesta no tom de voz, no silêncio compartilhado, no olhar atento, mesmo mediado pela tela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em tempos de dispersão, talvez o ambiente virtual exija ainda mais</span><b> intencionalidade de presença </b><span style="font-weight: 400;">do que o encontro presencial. Quando há autenticidade, a tecnologia não separa; ela apenas oferece outro meio para o diálogo humano.</span></p>
<h2>Brasileiros no exterior: entre o novo e o familiar</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">“Não sou brasileiro<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Não sou estrangeiro</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não sou de nenhum lugar<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Sou de lugar nenhum.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Titãs, “Lugar Nenhum” (1987)</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esses versos traduzem com simplicidade a sensação de quem vive entre fronteiras — físicas e simbólicas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos últimos anos, tenho acompanhado um número crescente de </span><b>brasileiros vivendo fora do país</b><span style="font-weight: 400;">. As motivações para mudar do Brasil são as mais diversas: paixões por pessoas de outra nacionalidade, oportunidades de trabalho, estágios acadêmicos, pós-graduações e até mesmo a tentativa de iniciar a vida do zero em outra realidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A migração, embora muitas vezes motivada pela esperança e pelo desejo de recomeço, mobiliza um campo emocional intenso: o entusiasmo diante da nova vida se mistura à solidão, à saudade e à sensação de não pertencer completamente a lugar algum.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse sentimento de desenraizamento surge porque o processo migratório envolve</span><b> rupturas sucessivas — culturais, linguísticas e afetivas </b><span style="font-weight: 400;">— que desafiam a continuidade da identidade e o modo como o sujeito se reconhece no mundo (Bhugra, 2004).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Adaptar-se a uma nova cultura é uma tarefa delicada. O migrante precisa encontrar um </span><b>equilíbrio entre integrar-se ao novo contexto e preservar suas origens</b><span style="font-weight: 400;">. Nesse movimento, muitos se esforçam para se ajustar, mas acabam pagando o preço de </span><b>silenciar partes de si</b><span style="font-weight: 400;"> — uma estratégia de sobrevivência que, aos poucos, pode gerar fragmentação e perda de autenticidade (Kuo, 2014).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre as dificuldades que observo nos pacientes que vivem fora do Brasil estão as </span><b>barreiras culturais e linguísticas</b><span style="font-weight: 400;">. Rotinas simples, tão bem integradas ao nosso cotidiano, acabam se tornando objeto de um novo aprendizado — de uma nova adaptação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A questão é que essas pequenas vivências, quando se acumulam, costumam gerar </span><b>cansaço, solidão e saudade da terra natal</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Somam-se a isso as </span><b>classificações étnicas e raciais </b><span style="font-weight: 400;">que não correspondem à forma como o sujeito se percebe — como ser identificado genericamente como “latino” ou “hispânico” —, o que intensifica o sentimento de deslocamento e dificulta a afirmação de uma identidade própria.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse sentimento é ampliado quando surge a experiência direta da </span><b>xenofobia</b><span style="font-weight: 400;">, que tem crescido em diferentes países e atinge de modo profundo o senso de dignidade e pertencimento de quem migra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como destacam estudos sobre o i</span><b>mpacto psicológico da migração </b><span style="font-weight: 400;">(OMS/IOM, 2023), essas experiências podem gerar vulnerabilidade, mas também abrir espaço para </span><b>resiliência e reconstrução</b><span style="font-weight: 400;">. Migrar é, de algum modo, reorganizar o self diante de um campo totalmente novo — um campo em que antigas referências se desfazem e novas formas de ser precisam nascer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na psicoterapia, esse processo encontra um </span><b>espaço de elaboração e reconexão</b><span style="font-weight: 400;">. A clínica pode se tornar o lugar onde o paciente volta a se ouvir em sua língua, revisita suas histórias e redescobre maneiras de habitar o mundo. Aos poucos, o estrangeiro que há em si encontra tradução e sentido. E o que antes parecia perda começa a se revelar também como possibilidade: a de </span><b>viver entre culturas sem perder a si mesmo</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<h2>Gestalt-terapia e a noção de campo: o mundo compartilhado</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Na </span><b>Gestalt-terapia</b><span style="font-weight: 400;">, compreendemos que o ser humano não existe isolado: ele se constitui no </span><b>campo relacional</b><span style="font-weight: 400;">. O self é um processo vivo de contato que se forma e se transforma na relação com o ambiente. Quando uma pessoa muda de país, o campo muda junto — novas linguagens, valores e modos de vida passam a compor a experiência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O migrante, portanto, não leva apenas sua história, mas também o modo como aprendeu a estar no mundo — e é esse modo que, diante de um novo campo, precisa se reorganizar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas vezes, o paciente se vê dividido entre o desejo de se adaptar e o medo de perder a própria singularidade. Um dos riscos desse movimento é a </span><b>confluência</b><span style="font-weight: 400;"> — quando o sujeito tenta se fundir ao meio para ser aceito, abrindo mão de aspectos fundamentais de sua identidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse ponto, o papel do terapeuta é sustentar o espaço de diferenciação e presença: ajudar o paciente a reconhecer o que nele é autêntico e o que surgiu apenas como forma de sobrevivência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É também por isso que o atendimento com um </span><b>terapeuta brasileiro</b><span style="font-weight: 400;"> pode fazer diferença.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não apenas porque a língua portuguesa permite expressar nuances afetivas e sutilezas emocionais, mas porque o terapeuta compartilha </span><b>referências culturais e simbólicas </b><span style="font-weight: 400;">que tornam o campo mais familiar e acolhedor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando o paciente fala, ele não precisa traduzir suas metáforas ou justificar seu jeito de sentir; há um </span><b>mundo compartilhado</b><span style="font-weight: 400;"> que permite ao terapeuta compreender gestos, expressões e silêncios que são próprios da cultura brasileira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do ponto de vista gestáltico, isso significa que o </span><b>campo terapêutico se torna mais orgânico e congruente</b><span style="font-weight: 400;">. A compreensão mútua não depende apenas da técnica, mas da sintonia entre as histórias e significados que ambos carregam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A terapia online, nesse contexto, é uma </span><b>ponte simbólica</b><span style="font-weight: 400;"> que reconecta o sujeito ao seu campo de origem, oferecendo um espaço de fala onde ele pode se ouvir novamente como quem pertence.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Quem sabe isso quer dizer amor,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">estrada de fazer o sonho acontecer.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Milton Nascimento e Lô Borges, “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” (1972)</span></p>
<h2>A clínica como lugar de reconexão</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um mundo cada vez mais globalizado, a psicoterapia online amplia as possibilidades de encontro. A tela, quando habitada com presença, pode se tornar um </span><b>espaço de enraizamento.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao poder falar em português, expressar-se sem censura linguística e ser compreendido por alguém que partilha a mesma matriz cultural, o paciente reencontra partes de si que estavam dispersas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O processo terapêutico, então, torna-se uma travessia: o </span><b>self</b><span style="font-weight: 400;"> se reorganiza, integrando o que muda e o que permanece. A experiência migratória deixa de ser apenas adaptação e passa a ser </span><b>criação de novas formas de pertencimento</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Atender brasileiros que vivem fora do país é, para mim, acompanhar esse movimento de reconstrução — o nascimento de um novo modo de ser que inclui todas as margens que a pessoa atravessou.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A psicoterapia online, nesse sentido, é mais do que uma ferramenta: é um </span><b>lugar de encontro entre mundos</b><span style="font-weight: 400;">, onde a subjetividade pode respirar entre línguas, geografias e identidades, sem precisar escolher uma delas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É a possibilidade de </span><b>mudar de território sem perder a si mesmo </b><span style="font-weight: 400;">— de continuar sendo quem se é, mesmo à distância.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Não sei… se a vida é curta<br />
</span><span style="font-weight: 400;">ou longa demais para nós,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">mas sei que nada<br />
</span><span style="font-weight: 400;">do que vivemos tem sentido,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">se não tocamos o coração das pessoas.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— Cora Coralina, em “Cântico da Volta” (1969)</span></p>
<h2>Referências completas</h2>
<p><span style="font-weight: 400;">BHUGRA, Dinesh. </span><i><span style="font-weight: 400;">Migration and Mental Health: A Review of the Literature.</span></i><span style="font-weight: 400;"> World Psychiatry, v. 3, n. 3, p. 168–175, 2004.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). </span><i><span style="font-weight: 400;">Resolução CFP nº 011/2012.</span></i><span style="font-weight: 400;"> Dispõe sobre a prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologias da informação e da comunicação. Brasília: CFP, 2012.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). </span><i><span style="font-weight: 400;">Resolução CFP nº 011/2018</span></i><span style="font-weight: 400;">. Regulamenta de forma ampliada os serviços psicológicos prestados por meios tecnológicos e institui o cadastro e-Psi. Brasília: CFP, 2018.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). </span><i><span style="font-weight: 400;">Resolução CFP nº 004/2020</span></i><span style="font-weight: 400;">. Dispõe sobre os atendimentos psicológicos online durante o período da pandemia de COVID-19. Brasília: CFP, 2020.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">CIRINEU, L.; ASSAD, M.; BRAGA, M. “Estrangeiro nenhum se sente parte do país em que mora”: cotidiano de pessoas migradas e refugiadas no Brasil a partir de diálogos com a terapia ocupacional e os processos de corporeidade. </span><i><span style="font-weight: 400;">Cadernos de Terapia Ocupacional da UFSCar</span></i><span style="font-weight: 400;">, v. 33, n. 1, 2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">KUO, Ben C. H. Coping, Acculturation, and Psychological Adaptation Among Migrants: A Theoretical and Empirical Review and Synthesis of the Literature. Frontiers in </span><i><span style="font-weight: 400;">Psychology</span></i><span style="font-weight: 400;">, v. 5, 2014.</span><span style="font-weight: 400;">WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO); INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR MIGRATION (IOM). </span><i><span style="font-weight: 400;">The Psychological Impact of Migration: Vulnerabilities and Resilience. </span></i><span style="font-weight: 400;">Geneva: WHO/IOM, 2023.</span></p>
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		<title>Amar também é coisa de homem: diálogos entre bell hooks e a Gestalt-terapia</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2025/07/30/amar-tambem-e-coisa-de-homem-dialogos-entre-bell-hooks-e-a-gestalt-terapia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Jul 2025 13:33:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Márcio Souza Cada vez mais, homens chegam ao meu consultório trazendo dúvidas, angústias, dores que, muitas vezes, nem sabem nomear. Chegam com dificuldades em lidar com seus afetos, nos relacionamentos, solidão — e, muitas vezes, com uma sensação estranha de estarem desconectados de si mesmos. Alguns sabem exatamente o que sentem, mas não encontram espaço [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b>Márcio Souza</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cada vez mais, homens chegam ao meu consultório trazendo dúvidas, angústias, dores que, muitas vezes, nem sabem nomear. Chegam com dificuldades em lidar com seus afetos, nos relacionamentos, solidão — e, muitas vezes, com uma sensação estranha de estarem desconectados de si mesmos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alguns sabem exatamente o que sentem, mas não encontram espaço onde possam expressar isso sem medo. Outros nem sabem mais o que sentem, como se, em algum momento da vida, tivessem sido obrigados a desligar essa parte de si.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitos carregam marcas profundas de uma história que os ensinou que </span><b>ser homem é não sentir. Que demonstrar afeto, pedir colo, dizer “eu te amo” ou simplesmente chorar é sinônimo de fraqueza, de fracasso, de vergonha.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, diante disso, uma pergunta, às vezes silenciosa, atravessa o processo terapêutico de muitos homens:</span></p>
<p>É possível amar sendo homem? É possível amar sem abrir mão de si?</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escritora e pensadora bell hooks, em seu livro Tudo sobre o Amor, nos lembra que essa não é uma pergunta simples — afinal, sequer sabemos direito o que é amor. Vivemos em uma cultura que fala muito sobre amor, mas pouco sabe defini-lo. E isso gera confusão, frustração e sofrimento. hooks propõe que amor não é apenas um sentimento, nem algo que surge espontaneamente. </span><b>Amor é ação, é prática, é um compromisso ético com o cuidado, com o respeito, com a responsabilidade e com o crescimento — próprio e do outro.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa visão dialoga profundamente com os princípios da </span><b>Gestalt-terapia</b><span style="font-weight: 400;">, que entende o amor como algo que acontece no encontro genuíno — quando duas pessoas estão dispostas a se perceber, se acolher e se afetar, cada uma sustentando sua própria inteireza. O amor, na Gestalt, é uma atitude de presença, de abertura e de disponibilidade para o outro, sem precisar controlar, consertar ou dominar.</span></p>
<h4>O amor como prática de cuidado e presença</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Gestalt-terapia, o amor é visto como uma experiência que se dá no contato verdadeiro. Ele não surge de discursos, nem de expectativas idealizadas, </span><b>mas do encontro entre duas pessoas que se permitem estar presentes uma para a outra.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Amar, nesse sentido, é poder olhar para o outro e dizer, de forma implícita: </span><b>“Eu te vejo. E te aceito como você é, com seus medos, suas dores, suas potências.”</b><span style="font-weight: 400;"> Isso exige autenticidade, coragem e compromisso — tanto na vida quanto na relação terapêutica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na psicoterapia com homens, presencio como essa visão é profundamente transformadora. Porque muitos deles aprenderam que amar é se submeter, é perder poder, é se fragilizar. E, aos poucos, vão percebendo que, na verdade, </span><b>amar é um gesto de força e de presença. É escolher se implicar na própria vida e nas próprias relações.</b></p>
<h4>Rompendo com o silêncio afetivo</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante gerações, a masculinidade foi construída sobre um silêncio afetivo. Nós homens, somos ensinados desde meninos que não podemos demonstrar tristeza, medo ou vulnerabilidade. Aprendemos a vestir a armadura da racionalidade, da força, do controle.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Só que essa armadura tem um preço: o preço do afastamento de nós e dos outros. Do isolamento. Da solidão emocional. No consultório, esse distanciamento aparece de muitas formas: dificuldade em nomear sentimentos, corpos tensos, desconexão com as próprias necessidades emocionais, dificuldade em se deixar cuidar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Gestalt-terapia, trabalhamos com o conceito de awareness — a capacidade de estar consciente da própria experiência no momento presente. É através desse despertar da consciência que começamos a perceber o que sentimos, o que precisamos, o que nos faz falta. E é justamente essa ampliação da awareness que nos permite retomar o contato com partes de nós mesmos que estavam adormecidas, esquecidas ou reprimidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sentir não é fraqueza. Sentir é o caminho para se tornar inteiro.</span></p>
<p><b>Sentir</b><span style="font-weight: 400;">, na verdade, </span><b>não nos fragiliza — nos humaniza</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<h4>Patriarcado: o modelo que também aprisiona os homens</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">bell hooks nos lembra que o patriarcado, embora se sustente historicamente em estruturas de poder, </span><b>também nos adoece</b><span style="font-weight: 400;">. Isso porque, ao impor um modelo de masculinidade baseado na dominação, na invulnerabilidade e na supressão dos afetos, o patriarcado desumaniza. Cobra que sejamos fortes o tempo todo, que não sintamos, que não precisemos, que não amemos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Gestalt-terapia contribui para desarmar esse modelo. No processo terapêutico, somos convidados a olhar para os padrões que fomos obrigados a internalizar — muitos deles inconscientes — e a perguntar: </span><b>“Isso realmente me serve? Isso me faz viver de forma mais inteira, mais verdadeira?”</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como afirmam Rodrigues e Rangel (2017), </span><b>“amar é uma atitude ética e estética, um modo de se responsabilizar pelo que se gera no campo relacional, sustentando a tensão entre aceitar o outro como ele é e, ao mesmo tempo, estar disponível para ser afetado e transformado pelo encontro”</b><span style="font-weight: 400;"> (p. 6).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na relação terapêutica, é possível experimentar uma nova forma de se relacionar — sem precisar dominar, controlar ou se omitir. Pode simplesmente </span><b>estar. Se vincular. Cuidar. E ser cuidado.</b></p>
<h4>Amor como expressão da autenticidade</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Gestalt, ser autêntico é ser capaz de se colocar no mundo com verdade. Sem máscaras. Sem papéis rigidamente impostos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quantos homens passaram a vida inteira tentando sustentar o personagem do invulnerável? Do que nunca erra, nunca sente, nunca precisa? E, nesse esforço, quantos se afastaram de si mesmos?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Amar, como lembra bell hooks, exige coragem para ser honesto consigo e com o outro. E essa honestidade só se torna possível quando podemos, de fato, </span><b>nos encontrar conosco — com nossos desejos, nossos limites, nossos medos e nossas potências</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A terapia se torna, então, esse lugar onde é possível treinar o músculo da autenticidade. E, consequentemente, do amor.</span></p>
<h4>Amor-próprio: a base para qualquer vínculo</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Nós homens aprendemos a medir nosso valor por aquilo que fazemos, produzimos ou conquistamos. A lógica do desempenho ocupa o lugar do amor-próprio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, na perspectiva gestáltica, isso não se sustenta. O que sustenta é a capacidade de nos reconhecermos como legítimos. De nos acolhermos com nossas potências, sim, mas também com nossos vazios, dores e contradições.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É no processo terapêutico que muitos homens vão, pela primeira vez,</span><b> experimentar uma forma de olhar para si que não seja atravessada pela cobrança, pelo julgamento ou pela autossuficiência forçada.</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É um processo de reaprendizado: </span><b>como é se amar? Como é se cuidar? Como é ser gentil consigo?</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, quando esse amor-próprio começa a se fortalecer, os vínculos também mudam. Porque já não se ama mais a partir da carência, da dependência ou da performance, mas sim a partir da inteireza.</span></p>
<h4>Amar de um jeito novo</h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Terapia também é um lugar de </span><b>aprender novas possibilidades de lidar e significar nossos afetos</b><span style="font-weight: 400;">. Construindo recursos para relações mais genuínas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">bell hooks nos lembra que amar é algo que se aprende. E os textos da Gestalt reforçam isso, mostrando que o amor nasce no contato, na escuta, na aceitação do outro e de si mesmo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na relação terapêutica, o homem tem a oportunidade de viver uma experiência onde ele não precisa provar nada, nem fingir ser quem não é.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ali, ele pode experimentar que é possível ser amado </span><b>sem precisar abrir mão de si</b><span style="font-weight: 400;">. E que, sim, </span><b>amar também é coisa de homem</b><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">REFERÊNCIAS:</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Almeida, T. R. D., &amp; Lima, D. M. A. (2023). O amor e as relações amorosas em Gestalt-terapia. IGT Na Rede 20(38). Disponível em &lt;https://igt.psc.br/ojs3/index.php/IGTnaRede/article/view/555/1197&gt;. acessos em  18  jun.  2025.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Editora Elefante, 2021</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">LEAL, Stela Regina Pinheiro Correa. Conjugalidade e amor: um olhar da Gestalt &#8211; Terapia na prática clínica. IGT rede,  Rio de Janeiro ,  v. 14, n. 26, p. 51-71,    2017 .   Disponível em &lt;http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1807-25262017000100004&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. acessos em  18  jun.  2025.</span></p>
<p>O post <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br/2025/07/30/amar-tambem-e-coisa-de-homem-dialogos-entre-bell-hooks-e-a-gestalt-terapia/">Amar também é coisa de homem: diálogos entre bell hooks e a Gestalt-terapia</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.marciosouzacoaching.com.br">Márcio Souza Coaching, Psicologia, Psicoterapia e Orientação</a>.</p>
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		<title>Aconselhamento Psicológico por Inteligência Artificial: Reflexões Éticas e Riscos Potenciais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Jun 2025 20:48:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo surgiu como resposta a um amigo que gosta de me mandar várias notícias sobre como as pessoas têm buscado a IA como forma de suporte emocional e, também, a partir de reflexões sobre relatos de pacientes que relataram ter usado a IA como uma forma de oráculo para tentar responder a questões existenciais [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Este artigo surgiu como resposta a um amigo que gosta de me mandar várias notícias sobre como as pessoas têm buscado a IA como forma de suporte emocional e, também, a partir de reflexões sobre relatos de pacientes que relataram ter usado a IA como uma forma de oráculo para tentar responder a questões existenciais presentes em suas vidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos últimos anos, a Inteligência Artificial (IA) tem sido incorporada em diversas áreas, incluindo a saúde mental. Embora a tecnologia possa oferecer recursos inovadores para o desenvolvimento de novas tecnologias para contextos empresariais e para pesquisas de diversas áreas, é fundamental refletir sobre os limites éticos e profissionais do seu uso, especialmente no aconselhamento psicológico.</span></p>
<h3>O Estudo do MIT e o Uso Emocional de Chatbots</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Um estudo recente do MIT Media Lab analisou os efeitos psicossociais do uso de chatbots em interações prolongadas. Os resultados sugerem que, embora alguns usuários relatem benefícios subjetivos como redução do estresse ou sensação de companhia, esses efeitos dependem fortemente da forma como a pessoa se engaja com o chatbot. Quando há uma tendência a antropomorfizar a IA — ou seja, tratá-la como se tivesse intenções humanas — os riscos aumentam, incluindo a formação de expectativas irreais sobre o que a tecnologia pode oferecer. Isso reforça a necessidade de compreendermos não apenas o que a IA faz, mas como os usuários projetam nela suas carências emocionais e desejos de conexão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo alerta que o uso emocional da IA, em vez de ser neutro, pode moldar significativamente a experiência subjetiva do usuário, com implicações tanto positivas quanto negativas. Essa constatação exige um olhar crítico sobre o lugar que os chatbots estão ocupando na vida de pessoas em sofrimento emocional.</span></p>
<h3>A Importância do Vínculo Humano na Psicologia</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">O processo terapêutico é construído a partir da relação entre o profissional e o cliente. Essa interação permite a compreensão profunda das experiências, emoções e contextos individuais. A IA, por mais avançada que seja, não possui consciência, empatia genuína ou a capacidade de estabelecer vínculos afetivos reais. Substituir o contato humano por interações com algoritmos compromete a qualidade do suporte por não conter aquilo que é mais essencial em nosso desenvolvimento: o vínculo com outros seres humanos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo do MIT mostra que, mesmo quando usuários sentem-se “ouvidos” por um chatbot, esse sentimento pode estar mais relacionado à projeção do que à realidade da interação. O risco é que, ao se engajar com um sistema que simula compreensão, a pessoa retarde a busca por ajuda profissional ou confunda respostas automatizadas com acolhimento real.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<h3>Responsabilidade Ética e Profissional</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Psicólogos são regidos por códigos de ética e supervisionados por conselhos profissionais, como o Conselho Federal de Psicologia (CFP). Essas diretrizes garantem a qualidade e a segurança dos atendimentos. A IA, por outro lado, não está sujeita a essas regulamentações, o que levanta preocupações sobre a responsabilidade em casos de orientações inadequadas ou prejudiciais.</span></p>
<h3>Privacidade e Confidencialidade dos Dados</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">O sigilo é um pilar fundamental na prática psicológica. Ao utilizar plataformas de IA, há riscos relacionados à coleta, armazenamento e uso indevido de informações pessoais e sensíveis. Sem regulamentações claras, os dados dos usuários podem ser expostos ou utilizados de maneira inadequada, comprometendo a confidencialidade.</span></p>
<h3>Para Quem Busca Ajuda: Quais São os Riscos Reais?</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas pessoas recorrem à IA em momentos de sofrimento emocional, solidão ou crise, na esperança de encontrar consolo ou orientação. No entanto, esse tipo de “aconselhamento” pode oferecer respostas genéricas, sem contexto clínico, e reforçar padrões de pensamento disfuncionais. Além disso, a falsa sensação de estar sendo compreendido pode retardar ou até impedir a busca por um profissional de verdade. O risco não está apenas na resposta inadequada, mas no afastamento progressivo do cuidado humano e ético.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estudo do MIT também destaca que o impacto de longo prazo do uso frequente de chatbots para suporte emocional ainda é incerto. O que hoje parece aliviar, amanhã pode alienar. A dependência de respostas automatizadas pode contribuir para uma redução da capacidade de autorreflexão profunda e para o empobrecimento dos vínculos interpessoais reais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A complexidade da experiência humana não pode ser reduzida a códigos ou algoritmos. A IA, por mais sofisticada que seja, opera dentro dos limites do que foi programada para fazer. Ela não vive, não sente, não sofre — apenas executa comandos baseados em padrões. Por isso, é incapaz de compreender os dilemas profundos que envolvem escolhas morais, crises existenciais e os paradoxos da vida. Apenas um ser humano, com sua bagagem de vivências, sensibilidade e consciência, é capaz de acolher a infinidade de possibilidades que constituem a existência humana. Confiar a uma máquina decisões que exigem escuta profunda, reflexão ética e presença real é não reconhecer o valor inestimável da condição humana no processo de cuidado.</span></p>
<h3>A Comunicação Não Verbal: Um Elemento Essencial na Psicoterapia</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A comunicação não verbal é um componente crucial na prática psicoterapêutica. Expressões faciais, postura corporal, movimentos oculares e padrões respiratórios fornecem ao terapeuta informações valiosas sobre o estado emocional do paciente. Esses sinais sutis, muitas vezes inconscientes, ajudam a construir uma compreensão mais profunda das experiências e sentimentos do indivíduo. A IA, limitada à análise de texto ou voz, não possui a capacidade de captar essas nuances, o que compromete a eficácia do atendimento terapêutico. A ausência dessa percepção pode resultar em interpretações superficiais, deixando de lado aspectos fundamentais do processo terapêutico.</span></p>
<h3>A Necessidade de Regulamentação Específica</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante dos avanços tecnológicos, é imprescindível que haja regulamentações específicas que orientem o uso da IA na saúde mental. Essas normas devem assegurar que qualquer ferramenta tecnológica utilizada respeite os princípios éticos da psicologia e não substitua o atendimento realizado por profissionais qualificados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP) expressou recentemente sua posição sobre o uso da inteligência artificial no contexto do aconselhamento psicológico. Em publicação oficial, o CRP-SP enfatizou a importância de que a aplicação de tecnologias de IA na Psicologia seja pautada por critérios éticos, técnicos e científicos. O Conselho reafirmou seu compromisso com a dignidade humana e a escuta qualificada, destacando que a prática psicológica deve sempre priorizar o bem-estar e os direitos dos indivíduos atendidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O CRP-SP alertou para os riscos de se substituir o contato humano por interações com algoritmos, ressaltando que a IA, por mais avançada que seja, não possui consciência, empatia genuína ou a capacidade de estabelecer vínculos afetivos reais. Dessa forma, o Conselho reforça que o uso de IA na Psicologia deve ser cuidadosamente avaliado, garantindo que não comprometa a qualidade e a ética do atendimento psicológico.</span></p>
<h3>Conclusão</h3>
<p><span style="font-weight: 400;">A Inteligência Artificial tem um papel relevante no avanço de diversas áreas, especialmente naquelas que dependem da automação, do processamento de grandes volumes de dados ou da precisão tecnológica. Seu uso deve ser incentivado nesses contextos, onde de fato pode gerar inovação e eficiência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, quando se trata de psicoterapia, é necessário reconhecer que as tecnologias que realmente contribuem para o cuidado são aquelas que fortalecem a escuta, o vínculo e as múltiplas formas de intervenção clínica que o psicólogo desenvolve com base em sua formação, responsabilidade ética e sensibilidade profissional. A prática terapêutica não pode ser automatizada sem comprometer sua essência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário da IA, o psicólogo é capaz de compreender as nuances da subjetividade humana e oferecer um cuidado que leva em conta a complexidade das experiências, dos contextos e dos dilemas individuais. Por isso, a atuação clínica deve permanecer como uma atividade conduzida por pessoas, com o suporte de tecnologias quando apropriado — mas sem que isso signifique substituir a relação terapêutica.</span></p>
<h5><b>referência: </b><a href="https://www-media-mit-edu.translate.goog/publications/how-ai-and-human-behaviors-shape-psychosocial-effects-of-chatbot-use-a-longitudinal-controlled-study/?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt&amp;_x_tr_pto=tc"><span style="font-weight: 400;">https://www-media-mit-edu.translate.goog/publications/how-ai-and-human-behaviors-shape-psychosocial-effects-of-chatbot-use-a-longitudinal-controlled-study/?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt&amp;_x_tr_pto=tc</span></a><span style="font-weight: 400;"> </span></h5>
<h5><a href="https://www.instagram.com/p/DKFt44YRSvk/?igsh=ejRubmoxMWZocnNy"><span style="font-weight: 400;">https://www.instagram.com/p/DKFt44YRSvk/?igsh=ejRubmoxMWZocnNy</span></a><span style="font-weight: 400;"> </span></h5>
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			</item>
		<item>
		<title>Psicoterapia no masculino: para além do gênero, a subjetividade como ponto de partida</title>
		<link>https://www.marciosouzacoaching.com.br/2023/12/13/psicoterapia-no-masculino-para-alem-do-genero-a-subjetividade-como-ponto-de-partida/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[marciosouza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Dec 2023 19:30:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em meu último artigo por aqui, abordei algumas barreiras iniciais enfrentadas por homens que buscam pela psicoterapia, dentre elas: a dificuldade de falar de si, o olhar utilitarista sobre a psicoterapia e o medo de que a psicoterapia vá mudar sua essência. Para quem não leu, fica o convite para visitar o texto anterior.  Neste [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">Em meu último artigo por aqui, abordei algumas barreiras iniciais enfrentadas por homens que buscam pela psicoterapia, dentre elas: a dificuldade de falar de si, o olhar utilitarista sobre a psicoterapia e o medo de que a psicoterapia vá mudar sua essência. Para quem não leu, fica o convite para visitar o texto anterior. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Neste texto, pretendo abordar alguns movimentos comuns esperados para aqueles homens que já venceram a barreira inicial de procurar a psicoterapia e encontram-se engajados em seus processos psicoterápicos. A inspiração para este texto vem de uma articulação entre minha experiência clínica e um capítulo de Carl Rogers chamado &#8220;Ser o que realmente se é: os objetivos pessoais vistos por um terapeuta&#8221;, de seu livro, &#8220;Tornar-se Pessoa&#8221;. Vamos lá?</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"><br />
Por detrás das fachadas</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
Para começar nossa conversa, não há outro modo, precisamos remontar ao início, à infância. Desde pequenos, nós, homens, somos ensinados a como devemos nos portar: não podemos demonstrar fraqueza, não podemos levar desaforos para casa, temos que sair &#8220;por cima&#8221; de qualquer desafio. Somos criados como se estivéssemos sendo preparados para uma guerra. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, não é à toa que o tema da masculinidade seja carregado de tantos estigmas. Como pessoas do sexo masculino, precisamos atender às expectativas sociais para que possamos ser considerados suficientemente homens.</p>
<p></span><span style="font-weight: 400;">O desfecho disso é que nos afastamos de nossas próprias necessidades e construímos fachadas que usamos para esconder aquilo que realmente sentimos e pensamos. Na maioria das vezes, esse processo é tão severo que simplesmente perdemos contato com essa dimensão mais íntima de nossos sentimentos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, por meio da psicoterapia e como resultado do processo terapêutico, os pacientes começam a perceber como estas fachadas oprimem e, então, começam a sentir necessidade de se afastar delas. Ao invés de buscar segurança nas obrigações do homem moldado pela tradição cultural, eles começam a buscar a própria compreensão de seus valores, de seus relacionamentos e passam a localizar sua vivência da masculinidade em sua própria vivência, de forma singular e íntima.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"><br />
Para além do que os outros esperam</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
Em seu texto, Rogers menciona as fachadas e, na minha compreensão, essas fachadas comportam uma grande quantidade de expectativas presentes na sociedade a respeito dos diferentes papéis sociais. No caso dos homens, há o imperativo socialmente imposto de se afastar de qualquer característica que seja considerada como feminina. Dialogar, entrar em contato com seus sentimentos e, eventualmente, conversar com alguém sobre eles é tido como sinal de fraqueza.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, existem expectativas sobre o ideal de masculinidade impostos histórica e culturalmente. O homem precisa ser forte, conter suas emoções, não ceder diante de pressões, ser conquistador, ser o provedor para sua família. Estas são apenas algumas das expectativas impostas e a pressão para cumpri-las pode se manifestar desde as formas mais sutis até outras bem explícitas e duras. E não há contexto social que esteja completamente livre delas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, a psicoterapia se torna tão importante, pois nela possibilitamos o espaço seguro e necessário para olhar criticamente para essas exigências sociais e perceber o quanto elas não atendem às nossas próprias necessidades. À medida que o paciente consegue se afastar das fachadas, o próximo passo é o de, gradualmente, começar a não dar mais importância a essas exigências sociais que não fazem sentido para ele e a se regular a partir de seus próprios critérios.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"><br />
Para a direção de si</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Então, você pode se perguntar: qual é o benefício de se fazer psicoterapia? Nas palavras de Rogers: </span></p>
<ul>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Em primeiro lugar, o paciente encaminha-se para a autonomia. Quer isto dizer que ele começa gradualmente a optar por objetivos que pretende atingir.
<p></span></li>
<li style="font-weight: 400;" aria-level="1"><span style="font-weight: 400;">Torna-se responsável por si mesmo. Decide das atividades e dos comportamentos que significam alguma coisa para si e dos que não significam nada.</span></li>
</ul>
<p><span style="font-weight: 400;">Por muitos anos, usei o texto de Rogers em uma disciplina que ministrava na universidade. Nessas situações, era frequente que algum aluno retrucasse à apresentação destes objetivos dizendo: &#8220;Professor, eu sou pai de família, trabalho, tomo minhas próprias decisões e pago o preço por elas. Como assim eu não sou autônomo e responsável?&#8221;.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Geralmente, minha resposta ia na direção de diferenciar autonomia e responsabilidade social da autonomia e responsabilidade psicológica. Evidentemente, se uma pessoa é legalmente considerada adulta, ela é considerada tanto autônoma quanto responsável. Mas podemos afirmar que essa pessoa também é autônoma e responsável psicologicamente?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando somos privados em nosso desenvolvimento de entrar em contato com nossas necessidades, suprimindo-as com exigências externas, com a necessidade de nos sentirmos aceitos, de fazermos parte de um grupo, aquilo que reconhecemos como autonomia é, na verdade, a internalização deste conjunto de demandas que passamos a reconhecer como nossos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa forma, no processo psicoterápico, ao fazer os dois movimentos citados anteriormente (abandonar as próprias fachadas e as expectativas dos outros), o paciente cria o espaço para um contato mais intenso e mais genuíno com seu mundo interno, com seus valores, suas motivações e seus sentimentos. Acredito que esta seja uma condição necessária para falarmos de autonomia psicológica, pois o paciente deixa de agir a partir de expectativas externas e passa a guiar-se a partir do contato com suas próprias necessidades e desejos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário do que acredita, esse não é um processo egoísta, pois segundo Rogers: &#8220;A liberdade de se ser a própria pessoa é uma liberdade cheia de responsabilidade&#8221;. Esta responsabilidade vem de nos reconhecermos como autores de nossas escolhas e, também, da empatia gerada pelo processo de reconhecimento de si. À medida que mergulhamos em nosso mundo interno, aumentamos nossas chances de reconhecer como genuínas as necessidades internas daqueles que nos cercam.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"><br />
Para a realidade do processo</span></h3>
<h4><span style="font-weight: 400;"><br />
&#8220;Os pacientes parecem encaminhar-se mais abertamente para uma realidade fluida, em processo e em mudança. Não ficam perturbados ao descobrir que não são os mesmos em cada dia que passa, que não sentem sempre os mesmos sentimentos em relação a uma dada experiência ou a uma dada pessoa, que nem sempre são consequentes.&#8221; </span></h4>
<h4 style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">(Rogers)</span></h4>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto estamos acuados, tentando atender às expectativas externas, a rigidez pode nos trazer a sensação de estabilidade. Isso aparece em falas como &#8220;sempre fui assim, não é agora que vou mudar&#8221;. A segurança vem do fato de nos conformarmos a um determinado padrão que internalizamos como sendo nosso. Neste caso, mudanças frequentes gerariam a necessidade de novas conformações e, consequentemente, novos conflitos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse modo, à medida que entramos em contato com nosso mundo interno e o assumimos como realidade válida, entendemos que nossas percepções, necessidades, desejos mudam conforme nos aprofundamos na reflexão sobre nós mesmos. A mudança passa a ser vista como inevitável &#8211; e até desejável -, pois não temos como prever como nos sentiremos e, muito menos, quais situações nos serão apresentadas pela vida. Viver é dinâmico e compreender isso pode ser libertador.</span></p>
<h3><span style="font-weight: 400;"><br />
Para finalizar</span></h3>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Para concluir, ao ler este texto, talvez você pode ter tido a sensação de que esses princípios servem para a psicoterapia como um todo, tanto de homens quanto de mulheres. Então digo que sim, sua impressão está correta, pois os objetivos gerais da psicoterapia são os mesmos, independentemente do gênero da pessoa atendida, o que muda são os elementos vivenciais trazidos por cada pessoa para a psicoterapia. Parece pouco, mas não é.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São justamente as vivências que diferenciam o conteúdo da psicoterapia, pois elas refletem nossa relação com o mundo e a forma como a compreendemos. É neste ponto que as psicoterapias de homens e mulheres se diferenciam, pois o gênero desempenha um papel importante na forma como somos inseridos do mundo, determinando o tipo de pressão social a que somos submetidos e também as possibilidades de enfrentamento diante destas pressões. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Portanto, ao contrário do que se defende no pensamento popular, não existe uma essência masculina e uma essência feminina. Masculinidade e feminilidade são construções sociais e históricas a partir das quais as subjetividades são construídas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo assim, trabalhar com o masculino no consultório significa tomar a subjetividade como ponto de partida, pois é nela que se encontram as vivências individuais que, em relação com contexto histórico mais amplo, preenchem os sentimentos e as ações de sentido.</span></p>
<p><b><i>Espero que tenham gostado deste conteúdo que compartilho aqui e que ele possa abrir portas e caminhos para mais perto de si. </i></b></p>
<p><b><i>Até o próximo! </i></b></p>
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