Amar também é coisa de homem: diálogos entre bell hooks e a Gestalt-terapia

Amar também é coisa de homem diálogos entre bell hooks e a Gestalt-terapia

Márcio Souza

Cada vez mais, homens chegam ao meu consultório trazendo dúvidas, angústias, dores que, muitas vezes, nem sabem nomear. Chegam com dificuldades em lidar com seus afetos, nos relacionamentos, solidão — e, muitas vezes, com uma sensação estranha de estarem desconectados de si mesmos.

Alguns sabem exatamente o que sentem, mas não encontram espaço onde possam expressar isso sem medo. Outros nem sabem mais o que sentem, como se, em algum momento da vida, tivessem sido obrigados a desligar essa parte de si.

Muitos carregam marcas profundas de uma história que os ensinou que ser homem é não sentir. Que demonstrar afeto, pedir colo, dizer “eu te amo” ou simplesmente chorar é sinônimo de fraqueza, de fracasso, de vergonha.

E, diante disso, uma pergunta, às vezes silenciosa, atravessa o processo terapêutico de muitos homens:

É possível amar sendo homem? É possível amar sem abrir mão de si?

A escritora e pensadora bell hooks, em seu livro Tudo sobre o Amor, nos lembra que essa não é uma pergunta simples — afinal, sequer sabemos direito o que é amor. Vivemos em uma cultura que fala muito sobre amor, mas pouco sabe defini-lo. E isso gera confusão, frustração e sofrimento. hooks propõe que amor não é apenas um sentimento, nem algo que surge espontaneamente. Amor é ação, é prática, é um compromisso ético com o cuidado, com o respeito, com a responsabilidade e com o crescimento — próprio e do outro.

Essa visão dialoga profundamente com os princípios da Gestalt-terapia, que entende o amor como algo que acontece no encontro genuíno — quando duas pessoas estão dispostas a se perceber, se acolher e se afetar, cada uma sustentando sua própria inteireza. O amor, na Gestalt, é uma atitude de presença, de abertura e de disponibilidade para o outro, sem precisar controlar, consertar ou dominar.

O amor como prática de cuidado e presença

Na Gestalt-terapia, o amor é visto como uma experiência que se dá no contato verdadeiro. Ele não surge de discursos, nem de expectativas idealizadas, mas do encontro entre duas pessoas que se permitem estar presentes uma para a outra.

Amar, nesse sentido, é poder olhar para o outro e dizer, de forma implícita: “Eu te vejo. E te aceito como você é, com seus medos, suas dores, suas potências.” Isso exige autenticidade, coragem e compromisso — tanto na vida quanto na relação terapêutica.

Na psicoterapia com homens, presencio como essa visão é profundamente transformadora. Porque muitos deles aprenderam que amar é se submeter, é perder poder, é se fragilizar. E, aos poucos, vão percebendo que, na verdade, amar é um gesto de força e de presença. É escolher se implicar na própria vida e nas próprias relações.

Rompendo com o silêncio afetivo

Durante gerações, a masculinidade foi construída sobre um silêncio afetivo. Nós homens, somos ensinados desde meninos que não podemos demonstrar tristeza, medo ou vulnerabilidade. Aprendemos a vestir a armadura da racionalidade, da força, do controle.

Só que essa armadura tem um preço: o preço do afastamento de nós e dos outros. Do isolamento. Da solidão emocional. No consultório, esse distanciamento aparece de muitas formas: dificuldade em nomear sentimentos, corpos tensos, desconexão com as próprias necessidades emocionais, dificuldade em se deixar cuidar.

Na Gestalt-terapia, trabalhamos com o conceito de awareness — a capacidade de estar consciente da própria experiência no momento presente. É através desse despertar da consciência que começamos a perceber o que sentimos, o que precisamos, o que nos faz falta. E é justamente essa ampliação da awareness que nos permite retomar o contato com partes de nós mesmos que estavam adormecidas, esquecidas ou reprimidas.

Sentir não é fraqueza. Sentir é o caminho para se tornar inteiro.

Sentir, na verdade, não nos fragiliza — nos humaniza.

Patriarcado: o modelo que também aprisiona os homens

bell hooks nos lembra que o patriarcado, embora se sustente historicamente em estruturas de poder, também nos adoece. Isso porque, ao impor um modelo de masculinidade baseado na dominação, na invulnerabilidade e na supressão dos afetos, o patriarcado desumaniza. Cobra que sejamos fortes o tempo todo, que não sintamos, que não precisemos, que não amemos.

A Gestalt-terapia contribui para desarmar esse modelo. No processo terapêutico, somos convidados a olhar para os padrões que fomos obrigados a internalizar — muitos deles inconscientes — e a perguntar: “Isso realmente me serve? Isso me faz viver de forma mais inteira, mais verdadeira?”

Como afirmam Rodrigues e Rangel (2017), “amar é uma atitude ética e estética, um modo de se responsabilizar pelo que se gera no campo relacional, sustentando a tensão entre aceitar o outro como ele é e, ao mesmo tempo, estar disponível para ser afetado e transformado pelo encontro” (p. 6).

Na relação terapêutica, é possível experimentar uma nova forma de se relacionar — sem precisar dominar, controlar ou se omitir. Pode simplesmente estar. Se vincular. Cuidar. E ser cuidado.

Amor como expressão da autenticidade

Na Gestalt, ser autêntico é ser capaz de se colocar no mundo com verdade. Sem máscaras. Sem papéis rigidamente impostos.

Quantos homens passaram a vida inteira tentando sustentar o personagem do invulnerável? Do que nunca erra, nunca sente, nunca precisa? E, nesse esforço, quantos se afastaram de si mesmos?

Amar, como lembra bell hooks, exige coragem para ser honesto consigo e com o outro. E essa honestidade só se torna possível quando podemos, de fato, nos encontrar conosco — com nossos desejos, nossos limites, nossos medos e nossas potências.

A terapia se torna, então, esse lugar onde é possível treinar o músculo da autenticidade. E, consequentemente, do amor.

Amor-próprio: a base para qualquer vínculo

Nós homens aprendemos a medir nosso valor por aquilo que fazemos, produzimos ou conquistamos. A lógica do desempenho ocupa o lugar do amor-próprio.

Mas, na perspectiva gestáltica, isso não se sustenta. O que sustenta é a capacidade de nos reconhecermos como legítimos. De nos acolhermos com nossas potências, sim, mas também com nossos vazios, dores e contradições.

É no processo terapêutico que muitos homens vão, pela primeira vez, experimentar uma forma de olhar para si que não seja atravessada pela cobrança, pelo julgamento ou pela autossuficiência forçada.

É um processo de reaprendizado: como é se amar? Como é se cuidar? Como é ser gentil consigo?

E, quando esse amor-próprio começa a se fortalecer, os vínculos também mudam. Porque já não se ama mais a partir da carência, da dependência ou da performance, mas sim a partir da inteireza.

Amar de um jeito novo

Terapia também é um lugar de aprender novas possibilidades de lidar e significar nossos afetos. Construindo recursos para relações mais genuínas.

bell hooks nos lembra que amar é algo que se aprende. E os textos da Gestalt reforçam isso, mostrando que o amor nasce no contato, na escuta, na aceitação do outro e de si mesmo.

Na relação terapêutica, o homem tem a oportunidade de viver uma experiência onde ele não precisa provar nada, nem fingir ser quem não é.

Ali, ele pode experimentar que é possível ser amado sem precisar abrir mão de si. E que, sim, amar também é coisa de homem.

 

REFERÊNCIAS:

Almeida, T. R. D., & Lima, D. M. A. (2023). O amor e as relações amorosas em Gestalt-terapia. IGT Na Rede 20(38). Disponível em <https://igt.psc.br/ojs3/index.php/IGTnaRede/article/view/555/1197>. acessos em  18  jun.  2025.

HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Editora Elefante, 2021

LEAL, Stela Regina Pinheiro Correa. Conjugalidade e amor: um olhar da Gestalt – Terapia na prática clínica. IGT rede,  Rio de Janeiro ,  v. 14, n. 26, p. 51-71,    2017 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1807-25262017000100004&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  18  jun.  2025.

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