Entre dois mundos: psicoterapia online para brasileiros no exterior

Homem sorridente com fones de ouvido em frente ao notebook durante sessão de psicoterapia online, representando brasileiros no exterior.

Caminhos para fortalecer sua identidade e sentido de pertencimento, onde quer que você esteja

Por Márcio Melo Guimarães de Souza

“É preciso partir, é preciso chegar.
É preciso recomeçar.”

— Cecília Meireles, em Canção (1939)

Partir é sempre mais do que mudar de lugar. É atravessar mundos — externos e internos —, deixar para trás o que era conhecido e, aos poucos, reinventar o próprio modo de existir.

No consultório online, escuto muitas histórias de brasileiros que vivem essa travessia. Histórias de quem busca um novo começo, mas descobre que recomeçar também exige encontrar-se novamente.

O início da psicoterapia online no Brasil

Tenho experiência em atendimentos psicológicos online desde 2012, quando o Conselho Federal de Psicologia (CFP) publicou a primeira resolução que autorizava o uso dessa modalidade para aconselhamento e atendimentos breves (CFP, 2012). Naquele momento, a ideia de fazer terapia por vídeo ainda era vista com desconfiança.

Muitos se perguntavam se seria possível construir vínculo, sustentar o encontro e experimentar a presença do outro por meio de uma tela. Havia receio de que a tecnologia criasse distância, de que o contato humano fosse substituído por algo impessoal e frio.

De lá para cá, muita coisa mudou — e não apenas do ponto de vista técnico. O CFP ampliou a regulamentação em 2018, permitindo que os atendimentos psicológicos completos pudessem ser realizados de forma online, desde que o profissional estivesse cadastrado na plataforma e-Psi e seguisse rigorosamente os princípios éticos da profissão (CFP, 2018).

Durante a pandemia de COVID-19, essa modalidade se tornou essencial. Para muitos pacientes, foi a única forma possível de continuar o processo terapêutico. Para outros, foi a porta de entrada para iniciar o cuidado emocional. Desde então, sigo atendendo pessoas de diversas regiões do Brasil e de diferentes países — Europa, Estados Unidos, Austrália e América Latina. O que antes era visto como exceção tornou-se parte viva da clínica contemporânea.

Entre a tela e o encontro: especificidades do atendimento online

A psicoterapia online exige uma atenção ética e técnica muito particular. O sigilo e a privacidade são pilares inegociáveis. O psicólogo precisa assegurar que as informações estejam protegidas, que o ambiente seja reservado e que o vínculo terapêutico se mantenha livre de interferências externas.

É fundamental que o paciente compreenda os limites e possibilidades desse formato: o que muda, o que permanece, o que precisa ser cuidado com ainda mais delicadeza.

O Código de Ética Profissional continua sendo o eixo que sustenta a prática. Ele nos lembra que toda atuação psicológica deve respeitar a dignidade, a autonomia e a singularidade da pessoa. No caso do atendimento online, isso inclui o cuidado com o consentimento informado, a segurança digital e a responsabilidade técnica de avaliar quando o atendimento à distância é ou não adequado (CFP, 2020).

Mas há um aspecto que as resoluções não conseguem capturar: a presença.

Em Gestalt-terapia, presença não é apenas estar fisicamente diante do outro, mas disponibilizar-se ao encontro — estar inteiro na experiência, sensível às nuances do contato. A presença se manifesta no tom de voz, no silêncio compartilhado, no olhar atento, mesmo mediado pela tela.

Em tempos de dispersão, talvez o ambiente virtual exija ainda mais intencionalidade de presença do que o encontro presencial. Quando há autenticidade, a tecnologia não separa; ela apenas oferece outro meio para o diálogo humano.

Brasileiros no exterior: entre o novo e o familiar

“Não sou brasileiro
Não sou estrangeiro

Não sou de nenhum lugar
Sou de lugar nenhum.”

— Titãs, “Lugar Nenhum” (1987)

Esses versos traduzem com simplicidade a sensação de quem vive entre fronteiras — físicas e simbólicas.

Nos últimos anos, tenho acompanhado um número crescente de brasileiros vivendo fora do país. As motivações para mudar do Brasil são as mais diversas: paixões por pessoas de outra nacionalidade, oportunidades de trabalho, estágios acadêmicos, pós-graduações e até mesmo a tentativa de iniciar a vida do zero em outra realidade. 

A migração, embora muitas vezes motivada pela esperança e pelo desejo de recomeço, mobiliza um campo emocional intenso: o entusiasmo diante da nova vida se mistura à solidão, à saudade e à sensação de não pertencer completamente a lugar algum.

Esse sentimento de desenraizamento surge porque o processo migratório envolve rupturas sucessivas — culturais, linguísticas e afetivas — que desafiam a continuidade da identidade e o modo como o sujeito se reconhece no mundo (Bhugra, 2004).

Adaptar-se a uma nova cultura é uma tarefa delicada. O migrante precisa encontrar um equilíbrio entre integrar-se ao novo contexto e preservar suas origens. Nesse movimento, muitos se esforçam para se ajustar, mas acabam pagando o preço de silenciar partes de si — uma estratégia de sobrevivência que, aos poucos, pode gerar fragmentação e perda de autenticidade (Kuo, 2014).

Dentre as dificuldades que observo nos pacientes que vivem fora do Brasil estão as barreiras culturais e linguísticas. Rotinas simples, tão bem integradas ao nosso cotidiano, acabam se tornando objeto de um novo aprendizado — de uma nova adaptação.

A questão é que essas pequenas vivências, quando se acumulam, costumam gerar cansaço, solidão e saudade da terra natal.

Somam-se a isso as classificações étnicas e raciais que não correspondem à forma como o sujeito se percebe — como ser identificado genericamente como “latino” ou “hispânico” —, o que intensifica o sentimento de deslocamento e dificulta a afirmação de uma identidade própria.

Esse sentimento é ampliado quando surge a experiência direta da xenofobia, que tem crescido em diferentes países e atinge de modo profundo o senso de dignidade e pertencimento de quem migra.

Como destacam estudos sobre o impacto psicológico da migração (OMS/IOM, 2023), essas experiências podem gerar vulnerabilidade, mas também abrir espaço para resiliência e reconstrução. Migrar é, de algum modo, reorganizar o self diante de um campo totalmente novo — um campo em que antigas referências se desfazem e novas formas de ser precisam nascer.

Na psicoterapia, esse processo encontra um espaço de elaboração e reconexão. A clínica pode se tornar o lugar onde o paciente volta a se ouvir em sua língua, revisita suas histórias e redescobre maneiras de habitar o mundo. Aos poucos, o estrangeiro que há em si encontra tradução e sentido. E o que antes parecia perda começa a se revelar também como possibilidade: a de viver entre culturas sem perder a si mesmo.

Gestalt-terapia e a noção de campo: o mundo compartilhado

Na Gestalt-terapia, compreendemos que o ser humano não existe isolado: ele se constitui no campo relacional. O self é um processo vivo de contato que se forma e se transforma na relação com o ambiente. Quando uma pessoa muda de país, o campo muda junto — novas linguagens, valores e modos de vida passam a compor a experiência.

O migrante, portanto, não leva apenas sua história, mas também o modo como aprendeu a estar no mundo — e é esse modo que, diante de um novo campo, precisa se reorganizar.

Muitas vezes, o paciente se vê dividido entre o desejo de se adaptar e o medo de perder a própria singularidade. Um dos riscos desse movimento é a confluência — quando o sujeito tenta se fundir ao meio para ser aceito, abrindo mão de aspectos fundamentais de sua identidade.

Nesse ponto, o papel do terapeuta é sustentar o espaço de diferenciação e presença: ajudar o paciente a reconhecer o que nele é autêntico e o que surgiu apenas como forma de sobrevivência.

É também por isso que o atendimento com um terapeuta brasileiro pode fazer diferença.

Não apenas porque a língua portuguesa permite expressar nuances afetivas e sutilezas emocionais, mas porque o terapeuta compartilha referências culturais e simbólicas que tornam o campo mais familiar e acolhedor.

Quando o paciente fala, ele não precisa traduzir suas metáforas ou justificar seu jeito de sentir; há um mundo compartilhado que permite ao terapeuta compreender gestos, expressões e silêncios que são próprios da cultura brasileira.

Do ponto de vista gestáltico, isso significa que o campo terapêutico se torna mais orgânico e congruente. A compreensão mútua não depende apenas da técnica, mas da sintonia entre as histórias e significados que ambos carregam.

A terapia online, nesse contexto, é uma ponte simbólica que reconecta o sujeito ao seu campo de origem, oferecendo um espaço de fala onde ele pode se ouvir novamente como quem pertence.

“Quem sabe isso quer dizer amor,
estrada de fazer o sonho acontecer.”

— Milton Nascimento e Lô Borges, “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” (1972)

A clínica como lugar de reconexão

Em um mundo cada vez mais globalizado, a psicoterapia online amplia as possibilidades de encontro. A tela, quando habitada com presença, pode se tornar um espaço de enraizamento.

Ao poder falar em português, expressar-se sem censura linguística e ser compreendido por alguém que partilha a mesma matriz cultural, o paciente reencontra partes de si que estavam dispersas.

O processo terapêutico, então, torna-se uma travessia: o self se reorganiza, integrando o que muda e o que permanece. A experiência migratória deixa de ser apenas adaptação e passa a ser criação de novas formas de pertencimento.

Atender brasileiros que vivem fora do país é, para mim, acompanhar esse movimento de reconstrução — o nascimento de um novo modo de ser que inclui todas as margens que a pessoa atravessou.

A psicoterapia online, nesse sentido, é mais do que uma ferramenta: é um lugar de encontro entre mundos, onde a subjetividade pode respirar entre línguas, geografias e identidades, sem precisar escolher uma delas.

É a possibilidade de mudar de território sem perder a si mesmo — de continuar sendo quem se é, mesmo à distância.

“Não sei… se a vida é curta
ou longa demais para nós,
mas sei que nada
do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.”

— Cora Coralina, em “Cântico da Volta” (1969)

Referências completas

BHUGRA, Dinesh. Migration and Mental Health: A Review of the Literature. World Psychiatry, v. 3, n. 3, p. 168–175, 2004.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução CFP nº 011/2012. Dispõe sobre a prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologias da informação e da comunicação. Brasília: CFP, 2012.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução CFP nº 011/2018. Regulamenta de forma ampliada os serviços psicológicos prestados por meios tecnológicos e institui o cadastro e-Psi. Brasília: CFP, 2018.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução CFP nº 004/2020. Dispõe sobre os atendimentos psicológicos online durante o período da pandemia de COVID-19. Brasília: CFP, 2020.

CIRINEU, L.; ASSAD, M.; BRAGA, M. “Estrangeiro nenhum se sente parte do país em que mora”: cotidiano de pessoas migradas e refugiadas no Brasil a partir de diálogos com a terapia ocupacional e os processos de corporeidade. Cadernos de Terapia Ocupacional da UFSCar, v. 33, n. 1, 2025.

KUO, Ben C. H. Coping, Acculturation, and Psychological Adaptation Among Migrants: A Theoretical and Empirical Review and Synthesis of the Literature. Frontiers in Psychology, v. 5, 2014.WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO); INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR MIGRATION (IOM). The Psychological Impact of Migration: Vulnerabilities and Resilience. Geneva: WHO/IOM, 2023.

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