Marcio Souza
“A masculinidade hegemônica é uma prisão. Ela impede os homens de serem plenamente humanos.” JJ Bola
Entre histórias pessoais e estruturas sociais
Sempre que leio uma notícia sobre violência contra as mulheres, algo em mim se agita. Não consigo tratar como se fosse um episódio isolado. Lembro das mulheres que já escutei em consultório, muitas vezes trazendo não apenas as marcas visíveis da agressão, mas também as invisíveis: vergonha, medo de não serem acreditadas, dúvidas sobre o próprio valor. Também escuto homens que se sentem perdidos, por não se reconhecerem nesse modelo de masculinidade que agride e controla as mulheres, e que muitas vezes sofrem por não encontrar referências para viver outras formas de ser homem. Outros chegam sem saber como expressar sentimentos — como se emoções não lhes fossem permitidas.
É nesse terreno que a violência de gênero se sustenta. Ela não nasce do nada. Está entranhada em discursos, expectativas e práticas cotidianas: na piada machista que circula entre amigos, na cobrança de que as mulheres deem conta de tudo, na desvalorização do trabalho doméstico, no desprezo pelas emoções masculinas e no valor atribuído ao silêncio feminino. Se não enxergamos isso, corremos o risco de reduzir um problema estrutural a casos pontuais.
Como o masculino se tornou medida de tudo
“A força da ordem masculina se evidencia no fato de que ela dispensa justificação: a visão androcêntrica impõe-se como neutra.” Pierre Bourdieu
Pierre Bourdieu nos ajuda a compreender esse processo ao analisar o poder do masculino. Ele mostra como a dominação se mantém justamente porque se apresenta como natural. O masculino se coloca como medida universal — razão, neutralidade, objetividade — enquanto o feminino é relegado ao campo do particular, do emocional, do secundário.
Nesse contexto, atua a violência simbólica: formas de dominação que não precisam de coerção física para se impor, porque já estão inscritas nas estruturas sociais e incorporadas subjetivamente. É ela que faz com que desigualdades pareçam “óbvias” ou “inevitáveis”.
A violência simbólica se manifesta em diferentes esferas:
- No mundo do trabalho, onde mulheres ainda recebem salários menores, têm menor representatividade em cargos de liderança e enfrentam barreiras para ascender em carreiras tradicionalmente masculinas.
- Na divisão de tarefas domésticas, em que, mesmo trabalhando fora, são majoritariamente responsáveis pelo cuidado da casa e dos filhos.
- Nas cobranças estéticas, que aprisionam corpos femininos em padrões de juventude, magreza e beleza, reforçando a sensação constante de inadequação.
- No julgamento moral, quando a responsabilidade pela violência sofrida recai sobre a própria mulher, questionada por suas roupas, seus horários ou suas escolhas.
Essas práticas corroem cotidianamente a autonomia feminina, criam dependência e reforçam posições de inferioridade. E é nesse terreno, já fragilizado, que a violência física encontra condições de acontecer e ser legitimada.
O amor como prisão simbólica
Valeska Zanello amplia essa análise ao propor a metáfora da “prateleira do amor”. Na cultura ocidental, ensina-se às mulheres que seu valor está diretamente ligado à vida afetiva, especialmente ao amor romântico. Para os homens, o destino é o poder; para as mulheres, o amor.
Esse desequilíbrio gera uma vulnerabilidade estrutural. Se para os homens a identidade social se afirma pelo prestígio, pela carreira ou pela virilidade, para muitas mulheres ela se constrói em torno de ser escolhida, desejada ou reconhecida em uma relação amorosa. O rompimento de um vínculo, nesse contexto, pode ser vivido não apenas como perda afetiva, mas como ameaça à própria identidade social.
Essa lógica produz uma armadilha: mulheres tendem a permanecer em relações abusivas porque perder o amor significa, de algum modo, perder a si mesmas. A “pateleira do amor” sustenta, assim, relações de dependência, legitima práticas de controle e contribui para a reprodução de violências.
Misoginia digital: novas roupagens do velho patriarcado
O avanço das mulheres em direção à igualdade de direitos representa um marco civilizatório, mas também tem gerado reações hostis. Como mostra relatório da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres sobre misoginia no YouTube, cresce em ambientes digitais um conjunto de grupos que propagam discursos de ódio e tentam resgatar uma masculinidade primitiva, baseada no domínio e na força.
Comunidades como os masculinistas, os adeptos da red pill e fóruns de “direitos dos homens” difundem a ideia de que o feminismo teria enfraquecido os homens, ameaçado a família e destruído valores tradicionais. Sob essa lógica, a violência contra as mulheres deixa de ser um desvio e passa a ser apresentada como uma reação legítima de defesa.
Esse fenômeno mostra como o ambiente online se tornou um campo privilegiado para a produção e circulação de discursos misóginos. A internet, que poderia ser espaço de democratização e diálogo, também se transformou em terreno fértil para a radicalização de uma masculinidade ressentida.
Broderagem: cumplicidade que legitima
A masculinidade hegemônica não apenas produz violências, mas também constrói mecanismos para invisibilizá-las. A violência simbólica, como vimos com Bourdieu, transforma desigualdades em senso comum, fazendo com que agressões físicas ou verbais sejam relativizadas, banalizadas ou simplesmente ignoradas.
Valeska Zanello chama atenção para outro elemento: a broderagem, isto é, a cumplicidade entre homens na manutenção de privilégios. Essa cumplicidade se expressa nas piadas machistas aceitas entre amigos, no silêncio diante de atitudes abusivas, na banalização do assédio ou na deslegitimação sistemática das denúncias das mulheres.
Violência simbólica e broderagem formam, assim, um circuito: enquanto uma naturaliza a desigualdade, a outra garante solidariedade masculina para protegê-la. O resultado é um ambiente social em que a violência contra as mulheres perde visibilidade e gravidade, ao mesmo tempo em que se potencializa.
Esse pacto silencioso ajuda a explicar por que tantas mulheres têm dificuldade em denunciar e por que tantas vezes seus relatos são desacreditados. A masculinidade hegemônica se sustenta não apenas pelo exercício direto da violência, mas também pela capacidade de torná-la invisível ou aceitável.
O desafio do engajamento masculino
Não basta esperar que as mulheres resistam sozinhas. É urgente que os homens assumam a responsabilidade de refletir sobre o que significa “ser homem” e de se engajar ativamente na transformação das masculinidades.
O escritor e ativista JJ Bola, em Seja homem: a masculinidade desmascarada, mostra que essa mudança não pode se restringir a ajustes superficiais. É preciso retirar a máscara da masculinidade hegemônica — construída como fachada de força, controle e silêncio — e reaprender outras formas de existir.
Bola aponta alguns caminhos fundamentais:
- Desconstruir os mitos que moldam o senso comum sobre o que é “ser homem”: a crença de que homens não choram, de que precisam sempre demonstrar força ou de que seu valor está na virilidade.
- Reconhecer e expressar vulnerabilidades, reivindicando afeto entre homens e partilhando sentimentos, medos e ansiedades como forma de ampliar o campo de humanidade masculina.
- Reeducar a relação com o amor, o sexo e o consentimento, rompendo com a lógica da posse, com as pressões performativas e com padrões violentos ensinados desde cedo.
- Atuar como aliados do feminismo, reconhecendo privilégios, assumindo responsabilidades no cotidiano e engajando outros homens nesse processo.
Esses passos revelam que não se trata apenas de escolhas individuais. É necessário um esforço coletivo — cultural, institucional e comunitário — para que os homens se sintam convocados a se posicionar. Isso significa deslocar o foco da punição isolada para a criação de ambientes que pressionem e incentivem os homens, enquanto grupo, a romperem a lógica da broderagem e a se responsabilizarem mutuamente.
Cada espaço coletivo — escolas, universidades, locais de trabalho, rodas de amigos, famílias — deve assumir a tarefa de interromper o silêncio cúmplice e estimular novas práticas de masculinidade. Só assim será possível transformar a corresponsabilidade em compromisso real com a não violência.
Amor ético: cuidado e liberdade
“Amar verdadeiramente é um ato de liberdade, e não de posse.” bell hooks
bell hooks, em Tudo sobre o amor, nos lembra que o amor não pode ser reduzido a um sentimento privado. Amar é uma prática ética que exige cuidado, respeito e responsabilidade mútua. Isso implica que os homens precisam aprender a se relacionar não a partir do controle ou da posse, mas da reciprocidade e da liberdade.
Quando o amor é compreendido dessa forma, ele se torna um recurso de transformação das próprias bases da masculinidade hegemônica. Ao abrir espaço para vulnerabilidade e reconhecimento mútuo, o amor se opõe diretamente à lógica da violência e do poder.
Por onde começar a mudança
Enfrentar a violência contra as mulheres exige múltiplos movimentos articulados. Tenho visto, no consultório, como esse problema atravessa vidas de forma dolorosa. Muitas mulheres chegam carregando violências simbólicas e físicas, mas responsabilizando a si mesmas. E, quando enfim criam coragem para falar com alguém, recebem respostas que as desacreditam: conselhos de como “contornar os humores” de seus companheiros, como se fosse delas a tarefa de evitar a agressão. Esse silenciamento reforça a lógica perversa da desigualdade.
Também atendo homens que, em um primeiro momento, não conseguem sequer identificar seus próprios sentimentos. Muitos não desejam machucar suas parceiras, mas, à medida que conversamos, percebem que os mecanismos de violência — sejam eles de controle, de desprezo ou de invisibilização — estão entranhados em suas identidades. Reconhecer que são eles próprios os causadores do sofrimento vivido é, para muitos, um choque difícil, mas também o início de um processo de responsabilização e mudança.
É a partir dessas experiências que percebo como a transformação precisa ser coletiva:
- Políticas públicas e responsabilização penal, para conter a violência física e proteger as vítimas.
- Educação e debate cultural, para desnaturalizar a violência simbólica e expor seus mecanismos sutis.
- Espaços de reflexão masculina, que favoreçam a ressignificação das masculinidades e o questionamento dos mitos que as sustentam.
- Práticas éticas do amor, como lembra bell hooks, para transformar os vínculos em relações de cuidado e liberdade.
- Corresponsabilização dos homens em cada espaço coletivo, de modo que a mudança não recaia apenas sobre as mulheres ou sobre agressores isolados, mas se torne um processo de engajamento masculino contínuo e compartilhado.
Esse último ponto é crucial. Romper a lógica da broderagem implica que nós, homens, deixemos de ser cúmplices silenciosos e passemos a atuar como aliados ativos, pressionando uns aos outros a repensar comportamentos, reconhecer privilégios e assumir responsabilidades. A transformação, portanto, não virá apenas de leis ou de políticas públicas, mas de um esforço cultural e institucional que convoque os homens, como grupo, a se posicionarem.
Mais do que respostas imediatas, trata-se de repensar os alicerces das nossas relações. A violência contra as mulheres é um problema coletivo — e eu vejo seus efeitos todos os dias em minha escuta clínica. Só será superada quando deixarmos de normalizar a violência simbólica e passarmos a cultivar relações éticas de amor, cuidado e liberdade.
“O amor é um ato de vontade — a escolha de nos comprometermos com a liberdade de nós mesmos e dos outros.” bell hooks
Referências
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2019.
ZANELLO, Valeska. “A prateleira do amor”. In: Papo de Homem. Pesquisadoras que você deveria conhecer #3. Disponível em: https://papodehomem.com.br/valeska-zanello-pesquisadoras-que-voce-deveria-conhecer-3/
. Acesso em: 06 set. 2025.
BOLA, JJ. Seja homem: a masculinidade desmascarada. São Paulo: Planeta do Brasil, 2021.
HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2021.
BRASIL. Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres. Relatório completo: Estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube. Brasília: Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/publicacoes/RelatrioCompletoEstratgiasdiscursivasemonetizaodamisoginianoYouTube.pdf . Acesso em: 06 set. 2025.
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